
Acusação
por Constantino Alves e José Gil
nunca me poderás acusar
de ter deixado de ser apenas
um palhaço
vivendo nas margens do rio doirado
da humildade
estive quase sempre ausente
nunca me poderás acusar
do branco infinito das
cidades brancas
A acusação também é o martírio das pedras,
do inerte
e nada sobra para as `
àrvores que são o
verdadeiro deus que nos
julga sem perdão
mas com as àrvores a história é outra
a carne é que me dói!
no martírio ledo da adolescência
os olhos levantam as tuas pernas chinesas
e as meias prendem-se nos ganchos do teu cabelo
Podes-me acusar de tudo
menos da verticalidade
dos pastores abraçados às àrvores
e das árvores beijando
comovidas o pastor
podes vibrar a última espada
sobre o meu pescoço de palhaço
e ganhar o voo das aves
e o céu das sedes
chove e o pastor inicial morreu.