
Derek Mccrea
4/1/4
primeiro é a flor que
se abre nas mãos desertas,
a manhã vem também
nas descobertas dos olhares claros.
Há corpos nus de Almodôvar
nas copas dos pinheiros que tentam a claridade
e noites preteridas nas esquinas confusas
das ruas e avenidas dentro da cidade
há um tempo sem espaço
um espaço sem tempo
um automóvel que circula devagar
mulheres maduras comem lânguidamente o pequeno almoço.
todo o poema é a minha vida
a vida que se escolhe
a vida que se consegue.
Por isso lavo as mãos
numa água límpida de palavras
alabastro
transparência
formidável
azúli
incandescente
espectacular
semblante
caleidoscópio
e todo o tempo
que ainda é nosso
um espaço entre um acto
e outro acto
lavo os dentes, visto o casaco
um sorriso para ela
e
um silêncio
S.Pedro não é mais que uma praia
mas é uma praia que outros não vêm...
é um tesouro
é um espaço
é um tempo
faço amor nas bocas, as bocas falam.
Acordo.
o poema é um lento espreguiçar do verbo
as bicas tornam-se sonolentas no precípicio das árvores
e eu
queria
Portugal no zénite
queria que o desejo se prometesse
que fosse Ruy Belo e Sofia Anderson
e as
estátuas dos poetas fosssem obrigatórias
nos patamares dos cafés
e
houvesse um Brasil verdadeiro
nas notícias e nas palavras
O Poema é a nossa vida, o nosso desejo
e
o que se consegue da vida
é o espaço que é poema que é meu e dos outros.
"Os homens são todos iguais",
diz a mulher do bar onde escrevo este verso.
Somos todos iguais
não há diferença
E as mulheres, que bom, são todas iguais, diferentes de nós.
o prazer agora ocupa as mãos
abertas do príncipio do poema.
Não há flores. Estas prometeram, eu cumpri.
Estou aberto.
para sempre.