há uma folha em branco num qualquer dia,
água e luz,
certezas que não ouviram palavras
que não se igualam ás serpentes e às montanhas
a reis ou marinheiros, a sereias ou às raras orquídeas.
elas estão nas nuvens e nos céus porque não encontro arcas mais fechadas
que guardem o que se imagine ou se cace nas ideias.
O que se conquista no aço dos dias, a limalha
não serve ao sonho e ao espírito, só fermenta
Claro podia ser gordo e fazer do espírito um pudim
e rir e folgazar e ser um sacana de plumas douradas
podia fazer do espírito a bicicleta de ginásio e contar sucessivas anedotas tolas
e seria um bem sucedido inocente feliz
(o se também não é palavra para este diário
e se tivesse uma página seria a primeira e a última porque seria igual à tv)
Haverá essa página em branco
num futuro ou numa memória
num momento em que a torre de babel se calará
e os ângulos e os erros de paralaxe se esbaterão
numa planície de coisas surpreendemente inimagináveis, que até não será planície
tão simples será ou foi
e só tu saberás meu caro diário
quando te reunires com os outros diários de outras gentes e de todos os planetas
quando jogarem uns com os outros um lento dominó com as palavras
que vos parecerão disformes mas fundamentais
para só então compreenderem
e
lá
nós
também!
a tua parte
não se transaciona , não tem matéria, olha é como o vento
ou a luz
não tem lugar, sem tempo e não se guarda!
os olhos dos velhos estão cheios do húmus dessa terra
o sol é a circunstância
a água pode ser a prece
e as tuas memórias um zigurate perdido em livros de História
o que resta não são despojos
é um rasto de pistas, de luares em aguarelas
de sonhos plásticos e inacabados
Da minha dor dou-te o príncipio,
das coisas que levas ainda te dou a regra do jogo
que não quero
que a alma fique só aqui
a tua parte
também a conhecerei:
nos olhos dos meus filhos
nos sorrisos que tiverem
e tudo o que o mar , quando eu o vir, me explicar do meu olhar!
os poemas que não se lêem estão em cofres fechados
escondidos em bosques encantados por fadas e duendes.
São cores, águas e sombras, luzes e chuvas, vazios e ventos
que as fadas e os duendes fazem saír
nos meninos travessos e no brilho dos olhos das princesas,
e os poemas crescem nas barbas dos poetas
que se encantam com as travessuras dos meninos e com os olhos das princesas,
e as palavras cruzam-se, compõem-se e decompõem-se, descruzam-se
e os poetas e os meninos e meninas (que crescem) demoram-se de olhos nos olhos
olhos nos olhos, olhos nos olhos...e multiplicam-se os poetas
e do relâmpago dos olhares soltam-se estrelas que fazem mais fadas e duendes,
que guardam mais cofres. escondidos em mais bosques
e depois há poema, há poema, poema....
Na verdade as coisas são palavras
na melopeia do vento
ou na ideia da flor
o teu sorriso é o meu verbo
e no encanto do poema que escrevo
uso as palavras para encher o silêncio de todas as coisas
o espelho de vidro, que agora é só palavra,
traz-me em palavra o teu rosto
que coloco ao lado do meu
as palavras
as palavras que transponho
são agora o mobiliário que bebo no meu canto
o poema é o meu quarto ocupando o vazio
e agora cá dentro
há flor ...e há vento!
Nem sempre é chaga a dor
Às vezes as manhãs silentes são o reverso da luz
Os orvalhos e as silhuetas exangues,
Os Outonos precoces
Os olhos devastados das gentes cansadas.
O poeta é a dor
Porque na multidão nem sempre a boca é aberta
O sintoma está no poema
Que se escreve com a pele
O domingo ergue-se fingido como dádiva do Senhor
A manhã branca é tudo o que não cresce, não fermenta
O pão sagrado da missa é a teimosia da paz.
O sacrifício, o suicídio da acção
O poeta guia o seu automóvel pelo pinhal, ao meio da tarde
O padre faz a sesta depois de almoçar
Tudo muito profissional
A chaga não existe, mas continua a dor
Da lã da idade fiz um novelo
Da prata da existência fiz um cálice
Da manhã da luz fiz um dia
Fiz um cascol
Bebi um whisky
Gozei um dia inteiro num Inverno
Já tenho a matéria prima a dobrar
No próximo Inverno vou tirar dois dias!
Há uma escada em caracol na surpresa da manhã,
Uma fada madrinha e um duende na mesa ao lado no café
Há um bosque encantado nas primeiras palavras
Um sol Copérnico culpado da luz
Os rios, os montes, as chuvas, os velhos,as crianças
Já há muito que fazem parte da lenda
Os poetas esperam pela noite para recolheram o resto da solidão
Entre a luz e a sombra
Está uma palavra
Que é um corpo,
Que não dorme e não tem fim
Na abertura da manhã de facto existe o verbo
Sem sede e sem fome
E a tarde
é a existência que não se cansa
a noite é toda a dor sem pressa
há um corpo
entre a luz e a sombra
que é palavra
que não é pão
mas faz-me de carne até Deus!
Cobardemente o Outono chegou,
num dia de sol,
de soslaio no calendário.
Eu sei que quando ele se mostrar
haverá outra vez idade,
Deus quererá nos dizer que há fim,
nem que isso seja cócega para ele.
O pior são as dores da imaginação
que aparecem no castanho envelhecido das flores.
Eu sei que vai haver doces, melancolias e saudades cheias,
mas porquê o fim?
não encontro pintura
para o sentimento.
era preciso que a tinta
se falasse e se conversasse
que a tela fosse carne
e as minhas lágrimas molhassem quem visse
não poderia pintá-lo com pincel
porque só seguro nas mãos os cheiros dos outros
e onde poria a minha pele que arrepia a existência.
preferiria ser poeta, ser pessoa no vento
e a tinta?que pinta?
Ai se houvesse uma tocata
à frente da minha porta!
pastéis de bacalhau e um copito,
as viúvas a sorrirem à janela,
um palhaço feito por um vizinho.
Se não houvesse silêncio por baixo do som dos pneus dos carros
que passam foribundos ao pé da minha janela!
Se não houvesse palavras descobertas,
e os sons delas nas estrelas dos meus olhos,
crianças comendo romãs rindo da comida de brincar,
mães soltas dos tachos, dançando com as saudades vazias
e ainda aquele olhar...
Um bairro de fartura como eu tenho na memória da fantasia,
fogueiras violentas,
rios escorreitos,
chuvas para tolos de uma vida que começa no coração!
Eu sei que nunca seremos mais nada
do que pó
de que quadradrinhos de BD,
homens de brincar
as revoluções estão proíbidas
e quase tudo é infame sem voz!
o dinheiro é de prata não de oiro
e de dia ou de noite, mata!
todo o tempo que tenho
é poesia
mesmo o espaço do momento
no microsegundo de um relógio.
há sempre um cristal,
composto do quartzo da palavra,
a linha ondulada da ideia,
e uma alma de silêncio
,que só tem tempo,
por não ter som e só assim , acontecer.
Mas o tempo é o Universo
e o Universo, a poesia do tempo!
olha!
como se o tempo fosse pouco!
já o vento é noutro oeste
e ainda se faz a prece da chuva
Como é bonito estarmos ao lado de um do outro
de olhos molhados presos ao firmamento!
Era um dia como outro qualquer
O sol lá estava, redondo e luminoso como noutro dia qualquer
As árvores que rodeavam a minha casa continuavam a crescer como noutro dia qualquer
A pequena ave fazia o seu voo em circulo no ar como noutro dia qualquer
Os mesmos edifícios, as mesmas ruas, os mesmos sinais de trânsito como noutro dia qualquer
Num lapso de momento
Viajei no espaço e no tempo, teletransportado
E eu estava ali, mágica e matematicamente no meio da cidade
Um poderoso silêncio se apoderou de mim
Não me mexia e não sentia
Os meus olhos despertaram para fora das órbitas
O meu cérebro ficou pesado como que empurrado por um golpe de deus
Todo o meu corpo dilatou como se todas glândulas quisessem gritar
O coração aos solavancos dizia arrebentar
E o meu eu e todo de mim ...parou quando vi num relâmpago a vida que se acercava de mim
E vi
Um carro sem rodas circulando no ar
Um painel electrónico substituindo papel
Um político a falar e a história andar
O meu amigo manel que tanta sorte tinha dado
Era agora um reformado
Os anjos que eu conhecia de tenra idade
Vi-os Velhos e podres de idoneidade
O meu pai morto de idade
A minha mãe sem fecundidade
E a minha alma sem felicidade!
Gritava, feroz, por saudade!
Mas eu ainda estava cá
Uma rapariga passou e disse-me : Olá
Tocou o telemóvel:era o meu filho a dizer-me papá!
Naquele lapso de luz que é uma visão
Cresci!
Dos meus olhos saltou uma nova cidade com sentido e razão
A minha mente recuperava a normal pressão
E o meu corpo ganhava naquele momento um novo alento
Um carro com rodas apitou!
Ainda naquele ponto da cidade, naquele dia como outro qualquer
Olhei para o calendário
E sorri!
Afinal era um dia feliz
como quando era petiz
Era o dia do meu aniversário
olhar fixamente a árvore
e
não ver nada,
ter tudo para ser,
e ser o paradoxo
Se agora o vento não fugisse
poderia ser pranto de tanta verdade
A árvore brilha de existência e de ser
Continuo candidato
e
mesmo tropeçando na esperança,
tento
o poema é a minha árvore que nasce de dentro
e só quer ser!
e ainda penso que sou pouco....
Como a lua
num suspiro.
Já a prata do vento tomou conta de mim
e a sombra já é, em algum lugar,um poema
que precede a manhã
O vazio do luar é a espera
ou
o verbo que há em mim,
tudo antes .
As noites vivem soltas em algum lugar longe do dia.
o dia, estou certo, é a resposta
os meus sonhos são banais:
uma queda fulgurante,
um voo sublime sobre a planíce virgem
ou a finalização da reticência de um poema
ou sempre um prolongar de uma acção vista na acção do dia experimentado
tudo porque sou a pedra,
o monte imóvel ao vento,
mirante da acção externa.
e Deus faz concluír....
à noite, na cobardia do meu sono
os inocentes nascem do sonho...
no teu olhar
não há ciprestes, nem jarros
nem tão pouco lírios .
brotam apenas uma pequena rosa
porque da tua tristeza que eu já carpi
só havia beleza, água pura, e um jardim
Amador é mesmo assim:
sem hora para lá estar,
no sol da praça
em passo pequeno,
oscilando o corpo,
derretendo o vazio no calor dolente do empedrado.
Os velhos cosendo as palavras de volta do edital de necrologia,
os anúncios das lojas, despropositados por não ser dia de semana.
A cidade oca de gente permite a descoberta
e o poeta deixa palavras nos vácuos da regra.
Os incêndios estão longe , o médio Oriente
não passa no videowall que não existe na praça,
as minhas tragédias estão em casa e na internet
e cá fora não tenho pressa.
Decreto a felicidade por minutos
e a rua cresce por quilómetros,
as árvores que não existem na rua
abanam a sombra fresca à procura de mim e da minha bonomia...
acho que sorrio e fecho os olhos:
Setembro traz-me sempre um doce fim!
o deleite de caír no verso
de amurar o absoluto
de crescer na palavra...
é o convite que as horas vazias me deixam.
O jubilo de encontrar corpos feitos de alma
nos leitores de um poema
é o encontro divino
de um olhar que se espraia no silêncio do espírito!
A exibição da nossa perspectiva no verbo
pode ser a âncora da nossa existência
e eu não quero perder pitada da viagem misteriosa que é a vida
por que não tropeçar nas
letras
e circular com sangue no ilegível
gyt jtu j ui aaaaaaaaaaaaaa
só o prazer é meu
mas dou-vos a incógnita,
o soluço da charada
que acrescenta corpo à dúvida
e não será a vida que vos empresto?
Eu fico na fé que o que escrevo seja.... algures
num corpo feito trespassado por sentimentos
o abraço do raio de sol que vi num Novembro moribundo!
Impossível não crescer na voz de Bocelli
Impossível não estar vivo com um filho acabado de nascer nos braços
Talvez mesmo seja impossível não existir Deus quando o agricultor faz a vindima
O amor é a viagem da existência
A música o elixir da eternidade
Será a morte a saudade?
O mistério genético do nascimento a ilusão matemática?
O sentimento é uma vaga de mar que balouça a barca
A alegoria a explicação possível das palavras
E o corpo a fonte de sangue da exaustão do conhecimento
Os santos e a guerra as parábolas do limite
Quantos Ramos Rosa temos que ser?
Quantos beijos devemos à nossa mãe?
Quantas perdas nunca recuperaremos?
Somos fogo porque a terra arde no nosso olhar emocionado?
Falta- nos o ar do sufoco do abraço
Não respiramos na solidão
E é tudo o que sabemos do coração
A raiva esgota-se no grito
E só deus é para nós a solução
Quanta justiça precisa das nossas mãos
A solidariedade é também a sobrevivência da razão
E os cavalos brancos que crescem no peito
São a força e a virtude que precisam sair de nós
O mundo é redondo e a lua também
E tudo o que é recta é uma invenção
Tudo o que é terno quer falar
E o grito é raiva molecular!
Este penar que sentes nas minhas palavras
não são o afecto que tenho aos outros,
são o registo dos dias, que por serem belos
e cheio de luz que só a tristeza e o infortúnio
podem datar a minha existência.
Os segredos que te conto não são dores
apenas peças com defeitos na máquina da felicidade.
Colheste-me também âmbares e ternuras
que são tudo o que quero ser
embora o hediondo tenha que ser morto
todos os dias depois da porta da rua da minha casa
A rua é a cidade e tudo aquilo que não somos
porque não cavamos com palavras
nem nos sustentemos das ideias,
mas juro que para ti diário, eu sou só palavra!