
escreverei depois esse livro,
quando se fizer a palavra que falta,
pois eu não percebo ainda
o que é isso de ter coração e não sentir,
de ter mãos sem suor e rir em voz alta.
A palavra que falta é uma bomba
e será dita ao telefone,
na missa e no parlamento,
nas finanças e nas creches,
balbuciada pelos velhos,
não fará mal ao ambiente.
Quando ela for inventada
não se dará por ela, nos livros
ou nos jornais, nem constará dos dicionários.
Estará prenhe de multiplos verbos
e não será novidade, não haverá notícia do seu nascimento.
Será verde e poderá ser uma árvore,
mas nunca ninguém a conhecerá,
estará talvez num jardim de uma casa desabitada,
ou num poema de Ramos Rosa. Não será certificada.
O notário teria de ser poeta e ter vivido há mais de mil anos.
Pouco importa essa história, será uma bomba.
E o que ela fará?
Não estarei cá. Com toda a certeza
será.... uma palavra de agradecimento.
Não será a Esperança, nem muito menos a Fé.
Quando ela for inventada, já há muito
Que haverá todas as respostas aos silêncios e aos pedidos,
vacinas para o sofrimento, economistas com talento,
políticos verticais. Não haverá fome e muito pouca guerra,
não haverá futebol, alguém por engano o terá exterminado.
ainda haverá pobres, aqui e ali, por opção de um qualquer arquitecto pós modernista de vanguarda que terá escapado ao esteta todo
poderoso rei.
Não haverá internet, só radio e mp3. A televisão passará outras coisas
para outras pessoas. E eu não estarei cá.
Essa palavra será uma bomba e eu não estarei cá
Não estarei cá.
Essa palavra será uma bomba.
Será uma bomba.