setembro 28, 2003

dor

Nem sempre é chaga a dor
Às vezes as manhãs silentes são o reverso da luz
Os orvalhos e as silhuetas exangues,
Os Outonos precoces
Os olhos devastados das gentes cansadas.

O poeta é a dor
Porque na multidão nem sempre a boca é aberta
O sintoma está no poema
Que se escreve com a pele

O domingo ergue-se fingido como dádiva do Senhor
A manhã branca é tudo o que não cresce, não fermenta
O pão sagrado da missa é a teimosia da paz.
O sacrifício, o suicídio da acção

O poeta guia o seu automóvel pelo pinhal, ao meio da tarde
O padre faz a sesta depois de almoçar
Tudo muito profissional


A chaga não existe, mas continua a dor

Publicado por constalves em setembro 28, 2003 02:13 PM
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