
o mosquito
o mosquito
o zumbido
e o mosquito
a comichão
que não larga
o pão
traz
pazch
não acertei
no mosquito
acertei
no pão!
mote lançado por Jorge Vicente
Augusto Petry
nascem cabelos de feltro das minhas mãos
nascem cabelos de feltro das minhas mãos
e também as pernas de penas e os braços de estrelas
um corpo inventado na matéria da manhã
da semente dos teus olhos
nascem cabelos de feltro das minhas mãos
porque acrescentei um dia ao sangue efémero do corpo real
ousei tecer o amor a partir da tua pele
e o corpo cresce
no azimute do prazer
apesar da semelhança , do espelho confirmar
estou certo que um lobisomem não nasce assim:
com a minha flor do desejo arfando por ti!

Até amanhã
não posso ir dormir
sem a palavra exposta
sem cor e movimento
jazida e morta
porque usada pelo dia

"chove e isso que importa..."
José Gomes Ferreira
"chove e isso que importa..."
nem sempre a chuva são lágrimas
e o nosso coração se oprime à água
há dias em que emergimos do oceano com a boca em barco
um barco rubro das fogueiras da alma
vencemos a água
na erupção do grito
quando percebemos o dia
a paixão está na estrada quando conduzimos
ou no écran de cinema ,à frente, que nos agarra o futuro
ou nas rosas que nos projecta no belo ou amor
a chuva cai e é só o dilúvio
há muito magma cá de dentro que procura o ar
nem sempre percebemos quanto somos
o "quanto" é tudo quanto guardamos no dia antes da chuva

a promessa
prometido é devido
tenho-te guardada no recato de todas as palavras que escrevo
seguras-me a mão na escrita
e há amor nos meus dedos porque existes em qualquer parte de mim
nunca te esqueço embora a memória não seja consolação
os meus poemas são a promessa cumprida
e agora que sou dor
que me interessa a peripécia do riso solto
das correrias atrás das nuvens
das aventuras nas margens dos rios
há a vertigem do teu olhar que não se me apaga
mas como saber se atrás dessa árvore está a felicidade à sua sombra
cuidarei de mim
e essa é a última parte da promessa
se assim não for que olhos depois te poderão adormecer?

o golpe
há feridas na alma
quando o golpe se consome
o golpe é a lâmina dos teus dedos
que agem indistintos do ácido das chuvas
toda a água no meu corpo é o teu golpe
desferido com uma simples sílaba do teu coração
o toiro que me habita fecha os cornos para a terra
buscando a piedade da tua pele que avisto em seda no meu recanto de sentimento
desfere o teu golpe
não matarás a memória que está presa na praia
o mar longo e sem destino ainda somos nós

dardeja a luz na folha da árvore
dardeja a luz na folha da árvore
consome-se de preguiça o pequeno chacal
na adição das imagens concebe-se o poema
resta ficar precoce
na leitura imediata e instantânea da palavra nesta soma
só falta acrescentar a mariposa que doa o tempo ao olhar
e se não fosse o silêncio do teatro da savana
como iríamos saber que tudo se passa neste mundo
o chacal preguiça à sombra da árvore onde brilha a folha visitada pela borboleta
e a melodia podia crescer
se registássemos o passeio das impalas, das vítimas na sua utopia de liberdade
toda a vida é um paradoxo, todos buscamos a porta
é a nossa cela, a equação formulada
vamos à solução!

PAI
por José Gil
há estes dias pai em que escrever é tirar sangue
dos acentos tónicos das palavras a frio
vivo e revivo nelas como tu
sementes de emigrante na internet
trago contigo malas e sacos rotos por
onde se podem construir sonhos e carinhos
Pai
no céu também se fala este português
raro e puro?
Pai és o meu Buster Keaton o meu Chaplin
e Lisboa das mil e uma luzes é a tua guitarra
Nunca me senti tão ridículo a escrever um poema
porque verdadeiramente só a ti te amo
Eu sei que és jardineiro espacial ainda
plantas alfaces espaciais em Marte e na Lua
culturas biológicas para os nossos astronautas
construíste mesmo um mercado onde Beethoven e Bach dão
pão aos emigrantes, aos rejeitados, aos excluídos
eu sei que tocar piano para ti com mãos de anjo sempre
é fácil e será hoje Chopin antes da chuva, em Faro
na Av 5 de Outubro nºa com a estrada de Olhão
Pai
eu espero enviar-te,daqui a pouco,a ultima dos rolling Sytones e
Pai
quando dizem que os anarquistas não amam a família
ambos nos amamos pai e as violetas são verdes
nas minhas lágrimas, em todos os dias do ano
se não fosse por ti nunca escreveria
Nada há
pai
melhor que estarmos de mãos dadas
descendo de branco a liberdade das avenidas
ou tocando tamborete nos correctos .Eu farei de
palhaço pobre como sempre tu de musico até
encontrarmos aquela estrela .A que sempre todos
procuramos desde que nascemos.O sorriso
a gargalhada da criançada
oh pai dançaremos até lá de olhos fechados e felizes
como uma família cristã, hippie e comunista
se uma família não é isto
que será uma família amada pai?
eu sei que é pouco mas ciganos somos e seremos
siempre
pai

Waking the Dead
com Jennifer Connely
"A SARAH"
por Jorge Vicente
Num ápice de tempo, tu partiste
e levaste o vento pelos ombros
os olhos sempre ao largo, sempre distantes
o horizonte no caule das tuas mãos
as mãos no segredo de qualquer deus enganador
que leva consigo as deusas da terra
e as deixa estendidas na memória dos homens
Sarah Williams (1950-?), - jovem activista dos direitos humanos, católica e totalmente contra o sistema repressivo do sistema de governo norte-americano. Achava que não se podia tratar mal ninguém, mesmo um simples pedinte porque podia ser que fosse Jesus Cristo disfarçado com vestes humanas. Morreu nova, num atentado em virtude do seu envolvimento com activistas antifascistas chilenos. Ou não morreu, ninguém soube a verdade.

é preciso chegar ao fim da recta!
é no cansaço das flores
que olho todo o dia
como num olhar por uma viela
descobrindo o espaço dos pássaros
que tecem a alma em seda branca véu
os doidos formigam os dedos contra as janelas que mostram o céu
o céu é todo o real das fantasias do ar
só o vento e os loucos não entendem a melancolia
o meu poeta também não compreende
é preciso chegar ao fim da recta!
em tua memória
jazes morta
falecida da cal das direcções contraditórias
não podes ouvir um Santana prodigioso no cimo da nossa falésia
não podes sentir a tua carne na minha
não podes ouvir o silêncio da valsa
as baleias e os pássaros nos Açores fazem da própria vida uma coisa bonita
e a excelência da palavra de Nemésio faz da saudade uma árvore de verde imaculadamente sempre
jazes morta
aqui nos ciprestes dos meus lábios
e porque é que é que o vento da memória nos traz sempre para este campo de trevos
se a tua dor fosses tu
podias sentir o pulso do meu sangue beber a minha água zigurate chuva tropical amor
nas reveses dos rios encontram-se as almas dos poetas guardadas por estridentes sons de guitarras verdes do mais puro rock
a tua falta é simplesmente a pomba que rompe o céu na direcção do espaço bárbaro de deus
o abraço que um dia te darei será como a Julieta morta mas o punhal que te irá porventura tirar a vida cobrir-se-á de vergonha e falhará o alvo
prefiro morrer na minha hora mas eu quero que tu vivas mais.

um olhar curto
da cadeira e dos poucos plátanos donde avistamos o sol pôr-se
só fazemos circunferências correctas
Al Berto visita Barcelona no seu motor fora de borda e a bandeira que crava na ilha
é o pânico nos cafés
circunferências correctas...
no duche
com palavras ermas construímos as mãos
Vinicius canta e goza o dia
circunferências correctas...
beijando-te despida na praia planície com sol de soberba
A Oriente Camões prolonga
desconduzo o automóvel hirto na mudança
e formo o hino das saudades
assino um olhar curto

não esquecer a faca está no palco
Ficou-me a faca no palco
toda a noite
"sussurra no mar dos meus olhos"
dizemos palavras para dizer afecto
sono sono sono
as actrizes de Duras são as Mulheres em seda branca
e tudo só faz sentido no mergulho continuo da língua no segredo
marca-me um personagem no cerebelo de cal
podemos até pontapear caixotes do lixo mas não encontramos a porta
a faca está no palco
As figuras pequeninas do teatro de papel encontram-se
as faces estão desfiguradas nas próteses dos bonecos
ainda há mais mas quanto vale o esforço!
a noite é a bacia de Guanabara com mar de leite
a ausência da luz pode ser uma grávida simpática que chora de alegria
e rasga-se papel crescendo sempre
não esquecer a faca está no palco

Em Lisboa, 26/10/03
(ao Gil)
O filme falado corre nas ruas
de Roma a Oriente
A luz implicita na manhã
é a cor da urbe cinzenta
e todo o verbo é o meu livro
de forasteiro no fado.
As mulheres bonitas estão no sono de beleza
e só as crianças nos dão o rosa da manhã
escrevo como um comboio
porque hoje é a viagem e eu só quero
a paisagem em fotogramas de Manuel de Oliveira.
o teatro ainda está nos genes das pessoas
apesar do Irão já ter bombas nucleares
A áfrica é dor e sangue
e Portugal é uma barca que cansa
mas eu só tomo a bica
a bica é o segredo!

Munch
O derradeiro poema
por Constantino Alves e José Gil
Até os andaimes caiem
no dormir ventoso das
estrelas
a cúpula dos andaimes
deixa caír a
saia verde
e dor por dentro do
solo dos planetas
eu queria inventar outras palavras
para amor, ternura, carinho
Há entre as sílabas das palavras
muito mais que sentimento e emoção
há tudo o que perdemos
no tempo entre um
segundo e outro
Se fosse o fim
eu queria sorrir
para todos, para os meus filhos
no acrílico de dentes e lábios
em tela preparada a óleo
no degrau da escada da
morte
legitimo todas as confissões.
Dogville obriga-me a escrever
de pé.
Escrever de pé com uma
caneta
na ponta da vassoura mágica.
eu queria conhecer as acácias
como Camões conhecia o verso
mas a minha desculpa
está neste todo em que ponho
nas linhas de um poema
Caiem prédios e torres de concreto
e é o fim
o curioso é depois
a palavra emergir em
nós como no tempo ou no céu
e servir-nos de futuro.
precisamos sempre de aprender a eternidade.
A poesia é um polvo
tenticular
chega a todos, irmãos,
pais, avós
a poesia é
a peripécia do corpo
e o corpo não tem fim

Acusação
por Constantino Alves e José Gil
nunca me poderás acusar
de ter deixado de ser apenas
um palhaço
vivendo nas margens do rio doirado
da humildade
estive quase sempre ausente
nunca me poderás acusar
do branco infinito das
cidades brancas
A acusação também é o martírio das pedras,
do inerte
e nada sobra para as `
àrvores que são o
verdadeiro deus que nos
julga sem perdão
mas com as àrvores a história é outra
a carne é que me dói!
no martírio ledo da adolescência
os olhos levantam as tuas pernas chinesas
e as meias prendem-se nos ganchos do teu cabelo
Podes-me acusar de tudo
menos da verticalidade
dos pastores abraçados às àrvores
e das árvores beijando
comovidas o pastor
podes vibrar a última espada
sobre o meu pescoço de palhaço
e ganhar o voo das aves
e o céu das sedes
chove e o pastor inicial morreu.
A morte do verbo
( à Rita Azevedo)
por Constantino Alves e José Gil
O colar dos olhos desce
na cortina da Tabacaria.
Na palavra está o vento
está a cor
O livro é o verbo fechado.
Os meus olhos nas palavras matam o verbo.
Só nos outros está o que já não existe aqui.
O paradoxo é o nosso diálogo sem palavras
As mãos, umas sobre as outras são também o verbo
morto ou vivo
Os cigarros continuam a saír da tabacaria, as pessoas, sem chapéu,
cumprem o prometido nos passos lentos atá às casas, às coisas
porque a rua continua sem festa e o verbo está morto
Fumar MAtA
O tabaco mata, a realidade da tabacaria cortada à faca
a imagem de um poema
absurdo, absolutamente morto.
Hoje como se me oprimisse
escondo a realidade do maço
no fundo do que pretendemos
representar, dálias e rosas
no colar onde o verbo
morre. Com todos os anjos
repartidos. O tabaco mata
o verbo morre também
Sem assunto
o brilho da chávena de café
o cigarro proíbido e fatal
a cigarra agora misantrópica longe para lá dos arrabaldes
e o segredo da manhã
nos gestos soltos das crianças ao redor das mesas da cafetaria
faltam talvez os reflexos nos espelhos do estabelecimento
o meu olhar não os vê
os fantasmas que são as imagens que estão no poema que se encravou no cerebelo do poeta
o desespero da minha língua que cerceia as palavras é a luta que atiro pela minha felicidade instantânea
hoje não quero os outros
os azulejos beje da parede são a aguarela do meu insucesso
o casaco cobre-me como um bicho,
entra e sai gente
de mim, do poema, dos pratos dos bolos
o brilho da chávena de café
o cigarro proíbido e fatal
a cigarra agora misantrópica longe para lá dos arrabaldes
e o segredo da manhã

desenho original de J.R.R.R.Tolkian
depois de subir um monte respiramos fundo
e para dizer
que um dia não seremos mais
que o nada se irá contrapôr à excelência da nossa existência
diremos a estafada metáfora da longa noite e do túnel escuro que revelará a nossa ignorância
a nossa impreparação para não ser quando fizemos tudo pelo contrário quando nos doámos inteiros
à luz , ao sol à pradaria, às coisas
ficamos estúpidos nesse espanto circular da dúvida e da pergunta e não termos resposta é a nossa única alavanca
resta-nos as árvores e as flores que no saber que temos delas nos fazem sorrir no estertor das alvoradas formidáveis
o sexo é bom mas não tem dúvida
o amor é a insconstância apaziaguadora do extraordinário de que nos alimentamos
depois de subir um monte respiramos fundo
talvez seja isso mesmo o nada

pouco há a dizer:
que o fim está próximo
que tudo se desfaz no silêncio da melancolia
tudo se repete de novo:
a simbiose das árvores com o vento
as chuvas com os rios
embora haja pouco a dizer e que tudo se repete
eu nunca descubro o segredo que conta o depois do fim
é que a terra que é também o meu corpo não recebeu ainda a semente reveladora do começo
irei como tudo o que é neste mundo até ao fim da escuridão decompondo-me na melopeia das palavras
dispersas no vento de Outono
haverá fim?
farei as preces ainda com os olhos fechados
Se houver depois o amor e ainda a Primavera
saberei o que é o Paraíso
como se de um sonho se nascesse
Será sempre assim?
.jpg)
sabes diário
a noite é uma face
lisa como uma peça inteira de seda
onde me deito e encontro nos sonhos
os dias, as peripécias, onde distingo as cores
onde refaço o formidável entretanto destruído pelos tons e pelos deleites
é também contigo nas horas altas do medo que faço a alquimia dos verbos que verto nas manhãs
e como é face sempre a beijo com a água das mãos que aplaudem os santos como francisco que era só hoje
e desprezo o verso e o alongo como circunstância do poema como forma não de dizer o indízivel mas provocar o tempo
e
ser
mi
nú
scu
lo
como a sílaba anã que como viverá ela de noite numa cama de cardeal e sou a pergunta que não tem resposta e não quer mais o que é que
e não dizer fim como a noite
que não é eterna
mas não tem fim

ijele
de olhos bem abertos
sonho contigo
de olhos bem abertos
a luz de alvorada derramada
na projecção da porta
o teu corpo nu como uma flor em desalinho
na expressão de deleite dos lençois brancos
como comandante de um navio seguro o corpo com os dois braços na amurada do alpendre.
o mar que atinjo é o nosso futuro que até pode não ser consequente
mas a melodia do silêncio prende para sempre o momento
A valsa que executámos à noite com os nossos corpos
,os sabores que unimos, o amor que provámos
foram a nossa subida ao topo da falésia
não distingo agora ambição no nosso olhar
mas
falta ainda visitar o poente

Quando estiveres no túnel
deixa correr o fio dos dias
nos teus olhos fechados
mesmo sem vencer o medo.
a luz e a saudade são a tua ironia
e a porta nem sempre está no fundo do túnel
alíás não há porta
não há janela
e não há poema
o túnel é um caminho

Van Gogh
um quarto de hora para a hora H
e os ciprestes continuam lá
não há redenção no fim
nem de Deus nem de mim

a praia vejo-a daqui
em tudo o que se consome de desejo
todo o mar é a manhã de nenúfares absorvida pelas gentes
o vento que comunga prazeres é o sorriso das crianças
em vestidos rosa voando ao ar
os jornais caiem em síncope nas falésias visitadas pela preguiça das gaivotas
que empurram o tempo contra o nada
visto a melhor camisa para o melhor domingo na praia
onde somos todos marujos
mesmo guiando o autocarro, a bicicleta
ou bebendo a bica
com aromas
de seixos rolados como sonhos outra vez visitados
e sem remorso
dou um passo
dou um passo

arcos e portas
e uma flâmula de silêncio
comunicamos pelos labirintos do tempo
e o espaço é o papel em branco onde pomos as palavras em pedra
tudo o que é nosso e está noutra direcção
encontra-se no sorriso e no afecto
que são redondos e só têm um lado
a água dos lagos e a luz que se propaga no cristal
é a nossa colecção de desejos no código do fogo
e os poemas que lês de outros
sou eu
perpétuo
e
perspectivo
tu estás-me na cor
e eu invento-te como um verbo que quer saír sempre da PALAVRA
disto se fazem os dias
de outras coisas se escreve nos jornais
que se propague pelo ar dos outros o quente dos nossos laços
que se rebente com os muros
que fiquem
arcos e portas
e uma flâmula de silêncio

trago todo o sonho
pr'a bica e a torrada
toda a manhã é o açucar que mexo devagar
o hino que se canta nas palavras húmidas da matina são o amor como solução para os homens
as palavras embriagadas pelo sol redentor
são todo o belo que podemos resgatar ao estertor do silêncio da noite que passou
agora estamos vivos pelo ar e pelos outros que amamos
e todo o tráfego da rua está suspenso à dúvida benigna da existência
Na manhã como ínicio está a obra prima
que se cria pelos afectos e os derrames da ternura e do carinho que todos tecemos
Não quero saber se tudo isto está no mundo, na verdade
Mas uma coisa é certa
esta bica onírica que bebo é pra mim a vacina que me imponho

Há dias em que só resta o poema
quatro cadeiras vazias
e um desespero pelo futuro
há um bar da noite agrilhoado ao silêncio
e todas as luzes da rua são cordas ou amarras ácidas
e o dejecto é o próximo que arde na lua
tudo foi preparado na inocência da luz
e os barcos em que remamos não encontram a saída
A tragédia existe hoje
nos espaços entre as pernas e das mesas
A prostituta ainda come a sandes na pequena kitchenette
e já a rua tritura os verbos e as palavras
o poeta é um olmo oco nas esquinas dos pátios
e os sacerdotes dizem preces aflitas á solidão ou a Deus
Tudo é um mosaico esburacado como uma rede ferrugenta
Não resta a solução
resta a notícia da voz
que não se ouve
porque hoje só construímos distância

um dia
com quase nada
ou com quase tudo que é nada
o silêncio e a espera
a palavra e a boca
e um céu em nenúfar convidando o dia
É quase um jardim em mim esta praia
só a dor dos outros se levanta
e faz poesia na ironia
aos cucos
os cucos que por ser metáfora não têm culpa nenhuma
não desprezo apenas levanto a pedra

Não tenho as palavras nas mãos
porque a dor que se sente não se prende
o grito é impróprio e só revela não tece
a dor devia ser água que se estende
às mãos de todos
porque a dor é o homem de 68 anos sentado de olhos fechados à porta do hospital
e para esta pergunta o politico não responde
o mal é a dor
e é o farnel desses fatiotas diplomados em hipocrisia
a outra é cega e não toma banho no Inverno porque a água que é companhia também pode ser fria
O Durão lava os dentes com colgate ao mesmo tempo que dá uma olhadela no discurso da inauguração
O Portas faz piruetas na retórica ao mesmo tempo que corta as unhas dos pés
Portugal é um balouço de corda ou uma cobra no Zoo
o mal é o que se deita para trás
as dores são as feridas ao mesmo tempo que a fome e o que ela traz
claro! e isso que importa desde que todos estejam em paz!
P.S. o mal é a doença da paz!

rebenta sempre o sol à mesma hora
na tarde de uma forma sonora
os sinos de fé ficam secos
os mantras das preces são desertos violentos
a besta rebola-se na lama seca do ócio e da acidez
a besta é a inocência
a pureza da alma com o corpo da culpa
o sol como as armas executa a defesa imatura
as crianças brincam com peluches julgando os outros
e morrem
como os outros
sob as chamas e o tempo górdio do dia
o sol marca o tempo
o relógio a bomba
apesar de tudo a besta vive sempre
e é esse o nosso último suspiro
quando ainda o poente é só uma esperança
Frias Correia

não importa quantos poemas leiamos
ou quantos escrevamos
em papel de linho
ou se os aprendemos a dizer
seremos sempre estas pequenas criaturas
seduzimos a nós mesmos
o olhar fixo no espelho.
silvia chueire

Starry Night--Vincent van Gogh
o voo enrolado da borboleta branca da noite
é como uma valsa sem tempo
que percorre todos os passos das ruas, na noite, em Leiria
é, pode ser, um pequeno fragmento de pólen da flor ou do dia
a graça de existir, apesar de rídicula, está nestas frestas a que chamanos momentos
a borboleta enrola mais o voo no adro da sé
e a luz faz o degredo das pedras que só os românticos sentem
Leiria é a montanha que todos fazemos crescer
o tempo circula nas vielas como o vento nos cedros
fazendo a noite ar sem sufoco
as bicas nas esplanadas são a glote dos urros e segredos
a cal branca das paredes e dos muros famintos
a aguarela do precípicio e o platinado das saudades
o incrível é que a borboleta continua voando
e escreve a poesia toda das paisagens e das lágrimas
eu só sou aquele que levanta e baixa os vidros eléctricos do automóvel
as sílabas, são o meu canto herético
por tanto amar
e por fazer ar com o respeito e o silêncio

o desenho desta manhã ainda não se fez
os artistas ainda bebem a madrugada com os enfeites da noite
o poeta com a cabeça encostada à árvore ainda descobre a oração
as preces ainda não enchem o dia porque os aflitos ainda estão nas lágrimas do desespero
a manhã , ainda começo, só os deuses a sabem
para nós ainda é o futuro
a coisa infinita, que não interessa saber
pois prolonga esta maravilhosa coisa cá dentro que alguém enjaulou numa caixa e chamou o nome feio de esperança

o pão, o queijo, o copo de vinho
e duas palavras
já não há as pessoas no meu sítio
que amassavam o pão, que escorriam o queijo, que pisavam as uvas
as duas palavras que mollhavam o fôlego único da companhia e da amizade
desfizeram-se
não bailam nos dias exactos
são canções para o teatro
para fazerem saudade
ás costas largas da infeliz alegria

Breeze of the morning, Orbetelli
site de Orbetelli
hoje a manhã
é a memória
a memória branca sem perfumes e sem enredos
depois do mar e dos búzios impressos nas casas
da praia
depois do vazio da gruta da manhã que o tempo cava num apelo
fica-me o rasto das coisas sublimes e rectilineas do passado
no passeio que depois faço e como visto a gabardine do Pessoa conjectural
arraso os castelos da dúvida e do eco oco dos ouvidos surreais
a saudade não é para mim uma irmã
nem pode ter sexo
por isso não a chamo nem a quero
isso fica nas canções
só quero o papel da manhã
para botar o branco do poema
que nunca lá está
o que lêem é o relato,
o que não tem nome nem cor e é importante
deixei lá

Como as coisas a chuva pertence-nos
como o anti orgasmo da cal ou das mãos vivas
há no rosto molhado pela chuva
o condutor físico ao mistério (que é a palavra oca do Hiato)
podemos bebê-.la porque é o nosso corpo
o nosso desejo e o ar dos outros
perdemos a chuva no ácido da rotina
nas feses da contabilidade,
na lima dos preconceitos
a juventude tem a prece
mas não sabe o poder
o dia, o tempo, as nuvens
sabem tudo
mas cadê a alma?
e porquê o silêncio?
e os monstros da ignorância?
abram a porta
sigam a chuva
não há mais nada
não há mais nada

"é tudo o que levamos para a cova"
a farra, o gozo, todo o desfrutar da existência.
também aqui se cumpre a lei
que superintende a matéria
mesmo com a janela do espírito,
com a grandeza da mente
não podemos ir mais além
como um ciclo gerencial
o gozo é a ovulação da matéria,
e tudo o que podemos tirar de tudo
iremos até ao fim
mas morreremos com a honra da existência!

três circunferências
concêntricas que se afastam
no plano líquido de um lago
uma nota repetida,minimal
um bater de asas instantâneo de uma ave
um impulso no ponteiro do relógio
um olhar fugaz à janela do automóvel que passa
um longo cabelo que se desprende
o cigarro que mata, esborrachado no cinzeiro
de silêncios e de vazios também é feito o dia:
as coisas no tempo!
somos uma parte de nós
quando nos vemos ao espelho ou no retrato
parte de nós é vista pelos outros só num ângulo
a palavra é o meu elo entre as peças do puzzle
e mesmo assim só descubro infinito
hoje: a bica subiu 5 cêntimos, o ministro caíu(coitado, deve doer), a vacina do cancro do colo do útero foi notícia, o caso pedofilia arrasta-se, aquele aconteceu-lhe isto, ao outro aquilo
o mundo foi agitado , mais um dia.....
mas no meu recato
no papel que já é poema
escrevi silêncio...
o dia decompôs-se em bocados
e eu fiquei com pedaços
e sem ti que giravas - me no sangue e me fazias a voz
no meu vazio e no dos outros
estavam perguntas, e coisas que queriam fazer poesia
peguei na pena
e havia uma montanha que queria saír de mim
(sabes a poesia não são palavras)
A montanha é o monumento que se ergue todos os dias ao céu
em todos os momentos por todos nós
e só queremos o céu que é até aonde vai a nossa dúvida ou certeza no olhar
é um poema de olhos abertos que todos os dias escrevemos com ou sem papel
A montanha é o nosso carácter a nossa dedicação, a nossa dedicatória a boa vontade
Então para mim é a notícia de hoje que eleijo : a montanha
será que sentes o meu olhar parado
o arrepio na pele,
o bater do sangue na carne?
pelo menos a verdade,
não é isso que anda de uns para os outros
quando se buscam?e quando se sentem e ainda não sabem?
A verdade é uma bela fada inventada no espírito
que se inventa na água dos olhos do desejo
quando ainda não se sabe o rosto de quem segreda
Com a experiência cientifica do poema
certifiquei as moléculas do nosso silêncio, que ainda não é amor
mas a melhor verdade
que nos desnuda como principiantes
Por mim não quero mais que isso pois a ambição é mais que tudo
e eu não quero perder
só eu sei nesta palavra em verso que a verdade que tenho
é a chave para o labirinto do nosso encontro
até lá vejo o sol, experimento a lua
bebo o vinho do desejo
tudo tem tempo,
mesmo o botão de rosa que espera ser flor
Não te quero de outra maneira
seguindo a fada da verdade...
Não sentes?
mesmo vazio ainda sou palavra
150 chicotadas ainda era semente
sobe ao monte e sê luz
um dia
e uma noite
a canção que ouvirás nunca mais se repete
mas tu serás
sempre
mesmo no dia, nas coisas banais,
num cabelo teso sobre os olhos
és a rosa de luz
ainda me fazes o silêncio das coisas nobres
porque o ser não rebenta no vulgar
hoje sei que a paixão não resulta só do desejo
o que és solta-se para além do fogo, da metáfora, da ideia
o amor também é encontro,
admiração, respeito
e outras coisas frias que nem sempre se usam no breviário do poeta
Não ouses a chama que se pode apagar a qualquer momento
Se és água ou uma sábia brisa
deixa-te ao tempo
e na acrobacia que fazes com o novo e com o futuro
se queres a aventura sê romã
que é a tarde conseguida e a cor do devaneio
sê leve e fraca como a ponta de um ramo verde de árvore
e saboreia o vento que tu tanto sabes e maravilhosamente nunca lês
Agora o sol fecha-se no horizonte
e mais tarde prepara-se a manhã
Quanta luz se forja na rosa que não dorme e só é que pode ser,
quanta força no amor que começa assim neste jardim?
A sensação estranha de estar fora do tempo
mesmo num dia tão calmo e tão perfeito
Nesta cidade em que não entra o Outono nem outra estação
a geometria obsolota das casas,
a devastação das pessoas e das ideias,
a bica, agora, sumo do banal
os jornais rendidos ao dia
os olhares crusados sem sentido....
A erupção da minha lucidez é hoje a diferença
só a companhia da luz, num sol solidário
e a voz quente de Armstrong
me leva para casa
na ilha distante da nossa felicidade
três ou quatro sobreviventes cantam:
It's a wonderful world
Meu caro diário
tu és a minha prova de vida
como num teatro eu posso resmungar, gritar, sentir
tu és o meu espaço vazio tão caro a Brook,
também muralha onde posso jogar "pelota" com a razão,
pintar o mural com a alma, exercitar
precisar a experiência química com as palavras
beber-me de verbo e lavar-me da saudade,
fazer a existência emergir.
Sem premeditar
crio-te como espelho de uma imagem minha que não tenho.
desculpa-me já és mais que um papel:
és um ser
como uma árvore ouves
como uma pedra és
e vencerás o tempo
serás eterno memo depois do bolor do papel
porque também és espírito,
relicário do inefável
e tudo o que se transforma em nada pode ser
um dia morrerei tranquilo
e tu algures permanecerás fiel e flor
algures na árvore que crescerá da terra onde tombei
as minhas palavras estão presas às dores
embora o meu corpo sinta o teu riso suave
a minha voz tem outro lugar.
não te esperava nem te sabia e isso o que interessa?
a palavra na dor e eu contigo no olhar
aparece-me assim sem horas
enganando-me o silêncio e o vazio.
não te mexas não faças nada
deixa que o vento se enamore de ti
que o mar vaze olhando para ti
sabes é tudo um truque
como eu utilizando o poema para a metamorfose do suícidio para o amor
e na verdade falo para o papel porque todas as palavras que te dissesse
seriam sombra que te afastasse da luz
Não és muito nem pouco
apenas inatíngivel
e no entanto já te amo
e eu ainda com a palavra na dor!
É de silêncio a pedra
como um cipreste seco na beira do cemitério
os mares são a mole do som
como a extensão da voz de quem a não tem
o que os separa são equações matemáticas, palavras e sentidos
tudo famílias incestuosas embora não se sabendo a paternidade
para além dos astronautas, de Marte, do Olimpo e da fé
está a fonte perversa de que todos querem beber
o silêncio e o som são moléculas das ideias
se é que a ideia é mais que tudo
só fica a birra do que pensa, porque tudo é atmosfera,
redoma, halo
e se tudo não se soubesse e a pergunta só um virus
pelo menos enquanto bebo o café?
seria só as nuvens
e uma chuva antipática
que urdiriam o dia como segredo
Deus era congressista do concílio do mistério
um espermatozóide subiria o útero sedento
o metrónomo marcaria o tempo
todos em passo lento
Pessoa escreveria Pessoa
a violeta brilharia na florista
concordata na gaveta
o lindo canário comeria alpista
o flamingo, a catatua, o peixe pombo
balançaria na preguiça da cadeira de baloiço
como a lua Luís mentiria a Susana
o sol na janela
o cão atrás do gato
sentido e direcção, pois claro
um automóvel e um sapato
a voz e o silêncio
José beberia o verbo
pateta,pateta,pateta
o preto no branco
o cavalo e a lengalenga
com a paz e a possível misericórdia
sem ordem e tudo direito
Garcia venceria o himalaia
lendo todos só leria um livro
o horizonte mais perto
e cantaria o hino
o ímpossível mas com tento
a geada mas um dia lindo
quase redonda seria a bola
de cuecas e em chinela
e com casaco
a Russia , a China e todo o mundo
o actor no palco
o mar e o domingo
outra palavra para sexo
a arte e o poeta
o café com leite, o pão com manteiga
o abraço , o afecto
mais um beijo nela
dançaria no cinzento
hoje, no futuro, não me arrependo
o hábil voo de uma ave cimenta o teatro que os seres têm neste mundo
Mesmo sendo todo este dentro um eficiente laboratório de conjecturas e de recados,
nem a mania psiquiátrica consegue demonstrar a evidência, nem a causa, esmiuçadas, precisas
Também não é nossa tarefa.
Temos tudo para viver o planeta