outubro 26, 2003

O derradeiro poema


Munch

O derradeiro poema
por Constantino Alves e José Gil


Até os andaimes caiem
no dormir ventoso das
estrelas
a cúpula dos andaimes
deixa caír a
saia verde
e dor por dentro do
solo dos planetas
eu queria inventar outras palavras
para amor, ternura, carinho
Há entre as sílabas das palavras
muito mais que sentimento e emoção
há tudo o que perdemos
no tempo entre um
segundo e outro
Se fosse o fim
eu queria sorrir
para todos, para os meus filhos

no acrílico de dentes e lábios
em tela preparada a óleo
no degrau da escada da
morte
legitimo todas as confissões.
Dogville obriga-me a escrever
de pé.
Escrever de pé com uma
caneta
na ponta da vassoura mágica.

eu queria conhecer as acácias
como Camões conhecia o verso
mas a minha desculpa
está neste todo em que ponho
nas linhas de um poema
Caiem prédios e torres de concreto
e é o fim
o curioso é depois
a palavra emergir em
nós como no tempo ou no céu
e servir-nos de futuro.
precisamos sempre de aprender a eternidade.
A poesia é um polvo
tenticular
chega a todos, irmãos,
pais, avós
a poesia é
a peripécia do corpo

e o corpo não tem fim










Publicado por constalves em outubro 26, 2003 07:41 PM
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