janeiro 12, 2004

a verdadeira realidade


a verdadeira realidade

Se eu pudesse depois de subir a montanha
pegar o vento, saber a temperatura da noite
e estivesse noutro tempo
à lareira, no cepo sentado
encantado de ouvir as tempestades em histórias
com afagos de medos dos velhos e dos cães sossegados
horizontal nas vozes ternas das mães cuidadosas
voar lentamente na brisa que desce a encosta
espreitar o mármore deitado das gentes
arquitectado na noite para as preces...

a realidade é à noite e tem vento
segregado pelas mãos e pelos olhares cansados
misturados com luzes amareladas
e com brasas das dores
e voz de um Deus inventado sempre e grave

e as samarras e os xailes secos e ruços dormindo
nos corpos explêndidos que só brilham na lua distante

(há demasiados computadores e números no vácuo das cidades (falta-me outro termo, também ninguém se interessa para o criar)
e todo o limite que utilizo não é a realidade
nem a verdade corrente devia servir de diapasão)

e a brisa corre os lugares e faz promessas

e eu no monte
e tu leitor noutro monte distante...

Publicado por constalves em janeiro 12, 2004 09:18 PM
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