agosto 29, 2003

A que distância estou do mar?

A que distância estou do mar?

A sete braças do afecto

metido em silêncios parados

construindo paredes na alma inefável.

Os circulos que desenho, concêntricos, de movimentos esparsos

no sistema dos dias e das noites

são o tempo opaco sem cor que respiro.

o ar que procuro nos latidos dos cães à noite

nas ruas gastas do hábito

é toda a maresia que acho.

O lixo das ruas sós da cidade

é todo o muro canalha que não deixa ler o poema.

Mas eu sei que atrás das janelas dos prédios

está o mar impresso nos olhares dos poentes de Verão

mas o silêncio é Deus que não quer saber de mim ou das pessoas

e

acredito que me afasta da praia.

O mar é a ideia

e o corpo na dor só quer saber de bálsamos idiotas

A que distância estou do mar!

Publicado por constalves em 11:39 PM | Comentários (0)

agosto 28, 2003

discursos sóbrios 2


o socorro é sempre àquilo que sinto
A viagem é sempre cá dentro,

ao tunel escuro da minha alma.

Faltam-me planuras lúcidas do deserto,

montes esmeraldas infinitos do Amazonas,
poentes encantatórios do Ártico


o mundo pequeno que me habita

é feito de mesquinhas sensações,

apreensões rarefeitas dos outros,

esboços virtuais do código genético da existência,

inflexões , circuncisões ,

cirurgias ao ego como se ele fosse o centro da culpa

e a génese da vida, do ar, da água, do fogo, da terra

que se degladiam lá fora como se houvesse solução

Eu sou a dúvida, cá dentro eu pergunto

e isso é tudo, a chave para o não

Ai se a pedra que chuto fosse pergunta e não obstáculo

podia deixar o poema na gaveta

ou deixar de ter

e se calhar não ser

procurar então a órbita centrífuga do tudo

agarrar a ideia do nada

e partir

Publicado por constalves em 01:20 AM | Comentários (0)

agosto 22, 2003

sem titulo

saudade imensa do sol.

Na minha ilha mesmo nas noites

não se esquece o sol

procuramo-lo nos braços quentes dos camaradas,

nas risadas perdidas da utopia,.

A lealdade é um raio do sol que fica na carne

e a descoberta da paz colectiva é uma deusa

da nova civilização.

Não lutamos com beijos na face

nem com caras tatuadas

mas somamos o amor ao sangue

aquecido no dia.


Publicado por constalves em 12:42 AM | Comentários (1)

agosto 21, 2003

o poema vem dos outros

o poema vem dos outros

aqui, apenas mora o olhar,

a preguiça de seguir a velocidade do tempo,

A conjura do sentimento,

a certeza do caminho,

o pranto no derrame da angústia,

mas sempre a fagulha da poética

quando acha pouso na árvore do afecto

quando os meus braços chegam aos outros

assim posso incendiar o gelo canalha da hipocrisia

e ser catarata do amor

enchendo o rio do deserto

que outros tentam com sangue esvaziar.

Neste sólido mundo de violência

só o afecto não vacila à guerra.

Publicado por constalves em 04:28 PM | Comentários (0)

agosto 17, 2003

discursos sóbrios

repetidamente a noite ensina a solidão

como um pranto feérico sem cor

estabelece as coordenadas do abismo.

As harmonias do silêncio do vazio da luz

fixam o olhar vitreo

e tudo se consome no arrepio solitário

Não fomos concebidos para o escuro

e toda a felicidade que se consegue nas cavaqueiras de bar

são todo o impulso do sangue, que tem cor

e só

o ferve ao dia!

As análises microcóspicas que estabeleço

ás silhuetas da nossa experiência

não são tentativas para compreender,

apenas aventuras semânticas

com o intuito do diálogo minimal

sobre as fronteiras da nossa existência,

quase certo que não serve aos outros,

mas vivo a ilusão de que ao emprestar o meu corpo poético

poderei fazer amor sobre o quase nada

com toda a gente

respondendo ao impulso avassalador

da devassa intelectual que tem como alcance

a nova geneologia da moral

arremassando o corpo nas palavras

descobrindo os outros sem redomas,

e mesmo sem réplica daquele que lê

fico criando na parede branca do imaginário

as silhuetas abertas dos outros

fazendo da noite um laboratório de uma nova gramática

em que a regra não se associe à moral inerte

A carne viva é essencial

e a minúcia do detalhe ,

o diálogo quase absurdo da nossa intuição para estabelecer a nossa fronteira com tudo

são a palavra do verbo

como reflexo do tempo


Publicado por constalves em 11:21 PM | Comentários (0)

agosto 14, 2003

de mim para ti, leitor


o convite é para ti que me lês

para que procures nas palavras em água

o verdadeiro sentir do ar da existência,

comer soberbo o produto do poema por trás dos versos

e ficar rústico de olhar parado para a velocidade dos tempos

deleitar-te com o seco dos grafemas

sem procurar o interlúdio da metáfora

colocares o ouvido perto dos verbos do poeta

sentindo-lhe o solitário naufrágio

do complexo da existência

Quantas vezes o lirismo insólito do poeta

não é mais que um SOS da dignidade sofocada

As pedras semânticas das palavras de um poema

que caem arrasadoras no papel vazio

são a expressão rocambolesca

de uma experiência em chamas

de uma mente viva que não perece.

E o eterno é tudo o que podemos obter

nesse efémero da existência

e isso é tudo aquilo que eu quero

que te chegue a ti leitor

nas mil palavras diferentes que tu me possas colher

Publicado por constalves em 09:35 PM | Comentários (1)

agosto 08, 2003

At Tambur

At Tambur (Grupo de música dita popular portuguesa e mais que isso (ver site http://attambur.com ))

enfeita-se a noite de folias antigas

aprende-se com a noite fraterna o afecto pelos outros

rola nas chamas da fogueira de roda um diabrete inventado

no ideário das gentes gémeas de um país mãe

reinventa-se a música

de um sábio violino

estripa-se do corpo o virús da violência

alcança-se o futuro a beber o passado

descobrindo numa dança errática o segredo aberto da vida na Terra

Deus pode não estar comnosco

masa naquela roda de fogo de carne a arder

aprende-se com as chamas

a boca da existência.


Publicado por constalves em 09:49 PM | Comentários (0)

agosto 04, 2003

Para um diário 4Ago03


Tudo certo

Tudo regular

um dia após outro com o silêncio das férias
a chaga dos incêndios acarreta

a tristeza e a dor.

a solidariedade também se faz com a pele arrepiada,

o nó no estômago não desata soluções credíveis para a desgraça

quando ela não tem mais graça.

No esconderijo que tenho aqui dentro não acho coberta

para a vergonha que sinto.

Poderia fazer mais pelos outros de que um simples poema

Mas também sou vítima

de um sistema do dia a dia que não enfatiza o amor com o outro.

Cobardia, talvez

e os outros também sabem amar?

Publicado por constalves em 09:31 PM | Comentários (0)

ardem as casas

ardem as casas

e as lágrimas não apagam fogos.

no ermo do acidente há um solitário

incêndio

feito de tristeza e de desgraça

que arde no gelo da tragédia

Os corações são a última sobrevivência

e apesar das casas arderem

O incêndio dos corações não se pode apagar

Sejamos mais uma vez solidários

e lembremo-nos que há um país no sangue

por fazer

Publicado por constalves em 02:16 PM | Comentários (0)

agosto 01, 2003

Vem Agosto

Vem Agosto

com a tua gordura de cores

emprestar à paleta do pintor a seda do sol aberto.

Vem

beber o vento acrílico do momento

banhar-te em ice-creams no ouro da praia rubra de um poema

criar versos gráficos na curvatura das ondas

espreitar os cheiros dos peixes expêndidos

morrer em meio-dias nos talheres rituais dos comensais

ressuscitar herói na caravela onírica que passa nas íris das gentes grossas do mar


Vem deitar-te

no bronze das garotas nuas

no rebolo das areias aureas

e não deites o fim cá para fora
antes namora a lua cheia
e faz da maré nocturna

o vento quente do afecto

Publicado por constalves em 01:58 PM | Comentários (0)