dezembro 09, 2004

Tágides


(poema escrito na tertúlia Tejo em 08/12/04)

Habitua-te a ver o Tejo sem barcos
Nota apenas as gaivotas pousadas
Na borda do rio
Imenso, como o vento
No limite dos dias serenos
Onde a vontade e o dragão se fundem

Habitua-te a ser um rio que flui.
Nasce a raiz do dia a névoa passa
Como o vento em cada folha

Trago a cenografia do teu corpo esguio
Numa caravela engalanada de flores de papel
Pela mãe, pelo mar e pela mão volto à vela
o palco onde o actor traz o movimento da escrita.

Os teus olhos verdes são a escrita, a própria
Transfiguração das palavras em algo palpável.
O universo feito olhar,
Todo o voo é feito de folhas e de seiva brilhante,
Nasce o Universo e as folhas morrem e nascem
Novamente, triste é a vida que não é vivida
Nem os teus olhos são vertigens de memória.

Só a vertente agreste da nostalgia transparece
No vento
E os corvos marinhos são sombras nocturnas
Nos meus olhos de espelho tardio.

Vem, corre a água agreste dos teus lábios de sal
E pronuncia a alma dos peixes.
Mergulha na maresia dos meus dedos
Os segredos azuis das algas
Vem, água das ninfas perdidas, lava-me os pés
E leva-me para orientais emoções
Sem fazenda e especiarias
Navega-me nos escolhos dos náufragos
E fica-me na ilha da judiaria, perdida no Índico mar.

Vela as palavras debruçadas
sobre a existência intima da solidão
sabes, o mar é meu
as ondas vigiam os ventos adiados
e uma gaivota gravita.

Vela onde o actor parte a onda solidária
Habitações de pão e romãs, máscaras tão

Claras como a rua da hortelã

Dança com a vela acesa onde os seios dobram
E a estrada reparte todos os segundos
A longa vela do oriente amado e secreto
Desfralda – se ao secreto vento da palavra
A palavra é tudo o que eu tenho e não tenho
É a vida, é a morte, é o todo


Vela que sulcou o mar no sentido suão
Em busca de novos amores

Vela que se despedaçou na tormenta
Dos amores que ficaram em terra.

Habitua-te ao mar sibilino que te traz no segredo
a ternura pelas coisas, por ti pelos os outros,
faz do mar da palha um país inventado em todas as cores
e poentes. Faz a madrugada na Lisboa aberta,
estende todas as alvoradas que nascem no ventre
dos começos.

Lisboa prenhe.

Constantino Alves, José Amor, José Gil, José Félix, Maria Gomes, Jorge Vicente, Teresa Bruno Sousa, Gonçalo Bruno de Sousa

Publicado por constalves em dezembro 9, 2004 04:47 PM
Comentários

que belezura!
Não posso dizer mais nada estando no interior do grupo que escreveu o poema e sabendo como foi longo o trabalho e sobretudo diverso, atento,inspirado pelo tejo, pelo rio que somos todos os que ali estavamos com luz .Não percam e divulguem.
Talvez um pequeno postal ou um pequeno poster com foto para mostrar publicamente o que se vai fazendo e se vai fazendo saindo da poesia a só,
http://diariopoetico.weblog.com.pt/

Afixado por: jose gil em dezembro 9, 2004 07:37 PM