janeiro 11, 2004

de onde vivo não vejo as estrelas

de onde vivo não vejo as estrelas


de onde vivo não vejo as estrelas
não há zumbidos de abelhas
nem grilos contentes? à noite
nem os cães exageram nos latidos afastando a solidão
nem sequer eléctricos arrastando o tempo das cidades
nem pregões de outros tempos lembrando a proximidade das fontes das coisas que nascem ou se erguem
que nadam ou que pastam
nem há cortinas de nylon amarelas nas janelas pintadas de verde
também não há silêncio
nem vizinhos (quem é aquele que nunca cumprimenta?)

já não preciso nada disso...
habituei-me ao vácuo metereológico de um ambiente assim
aqui nada muda
a não ser de tempos a tempos o vácuo ficar prenhe e depois gerar mais vácuo a que me habituo rápidamente

se olhar pela janela (o que nunca se deve fazer...)
vejo os outros igualmente habituados a esta toada vazia
sem pressas
alongando o vazio nas suas preces que tecem nos acenos aos outros que nunca fazem


e que interessa os outros?
que interessa eu?
que interessa as estrelas que não vejo do lugar onde vivo


não há casas,
não há jardins
não há grilos
nem zoos

só uma recta distante
um poema belo que brota horrível da minha boca

e só resta este lugar danado:

a solidão!

Publicado por constalves em janeiro 11, 2004 10:38 PM
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