setembro 30, 2003

Meu caro diário, 30/9/03

há uma folha em branco num qualquer dia,
água e luz,
certezas que não ouviram palavras
que não se igualam ás serpentes e às montanhas
a reis ou marinheiros, a sereias ou às raras orquídeas.

elas estão nas nuvens e nos céus porque não encontro arcas mais fechadas
que guardem o que se imagine ou se cace nas ideias.

O que se conquista no aço dos dias, a limalha
não serve ao sonho e ao espírito, só fermenta

Claro podia ser gordo e fazer do espírito um pudim
e rir e folgazar e ser um sacana de plumas douradas
podia fazer do espírito a bicicleta de ginásio e contar sucessivas anedotas tolas
e seria um bem sucedido inocente feliz

(o se também não é palavra para este diário
e se tivesse uma página seria a primeira e a última porque seria igual à tv)

Haverá essa página em branco
num futuro ou numa memória
num momento em que a torre de babel se calará
e os ângulos e os erros de paralaxe se esbaterão
numa planície de coisas surpreendemente inimagináveis, que até não será planície
tão simples será ou foi

e só tu saberás meu caro diário
quando te reunires com os outros diários de outras gentes e de todos os planetas
quando jogarem uns com os outros um lento dominó com as palavras
que vos parecerão disformes mas fundamentais
para só então compreenderem
e

nós
também!

Publicado por constalves em setembro 30, 2003 08:32 PM
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