Meu caro diário
tu és a minha prova de vida
como num teatro eu posso resmungar, gritar, sentir
tu és o meu espaço vazio tão caro a Brook,
também muralha onde posso jogar "pelota" com a razão,
pintar o mural com a alma, exercitar
precisar a experiência química com as palavras
beber-me de verbo e lavar-me da saudade,
fazer a existência emergir.
Sem premeditar
crio-te como espelho de uma imagem minha que não tenho.
desculpa-me já és mais que um papel:
és um ser
como uma árvore ouves
como uma pedra és
e vencerás o tempo
serás eterno memo depois do bolor do papel
porque também és espírito,
relicário do inefável
e tudo o que se transforma em nada pode ser
um dia morrerei tranquilo
e tu algures permanecerás fiel e flor
algures na árvore que crescerá da terra onde tombei