
Vincent Van Gogh
imagino as árvores que não estão cá
imagino as árvores que não estão cá
e na sua sombra poderia estar a beber esta bica
e eu seria outro
e o café!
poderiam as ramagens das árvores fazer o meu olhar
e os cheiros e os ventos fazerem-me a vontade
e eu não teria de crer na pulsação cardíaca da manhã
seria também a árvore o rio e a esplanada
seria o espaço
e não seria este m2 de fé
poderia, nesse caso, como as árvores
ser passado presente futuro
e não ser este relâmpago de existência
entre o ruído opaco de gente relâmpaga
a droga que a bica dá
faz viver o reflexo longínquo
das àrvores que não estão cá
de ínfimas pontes é também feita a manhã
mas que sombra darão as ávores ás palavras em chamas
que em mim procuram condição?
Não saberei
aqui não há árvores
só um outono violento num deserto habitado por multidões
as palavras procuram as árvores
e eu que as não tenho serei sempre este monstro mudo
de serpentes escaldadas escrevendo sonhos
e vivendo "ses"
agora na rua continua a não haver árvores
mas haverá poemas e ses
ligo o rádio no carro
rodo a chave de ignição
esfrego o dente sujo de café