
Crua a palavra em pequeno bloco
Na laranja mecânica da cidade à noite.
Estátua viva de sal, a poesia não morde
O museu nem a imortalidade,
Antes escorre lânguida entre os espaços que a imagem deixa.
Correm as cortinas de Buñuel a Lorca na Península de pedra.
Freud escreverá a D. Quixote um poema em bronze nos moinhos,
as santas pombas das velas da saudade.
Quem matará o tempo que o poeta vive no limbo do texto?
Parte-se a vitrine dos Etruscos, emergem as atelanas romanas,
Abre-se a boca dos gregos,
Homero é a Pátria do verbo.
Bate a palavra no soneto de Petrarca,
Matraca o hacai de Bashô,
Solta-se a Divina Comédia
Na moldura do circo romano,
O soleil de metáfora em metáfora.
Cesariny sai da pastelaria da miniatura do museu.
Lurdes da Costa desenhará as sombras
Onde Noronha da Costa escreverá a luz,
Porque não se ouve nada além do vento
No que sobrou das embarcações dos Fenícios.
Olhe só! Ele olhando a morena,
Quem é? Só pode ser Vinicius
Eterno enquanto dure a poesia.
Resta-nos o sabor de Belém.
Constantino Alves, José Gil e Sónia Regina 25/12/04