A que distância estou do mar?
A sete braças do afecto
metido em silêncios parados
construindo paredes na alma inefável.
Os circulos que desenho, concêntricos, de movimentos esparsos
no sistema dos dias e das noites
são o tempo opaco sem cor que respiro.
o ar que procuro nos latidos dos cães à noite
nas ruas gastas do hábito
é toda a maresia que acho.
O lixo das ruas sós da cidade
é todo o muro canalha que não deixa ler o poema.
Mas eu sei que atrás das janelas dos prédios
está o mar impresso nos olhares dos poentes de Verão
mas o silêncio é Deus que não quer saber de mim ou das pessoas
e
acredito que me afasta da praia.
O mar é a ideia
e o corpo na dor só quer saber de bálsamos idiotas
A que distância estou do mar!
o socorro é sempre àquilo que sinto
A viagem é sempre cá dentro,
ao tunel escuro da minha alma.
Faltam-me planuras lúcidas do deserto,
montes esmeraldas infinitos do Amazonas,
poentes encantatórios do Ártico
o mundo pequeno que me habita
é feito de mesquinhas sensações,
apreensões rarefeitas dos outros,
esboços virtuais do código genético da existência,
inflexões , circuncisões ,
cirurgias ao ego como se ele fosse o centro da culpa
e a génese da vida, do ar, da água, do fogo, da terra
que se degladiam lá fora como se houvesse solução
Eu sou a dúvida, cá dentro eu pergunto
e isso é tudo, a chave para o não
Ai se a pedra que chuto fosse pergunta e não obstáculo
podia deixar o poema na gaveta
ou deixar de ter
e se calhar não ser
procurar então a órbita centrífuga do tudo
agarrar a ideia do nada
e partir
saudade imensa do sol.
Na minha ilha mesmo nas noites
não se esquece o sol
procuramo-lo nos braços quentes dos camaradas,
nas risadas perdidas da utopia,.
A lealdade é um raio do sol que fica na carne
e a descoberta da paz colectiva é uma deusa
da nova civilização.
Não lutamos com beijos na face
nem com caras tatuadas
mas somamos o amor ao sangue
aquecido no dia.
o poema vem dos outros
aqui, apenas mora o olhar,
a preguiça de seguir a velocidade do tempo,
A conjura do sentimento,
a certeza do caminho,
o pranto no derrame da angústia,
mas sempre a fagulha da poética
quando acha pouso na árvore do afecto
quando os meus braços chegam aos outros
assim posso incendiar o gelo canalha da hipocrisia
e ser catarata do amor
enchendo o rio do deserto
que outros tentam com sangue esvaziar.
Neste sólido mundo de violência
só o afecto não vacila à guerra.
repetidamente a noite ensina a solidão
como um pranto feérico sem cor
estabelece as coordenadas do abismo.
As harmonias do silêncio do vazio da luz
fixam o olhar vitreo
e tudo se consome no arrepio solitário
Não fomos concebidos para o escuro
e toda a felicidade que se consegue nas cavaqueiras de bar
são todo o impulso do sangue, que tem cor
e só
o ferve ao dia!
As análises microcóspicas que estabeleço
ás silhuetas da nossa experiência
não são tentativas para compreender,
apenas aventuras semânticas
com o intuito do diálogo minimal
sobre as fronteiras da nossa existência,
quase certo que não serve aos outros,
mas vivo a ilusão de que ao emprestar o meu corpo poético
poderei fazer amor sobre o quase nada
com toda a gente
respondendo ao impulso avassalador
da devassa intelectual que tem como alcance
a nova geneologia da moral
arremassando o corpo nas palavras
descobrindo os outros sem redomas,
e mesmo sem réplica daquele que lê
fico criando na parede branca do imaginário
as silhuetas abertas dos outros
fazendo da noite um laboratório de uma nova gramática
em que a regra não se associe à moral inerte
A carne viva é essencial
e a minúcia do detalhe ,
o diálogo quase absurdo da nossa intuição para estabelecer a nossa fronteira com tudo
são a palavra do verbo
como reflexo do tempo
o convite é para ti que me lês
para que procures nas palavras em água
o verdadeiro sentir do ar da existência,
comer soberbo o produto do poema por trás dos versos
e ficar rústico de olhar parado para a velocidade dos tempos
deleitar-te com o seco dos grafemas
sem procurar o interlúdio da metáfora
colocares o ouvido perto dos verbos do poeta
sentindo-lhe o solitário naufrágio
do complexo da existência
Quantas vezes o lirismo insólito do poeta
não é mais que um SOS da dignidade sofocada
As pedras semânticas das palavras de um poema
que caem arrasadoras no papel vazio
são a expressão rocambolesca
de uma experiência em chamas
de uma mente viva que não perece.
E o eterno é tudo o que podemos obter
nesse efémero da existência
e isso é tudo aquilo que eu quero
que te chegue a ti leitor
nas mil palavras diferentes que tu me possas colher
At Tambur (Grupo de música dita popular portuguesa e mais que isso (ver site http://attambur.com ))
enfeita-se a noite de folias antigas
aprende-se com a noite fraterna o afecto pelos outros
rola nas chamas da fogueira de roda um diabrete inventado
no ideário das gentes gémeas de um país mãe
reinventa-se a música
de um sábio violino
estripa-se do corpo o virús da violência
alcança-se o futuro a beber o passado
descobrindo numa dança errática o segredo aberto da vida na Terra
Deus pode não estar comnosco
masa naquela roda de fogo de carne a arder
aprende-se com as chamas
a boca da existência.
Tudo certo
Tudo regular
um dia após outro com o silêncio das férias
a chaga dos incêndios acarreta
a tristeza e a dor.
a solidariedade também se faz com a pele arrepiada,
o nó no estômago não desata soluções credíveis para a desgraça
quando ela não tem mais graça.
No esconderijo que tenho aqui dentro não acho coberta
para a vergonha que sinto.
Poderia fazer mais pelos outros de que um simples poema
Mas também sou vítima
de um sistema do dia a dia que não enfatiza o amor com o outro.
Cobardia, talvez
e os outros também sabem amar?
ardem as casas
e as lágrimas não apagam fogos.
no ermo do acidente há um solitário
incêndio
feito de tristeza e de desgraça
que arde no gelo da tragédia
Os corações são a última sobrevivência
e apesar das casas arderem
O incêndio dos corações não se pode apagar
Sejamos mais uma vez solidários
e lembremo-nos que há um país no sangue
por fazer
Vem Agosto
com a tua gordura de cores
emprestar à paleta do pintor a seda do sol aberto.
Vem
beber o vento acrílico do momento
banhar-te em ice-creams no ouro da praia rubra de um poema
criar versos gráficos na curvatura das ondas
espreitar os cheiros dos peixes expêndidos
morrer em meio-dias nos talheres rituais dos comensais
ressuscitar herói na caravela onírica que passa nas íris das gentes grossas do mar
Vem deitar-te
no bronze das garotas nuas
no rebolo das areias aureas
e não deites o fim cá para fora
antes namora a lua cheia
e faz da maré nocturna
o vento quente do afecto