dezembro 21, 2003

Prefácio póstumo


Prefácio póstumo


Um diário não é um rol de solidões
Não é um breviário de sonhos
Nem uma enciclopédia de dores
Nem um altar de devoções

São palavras cosidas à mão
tecidas no tear da alma
com fios de solidão.
projectos que se contemplam
no científico epicentro
do eu geográfico do continente dos outros.

Não há ar nem vento
no papel amadurecido do diário
mas sim uma brisa de poesia que
trespassa o eu vibrante e vivido
E porque da palavra volátil
é imperioso que se faça matéria
a minha voz terá a espessura necessária,
tanto cómica como séria.

Não falarei de histórias e notícias
mas estará aqui sempre a poesia
do que perpassa
nas noites e nos dias.

Aqui haverá sempre um leitor fiel
para lá do que outros queiram ser,
eu e a vida,
como escrevo:
no precípicio da virtude possível
e da honra do razoável.

Não quero perpectuar
o pacto da forma com o conceito
mas prometer o belo
sem o compromisso do interesse.

Se for preciso matar a poesia
para que se tire o grito da garganta obstipada
que mate!
mas
que eu escreva sempre a palavra

" e seja então o vento lá fora
a fazer nos cabelos vivos de uma mulher
a estética do futuro
que afinal é só isso
que a poesia procura"

Publicado por constalves em dezembro 21, 2003 12:28 PM
Comentários

Belíssimo. Parabéns Constantino. Abraço e Boas Festas.

Afixado por: Carlos A. Silva em dezembro 21, 2003 08:07 PM