
Joan Miró
Há uma velocidade
Há uma velocidade
na roda das estações
métrica precisa como benevolente
que nos respira o tempo
nas odes das nossas palavras
faladas ou carinhosamente adormecidas na memória
e também há verve sublimada nas cores
que se desbotam noutras
sempre revelando os novos embriões da vida
todas as engrenagens desta peripécia constante
é ouvida nas preces e no decanto dos afectos aos outros
e a perversidade está na mudez
que alguns não reflectem indomáveis ascetas do Segredo
(nem por isso deixam de ser àrvores ao sabor do tempo)
há uma velocidade...
e toda a corda dada ao universal relógio
tem uma finalidade indestinta
até agora só percebida no corpo ou melhor no grito.
o fogo sereno da lareira, a maré solar da tarde
são valsas lentas para que se leia um destino tão certo como dolente
e estou certo que esta velocidade das engenagens rodando pragmáticas as estações
é uma mão divina que nos exige o nosso destino
mas então para quê a alma?
e se tudo não tivesse pergunta
e o poço fosse sem fundo
e não houvesse poço nem fundo
constantemente
numa velocidade constante
plana
em direcção
ao futuro
e nunca se chegasse
e a dúvida ardesse no Inverno à lareira lenta
que empurra a engrenagem cósmica
na força sabe-se lá qual delas
e o Inverno tivesse sentido...
então eu perceberia...