Nem sempre é chaga a dor
Às vezes as manhãs silentes são o reverso da luz
Os orvalhos e as silhuetas exangues,
Os Outonos precoces
Os olhos devastados das gentes cansadas.
O poeta é a dor
Porque na multidão nem sempre a boca é aberta
O sintoma está no poema
Que se escreve com a pele
O domingo ergue-se fingido como dádiva do Senhor
A manhã branca é tudo o que não cresce, não fermenta
O pão sagrado da missa é a teimosia da paz.
O sacrifício, o suicídio da acção
O poeta guia o seu automóvel pelo pinhal, ao meio da tarde
O padre faz a sesta depois de almoçar
Tudo muito profissional
A chaga não existe, mas continua a dor