
Nos minutos que antecedem a alva
As gaivotas despedem-se do Deus negro
S. Pedro é apenas uma rocha
Fundida nas asas do mar
Na maré viva o tempo ousa
Sagrar os lugares como um desenho rupestre
Eva desce do firmamento em pedaços de sol
ouve os coentros em cristal, o pecado fragmentado em blues profano
Não faltam navios no vazio
O nevoeiro adensa-se por dentro da pele de Eva
Apolo matou Adão e roubou o sol ao mar
Eva negra constrói a trança sentada no espelho
A trança atalhe a cintura fina e Portugal está exposto na praia, permanentemente.
Os veleiros constroem o vento por habitar.
O Deus negro são as gaivotas deitadas no espelho
da noite – uma égua voa entre as pernas de Adão
O mundo tem duas partes planas invento
um planisfério à volta do teu umbigo
só me lembro das crianças e de minha mãe
tudo é opaco e verde como a hortelã dos
sentimentos , gosto de comer o silêncio
com palavras cheias de dentinhos redondos
o fumo desvanece as imagens sobre a areia
repete-se o domingo na esplanada das
mesquitas. Rosa espera o namorado, João
areia o relógio ,a língua estava morta junto
aos ponteiros do coração. É domingo as horas
dormem na rocha de S. Pedro , podíamos habitar
a Fundação e adormecer o canto na vertigem
dos violinos só o sol se esquece do que é a música
eu chamo as rochas invento uma sinfonia de pedras, o poema é feito pelo mar, o restaurante está aberto. Saberemos cumprir o dever do pão
o caminho verde da carne e o vinho branco
das lágrimas. Estou grávido de esperança mas tento esperar nove luas para que o mar se lembre de mim e traga as gaivotas de volta .Não se prende o continente nem o mar é só água nem as nuvens só olham nem eu sou só voz
alimento o Deus do acaso a ovelha negra do caos
quem não sabe o seu labor assim exposto
pouco sabe das vísceras da tristeza Não ouço
musica há tanto tempo, sou apenas sal e sou invisível despedaço as vísceras e grito
claro, que falta uma pele, uma árvore, uma torre
nem o poema é só mar, nem eu estou aqui
como um fruto seco do oceano, invente-se o vento na China, erga-se uma bandeira em Portugal que haja montes, rios, aguarelas,alimentos, desejos, paixões, versos, e tu não fales naquele dia, o dia um.
Rosa e João beijam-se devagar na primeira porta
da varanda de S. Pedro. Todas as pedras olham
e endurecem a própria solidez. Jogas as pedras
contra as pedras e tenta polir todas as almas
só o fumo salta, explode entre a água e a onda
o politico inventa a quadratura do verso, o parlamento das aves faz sal. Uma pomba desliga
o fio do horizonte .
Sempre a dor do paraíso, sempre o imperador
da flor da saudade, acácias do teu peito em bico
faltam animais na praia, o salto do gato, o latir do cão ,uma bica sem açúcar, o martelar de velhas locomotivas,um rolo de carne, por favor!
Rosa e João voltam ao traço da animação
Seguram os dedos contra a pele do céu, arrepiam
o próprio gato no aniversário da água
o bibliotecário arruma sistematicamente o mesmo livro no mesmo lugar
José Gil, Constantino Alves e Jorge Vicente
Praia de S. Pedro de Moel
24-10-2004
Publicado por constalves em outubro 24, 2004 05:33 PMBelo diário.
Um abraço.