Tudo poderia acontecer num bar…
Como a musica aflita que oiço baixinho
no meu sepulcro quotidiano.
Ficarmos mais perto da morte por vezes
dá-nos a alegria de estarmos vivos
Os ciprestes das notas de música sobem azuis
esbatidos nas cores púrpuras do céu
e o fim é uma linha gorda da meta definida
que contenho na escrita de água que crio
O meu corpo é a extensão de um Jazz monocórdico
em que a melodia é a língua métrica e molhada da atmosfera
As sombras ,por serem num bar, são gente com todo o tempo da noite
que circulam sem pressa nos risos das mulheres enfim soltas das vergonhas do dia
A omnipresença de Deus não permanece nos espelhos comprometidos com as penumbras iconoclastas
E a luz contida nos olhos molhados de todos é apenas o fogo fátuo que faz movimentar os cadáveres ociosos que mergulham em sorrisos desprendidos da bagunça do dia
No balcão poderia planear com calma milimétrica o meu suicídio inesperado
ou pensar que o mundo mesmo assim é pouco
pouco mais que o Wiskey rodando no copo
E a ansiedade é uma seta mortal do futuro.
O remorso acerca-se de nós sem piedade
e não há prece que se compatibilize com a posição circunflexa que tenho ao balcão.
A gramática da noite é diferente da do dia,
por perspectiva
sintomática de um corpo que decompõe na ausência da luz
ao invés das plantas que não sabem o sono
e sabem a virtude do tempo.
O escuro é a morte e o suícidio é tudo o que sabemos fazer sozinhos.
Não há ilhas neste mar perplexo da ostentação dos homens.
Os montes de terra que emergimos no oceano
são as nossas vaidades e os nossos complexos.
Os amores são as pequenas faíscas das lâmpadas dos candeeiros art-deco do bar,
sem sequência e iluminando pequenas pradarias ,que pela virtude do verde
nos incendeiam a alma sempre apagada na métrica dos anos.
Aprendemos a amar, mas só depois do incêndio
quando caminhamos cegos de ar pelos montes acéfalos
perdidos na vertigem da posse
Também num bar não há vazio
embora a leveza com que baixamos as pálpebras num acto reflexo a tudo
nos leve a pensar que existência é uma praia sem limites e de toda a luz
O vazio, só o sabem os astronautas que nem bebem wiskey e até comem alimentos em gel pré-fabricado e embalado sem imponderáveis filosóficos que só se sabem num bar
O vazio, é também da matemática ou da física e necessita de demonstração
Lá fora e no dia tudo é átomos e moléculas, sentimentos espessos que se agarram
á pele que usamos todos os dias.
A obsessão do vazio persegue-me como se fossem ideias que querem ocupar os poemas
e fazer das palavras hinos perpétuos e gargantas inteligentes que nunca nos deixassem sem canções
Só o sei nos versos, mas sei que a morte ou nada não está seguir aos verbos
e só os corpos fraquejam quando há dor.
Poderia agora sair do bar e olhar as estrelas e sentir o fresco do vento que faz lá fora,
sairia confessado e o silêncio seria uma vez o coro que tanta vez fez falta a tanta gente
mas está tudo tão perfeito,a cor recheada de veludo do Wiskey simpatizando comigo.
Os reflexos dos rostos simétricos com o cheio do som de Milt Jackson, num tom longínquo de melodia como se o som existisse desde sempre
como as notas fossem átomos do mistério afinal de contas de tudo
O copo gira concêntrico em sentido contrário à rotação da Terra
não sei se Saturno gira para este lado
mas o Universo é tão extenso…
Decomposta pelo meu hábito de escavar nas palavras
Assomas-te brilhante em alma na virtude das nuvens
Os teus outros pedaços
estão perdidos na seda escura da noite
e a candeia do meu coração gasto de saudade
apaga-se no ventre górgio da lua.
Para fazer dia…o puzzle das palavras terá que estar completo.
Para isso juntarei todos os versos dos meus poemas
e farei o feitiço do verbo.
Tu poderás ser impossível
mas o meu epitáfio será escrito
na fenda aberta da nossa ternura
Poderei ter escrito tudo o que não era para dizer a quando do nosso primeiro beijo
mas o amor é a nossa chave para o mundo
…e o mundo não espera…
fica então a alma,
e que por estarmos vivos parece parodoxal
(a alma parece-me tanto a morte)
Sabes…recusamos ser iguais a outros…,
sem petulância e sem brilho.
Mordemos o pó e plantamos árvores no tempo
Como se o vale verde de chamas
Fosse infinito
E os nossos corpos aí deitados já sem palavras
Formassem rios
Como o sémen no ventre!
o meu íntimo
é uma cor desbragada pelo Verão
uma água que se repete em catarata
um canto prefixo do verbo
que faz alvorada do meu sentimento.
A liberdade hoje que sinto
pelo tempo sem tempo das férias
estende-me ao meio dia a luz da alegria.
Todos colhemos sentimentos.
Mas a preguiça da existência que voa nos minutos e horas
é o todo que podemos colher na modéstia da espectativa que temos na nossa vida
29 de Julho de 2003 pode não ser data
mas a peça robótica do tempo que me falta...
a tarde solta
um desalinho na boca
um qualquer segredo aberto
a praia derramada
um horizonte infinito
as cores rasgadas
e um sabor frio e melancólico
como o coração preso no vazio da melodia
só o vento rasga a árvore
no frémito do campo
como um haicai só procura o tempo
um poema abre a vulva da Terra.
no retrato no meu quarto
estão duas crianças
que não podiam ser
senão os meus filhos
onde guardo o carinho
e a ternura.
No meu quarto
para me doerem no corpo.
Os meus filhos
porque é o amor eleito
mesmo para além da minha eternedidade.
Quando crescerem não cabem no quarto,
serei eu o retrato
do amor inexplicável
guardado numa carteira de couro
na saudade da génese
de um triângulo de sentimentos
extraordinários
únicos
que faz do retrato um troféu
primordial
E se no infinito não pudermos
colher esse fruto
que se plante a árvore do amor
com restos de retratos
e com a saudade imensa do futuro
Sem o artíficio dos truques de cinema
consumimos os mágicos poentes de Verão
Mesmo sem a melodia de um sax ansioso de encantamento
o que usufruímos do céu é formidável:
as nuvens em sangue no degradée da luz harmónica
e volumétrica
dá-nos a crueldade do tempo atmosférico,
redoma didática do jogo da vida.
Enfiados no globo invisível
o ludo cruel
joga-se com a vida e carne
na harmonia estética da luz em raios penetrantes
e indutores
Só a alma não pertence ao jogo olímpico dos Deuses
por isso a noite é tão cara aos homens,
como uma mina escura resgatada ao inexorável
escavo o buraco
e escondo
a alma.
O Verão pode continuar
No sedimento do sentimento
e na estátua de sal que ergo
há uma saudade solta
que voa em circulos como as aves
por cima do mar
tudo pode ser paisagem
quando se quer
o que está perdido
pode voltar
mas para já
"um adeus às aves"
no Outono do pôr do sol
que levam para lá a saudade
e cá só fica a eternidade
A brutalidade que escrevem as nuvens
não existe de facto no céu
As nuvens são mensagens aos homens
do espanto que é a vida
A brutalidade que escrevem as nuvens
é o caos que Deus espera
que o homem domine
E o espanto é para os poetas
beberem
para que o Inferno da Terra não prospere
fica o aviso no céu
diário 15Jul
como a recta...
os dias sucedem-se ponto a ponto na mesma direcção
um sentido unívoco
sem saudade e sem emoção
o futuro de facto não é nada
apesar da audeterminação das coisas e dos seres
mas num momento
tudo fica por dizer
quando não se conhece o desfecho do presente
e ficamos encurralados
na ruptura da geometria dos dias
são só desculpas
quando não conseguimos ser
porque a planta na sua ingénua virtude da existência
tem a sabedoria plácida do uso do tempo
e o conhecimento e sentimento do futuro
basta!
eu só queria abraçar o meu pai outra vez
e