dezembro 26, 2004

“Quem tem fome sonha com pão”


a partir de um documento sobre "pão" na revista CAIS - um excelente artigo sobre este tema de uma excelente associação de apoio aos sem abrigo

“Quem tem fome sonha com pão”,

No musgo verde a broa fria.

Um círculo de carne, humús da vontade. Boca

E cereja, o umbigo rente à língua, em calda

e ao sonho.

Nos mosteiros, os Jerónimos, com o povo.

melhores que as palavras, porque dizem o sol, as mãos suadas,

um corpo que vai daqui para as pernas, dos pés para as mãos.

O que desenham os feijões?

No teu corpo apenas as ancas quentes e a rua longa.

Ai! Se eu pudesse pôr um rio líquido de pão nos peitos,

nos verbos, a levedura da memória mesmo no luar verdadeiro

como lava inquieta devorando o verdete do sentimento.

Se o pão pudesse ser uma janela,

Todos os dias à mesma hora, o padeiro,

De manhãzinha, servindo versos de farinha

em Belém, para falar dos pássaros

no rio do trigo e inventar uma areia de luz

e luz e luz e grãos.

Pão que projectas a rocha mais divina e delicada.

Pão que é sítio da palavra.

Mar de ostras de cevada, anjo de milho, no meu caminho

Vou e volto, volto e vou da casa à alma, do céu aos altos.

Constantino Alves, José Gil e Sónia Regina 25/12/04

Publicado por constalves em dezembro 26, 2004 03:29 PM
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