outubro 24, 2004

O DIA UM


Nos minutos que antecedem a alva

As gaivotas despedem-se do Deus negro

S. Pedro é apenas uma rocha

Fundida nas asas do mar

Na maré viva o tempo ousa

Sagrar os lugares como um desenho rupestre

Eva desce do firmamento em pedaços de sol

ouve os coentros em cristal, o pecado fragmentado em blues profano

Não faltam navios no vazio

O nevoeiro adensa-se por dentro da pele de Eva

Apolo matou Adão e roubou o sol ao mar

Eva negra constrói a trança sentada no espelho

A trança atalhe a cintura fina e Portugal está exposto na praia, permanentemente.

Os veleiros constroem o vento por habitar.

O Deus negro são as gaivotas deitadas no espelho

da noite – uma égua voa entre as pernas de Adão

O mundo tem duas partes planas invento

um planisfério à volta do teu umbigo

só me lembro das crianças e de minha mãe

tudo é opaco e verde como a hortelã dos

sentimentos , gosto de comer o silêncio

com palavras cheias de dentinhos redondos

o fumo desvanece as imagens sobre a areia

repete-se o domingo na esplanada das

mesquitas. Rosa espera o namorado, João

areia o relógio ,a língua estava morta junto

aos ponteiros do coração. É domingo as horas

dormem na rocha de S. Pedro , podíamos habitar

a Fundação e adormecer o canto na vertigem

dos violinos só o sol se esquece do que é a música

eu chamo as rochas invento uma sinfonia de pedras, o poema é feito pelo mar, o restaurante está aberto. Saberemos cumprir o dever do pão

o caminho verde da carne e o vinho branco

das lágrimas. Estou grávido de esperança mas tento esperar nove luas para que o mar se lembre de mim e traga as gaivotas de volta .Não se prende o continente nem o mar é só água nem as nuvens só olham nem eu sou só voz

alimento o Deus do acaso a ovelha negra do caos

quem não sabe o seu labor assim exposto

pouco sabe das vísceras da tristeza Não ouço

musica há tanto tempo, sou apenas sal e sou invisível despedaço as vísceras e grito

claro, que falta uma pele, uma árvore, uma torre

nem o poema é só mar, nem eu estou aqui

como um fruto seco do oceano, invente-se o vento na China, erga-se uma bandeira em Portugal que haja montes, rios, aguarelas,alimentos, desejos, paixões, versos, e tu não fales naquele dia, o dia um.

Rosa e João beijam-se devagar na primeira porta

da varanda de S. Pedro. Todas as pedras olham

e endurecem a própria solidez. Jogas as pedras

contra as pedras e tenta polir todas as almas

só o fumo salta, explode entre a água e a onda

o politico inventa a quadratura do verso, o parlamento das aves faz sal. Uma pomba desliga

o fio do horizonte .

Sempre a dor do paraíso, sempre o imperador

da flor da saudade, acácias do teu peito em bico

faltam animais na praia, o salto do gato, o latir do cão ,uma bica sem açúcar, o martelar de velhas locomotivas,um rolo de carne, por favor!

Rosa e João voltam ao traço da animação

Seguram os dedos contra a pele do céu, arrepiam

o próprio gato no aniversário da água

o bibliotecário arruma sistematicamente o mesmo livro no mesmo lugar

José Gil, Constantino Alves e Jorge Vicente

Praia de S. Pedro de Moel

24-10-2004

Publicado por constalves em outubro 24, 2004 05:33 PM
Comentários

Belo diário.
Um abraço.

Afixado por: João da Cal em outubro 27, 2004 10:14 AM