
"mar" Kandinsksy
há tudo para crer amanhã.
o poema começa nos pulsos
no drenar baptista do sangue
e a mão abre-se no ínicio da ideia(relâmpago avulso do corpo)
há uma casa e um leão como o sonho anterior aos passos na rua
e o cubo da existência abre a flor como o dia abre a cor
tudo são palavras, o poeta resume o tesouro.
deixei-te alguns dias no branco da página do teu corpo, diário.
nem sei se existes e sei que és menos que o morto
na explosão de Setúbal. há um fim sempre depois do poema.
Não me importa o cadáver, importa-me a dor que fica,
os sonhos da pessoa que deixou de ser passam agora para mim.
Não importa. Nem importa a minha má consciência. há ricos e pobres ponto final.
o mar também está nos pulsos os pulsos são um búzio. podemos orar.
Quero que a prece seja especial. Quero orar a Herberto Hélder. Sentir.
o meu diário, tu, és especial, não és um poema, tu és a poesia que passa por mim.Só
não tenho vivenda na praia, não podia ter.
rompem-se os lenços no cais palavra e outro poema regressa, contabiliza-se os grãos de areia
falta sempre um
não sei sempre se há maré , os ventos levam os ácaros e as preces.
o meu poema é vazio não podia deixar de ser, não tenho vivenda ao pé do mar
o morto da explosão de Setúbal também não tinha
restas tu, diário
sempre tu
as palavras e eu de cá
os poemas nascem nos pulsos como os búzios a dizerem o mar
há demasiado sangue nas praias
há demasiado diário nas palavras
há um poema de Herberto Hélder " A minha cabeça estremece"
há respeito. há silêncio
há tudo para crer amanhã.