
as folhas das árvores são o segredo
como um segredo falo das folhas das árvores
resguardando nos meus múrmurios as seivas verdes
com um olhar franco crescente aponho o sentimento
nas sombras cálidas dos bosques
tudo é distância ainda no sonho
a carne do corpo ainda não tem a têmpera das resinas aromáticas dos troncos
prometo o namoro ás árvores
o corpo continua sózinho nas ruas feitas de cinza
abrir a voz às árvores
é um sonho
as lágrimas enxugam-se na terra
os poemas não existem
o fim não é um buraco
as folhas das árvores são o segredo

há tanto tempo que o sábado não era assim
há tanto tempo que o sábado não era assim
com lágrimas enunciando o mar
com a água no peito das almas
a serena bondade ainda esquecida
mas as bicas e os cestos das compras
crescendo no mosaico do dia
lembram-nos o ferro do corpo áspero
eu vejo as nuvens com a certeza
nas dúvidas ponho o café circunflexo
mas é sábado, e ele chega explêndido
como o ar que nunca respiro
tanta dor que agora é alegria
por ver um braço num braço
fazendo poesia
é Portugal da palavra que se expande
nas glotes
e tudo é caminho que se percorre
não é tudo este sábado
mas estou vivo para contá-lo
e ele chega com sumos de maçãs por inventar
gostava de ir nestas palavras até si meu leitor
e fazer aí, na sua casa
o Zigurate infinito da sua felicidade
na rua, neste sábado aberto, quero dar o soco,
o último,
na mesa

o jogo do teatro
(Em homenagem a ninguém)
contra-regra carrega a pluma
enquanto arde o poeta na língua do actor
há todo um mundo e ninguém que se enamora nas nuvens dos telões
o espectáculo pode esperar no sublime do inefável
mas o teatro é toda a terra por lavrar
nos sábios e nas palmas dos espectadores
Césariny era também teatro e apenas a solidão era o público
ou o silêncio estranho dos halos das multidões mudas disformes e pretas
há um teatro africano a nascer que é todo o firmamento da sobrevivência do homem
por quanto tempo Portugal será ainda teatro?
os tablados de Gil Vicente continuam guardados nas caves das fanílias
os actores efémeros rasgam-se nas gargantas das rendas de aluguer das casas
e o nosso teatro é betão
mas há todas as estrelas a derramarem-se nos pianos das orquestras
procurando a carne das personagens
fazendo Tartufo na pedra das palavras
o poema virá depois nos diálogos do afecto

que fazer com essa tristeza,
que fazer com essa tristeza,
com o amargo seco das bocas rubras
com o leste perdido nas ruas
com formidáveis desejos
com o saco dos dias?
plantar um sorriso azul
é tudo o que o céu não espera!

Mais Lisboa
A conjectura das sombras
reteve-se nas colinas céleres do tempo
O olvido é a cólera silente de Deus
E todos brincam nos cafés com flores Orientais
como acenos aos outros
dizendo, cantando:
Lisboa

Promete-me um bote
Promete-me um bote
e um dia fresco
as canas sempre as canas
no hall do hospital
a cana azul da salvação
sem cana não há peixe
e sem peixe não há sobrevivência
sem um remédio ao fim do dia,
as casas azuis não voam
nem o hall do hospital desaparece.
O peixe em cima do bote
e a cana na mesa do hospital
por cima da casa azul da minha mãe.
Todo o Oceano e o vento
serão o meu espaço de
onde vejo as simetrias
da existência.
O barulho das gaivinhas e nos olhos tristes das gentes
também estão na canção.Procura o bote, o vento será a melodia.
Faz deste poema uma canoa
um lençol, um lago e flutua
no morango mais bonito do Rio.
o traço azul nas casas da aldeia branca.
O traço azul afasta os espíritos e o vento.~
Traz uma gramática telegráfica
Constantino Alves
José Gil
Jorge Vicente
Francisco
23/11/03

Era preciso que hoje houvesse um Alberto Caeiro
Era preciso que hoje houvesse um Alberto Caeiro
para lá dos montes e das casas
dos discursos e das metáforas
dos riscos dos sapatos do chão
dos penteados e das promessas
um pagão impróprio para os deuses
e para as mentes roxas dos sonhos
que percorresse o caminho da urbe
e dissesse que o rei vai nu a toda a gente
que professasse com o seu olhar
um discurso do possível natural omisso destes dias
Que nos contasse a bruma extensa dos campos
como um retrato falado
pois os nossos ouvidos não ouvem
para que se visse e chegasse
para sempre ficasse no rebanho da colina que é um supermercado
e houvesse a ironia silente
que desfizesse o feito
e o dito por não dito
e fosse e ficasse

e onde param as ovelhas?
e lá estava o castanho envelhecido dos plátanos
os simulacros de gente tecendo poesia branca
os carros nas arestas das portas obrigando o dia descoberto
como em todo o xadrês a raínha impera no seu movimento paraplégico
os soldados na trincheira azul e obrigada
as cotonetes nos ouvidos dos poetas
e as rendas crescidas longe no sublime monte do Pico
falando omissas do segredo
é um Portugal de curvas e rectas que seja promessa cumprida
que quero nos cafés e nas mortalhas do silêncio
mas que haja sempre plátanos...
e onde param as ovelhas?

Deus não existe
nem nas seivas da palmeira nem no pelo do gato
na língua do Augusto nem no cu do primeiro-ministro
enrola-se a onda do oceano sem divindade que se mostre
apenas espíritos piratas de poetas negros
no oco do rochedo
embalando os fascistas na negação occipital da alma
do deus conhecido
o país é uma nação no precípicio poente
e todo o mundo está acordado na linfa dolente do capital manhoso
somos moscas, sem deus no prato

momentos
os meus melhores momentos são espaços
entre a bruma e as árvores
quando azul do céu fica suspenso
em toda a nossa interrogação
sobre as coisas e as palavras com rostos de gentes
são os segundos milimétricos dos sentidos
que mergulham a existência no supremo das copas das árvores
que é uma metáfora da água festiva que bebe o meu corpo
em sílabas escritas decompondo o vulgar na excelência do tempo
é o percurso dessa palavra como axioma do mistério
que liberta os cavalos brancos de um silêncio que é toda a espera da descoberta
do ainda novo futuro
esses momentos são olhares para lá e para dentro
que abrem a poesia como janela aberta da Primavera
numa manhã nunca sonhada
todo o momento que uso não me pertence
mas de quem é o tempo?

o epicômbio dos dias
o epicômbio dos dias são as gentes
na migração do sangue das ruas e das fábricas
sob o sol alentejano adquirido nas palavras semibreves
das notícias
a obra que se há-de fazer será deste tesouro
que guardo no cérebro conciso e que se levanta nas nuvens dos desejos
o epicômbio é a prata recolhida da tarde que testemunha as construções heróicas
do betão impróprio
o epicômbio é a circunferência dos olhos que amam o silêncio e o tempo
que juram futuro
o epicômbio é a silhueta das sombras que creditam a existência
as mãos da promessa recolhem o epicômbio
para que tudo se cumpra só precisamos da voz doce da água

a ulterior manhã
o cálice tomba nas cordas das árvores
como promessa ulterior
as cascas das árvores rebentam com seiva na luz de orvalho
un poema é feito de gestos inesperados
a manhã e a água apontam-nos o silvo certo da sabedoria
que é mais que o talento:
uma complexidade de inteligência e trabalho
que exige o ressuscitar do cálice tombado

Kenna Doeringer
todas a pedras que me atiram são cadáveres
sete palavras que figuram o meu silêncio
outras mais são a minha ofensa
e toda a minha pele está na água fria
e ainda se ergue o meu carinho pelas flores e as mulheres
três palavras são menos que sete
e são ainda mais que o meu silêncio, porque choram
os ombros prometem a garganta como uma palavra erguida
só me sonho nos pombos de Londres
entre a espuma da morte em mim incluída
vingo o que fui com todas palavras escritas
nos culpados que estão fora da pele
prometendo o vício do dinheiro
em troca do egoísmo
não tenham pena de mim a noite seca é o meu comércio de sucesso
quem ri no fim sou eu no cavalo escaldante do poema
todas a pedras que me atiram são cadáveres

Deméter
a José Félix
os cílicios e as cartas tiveram a origem
Deméter é só a caixa de pandora da ordem das raízes da Terra
formigas e abelhas são a alforria dos escravos e dos presos
no circunflexo pesar do erguido
gosto de pensar na paz como a amizade que se confina à semente
os laços que se fazem debaixo da abóbada celeste são o pergaminho dos sábios
que um dia gorvenarão outra vez a terra
Deméter será outra vez na Grécia a luz gerada no Ocidente
Alá descubrirá a Tora
e Moisés será o Corão
do branco não se fará nada
das luzes das estrelas se fará o jogo do dominó inflectível
que abrirá a clareira aberta esperada no áspero da terra
Até lá Deméter

a noite antes da inauguração do estádio de leiria
dedicado ao Carlos Silva
com a noite fez-se a azáfema
um hot-dog e uma palha
sitiou-se o circunspecto silêncio
e por uma vez as árvores esperaram
eram os homens e o espectáculo
que vieram antes dos corpos
a luz eléctrica( dos testes)
fazia estrelas macias
os sorrisos escaparam dos gnr e dos polícias
apesar de tudo aquilo era o ímpossivel dos mudos
a voz dos aplausos e das pessoas
já era nos sorrisos dos pobres que espreitam
não quero discursos amanhã
só quero o dia 19 perfeito

as árvores consomem-se em nós
A António Ramos Rosa , Mário Césariny, José Gil e Jorge Vicente
as árvores consomem-se em nós
nos seus olhos indíziveis para dentro dos bolsos dos nossos pulmões
todas as braças das suas pernas estão quentes no gelo das nossas mãos
a procura subterrânea das raízes abraçam-nos as gargantas do nosso tempo
e há rins e pêlos brancos que gozam de folhas de céus verdes
chupa-se a partir das unhas o lúcido das copas
tudo isto é o nosso tempo de televisão
não se sai da Pastelaria sem escamas de cascas de troncos cilindrícos e silentes
A manicure omnívara é o Papa que rouba nervuras nos silêncios da nossa voz
e o sacrilégio sou eu com corpo de betão faminto de bétulas impossíveis e distantes
eu estaria morto
se a cidade não roubasse desamaldamente o bosque encantado de ventanias reais
e há o Gil que não tem árvores
e as tumbas do Jorge são plátanos inteiros estragando esófagos
e o Ramos Rosa brinca de seiva depois de morrrer
e o Cesariny é imortal nas clareiras das florestas depois de isto e daquilo
e o fim é pedido
e as árvores dizem não

exercício burguês à beira da morte 18/11/03
Há vidas desligadas dos corpos
como as lâmpadas apagadas
todo o tempo urge na planta
como o oco do som
os corpos não têm clorofila encarnada
usam sangue sem dó
o tempo nos corpos faz filamentos roxos
as vidas seguem o nariz
para o fim à frente
os corpos sem vida são o oco da planta
a planta é a vida
a distância dos corpos das plantas
são o tempo sem verde de clorofila
os corpos caiem para trás

os nazis irritam-se
para lá destes muros depois dos prédios mesmo magníficos
para lá do estádio de grafite colorida depois das estradas
estão dias formidáveis feitos de árvores frondosas e melopeias de vendavais
há pastores e queijos brancos animais corpolentos serpentes cantantes e gentes
há também lá deitadas as esperanças atiradas dos corpos que circulam circunspectos na cidade agravada
as bicas nas bandejas e as torradas amanteigadas são os retratos de saudades dos nossos sonhos longínquos
o cinzentos dos olhos dos nossos velhos são a ciência dos que não têm nada a quem nós não fazemos amizades
os gatos nas casas são o medo das florestas que os medrosos donos têm dos dias que estão longe
as palavras guardadas nas bocas dos gerentes são o ar que nos falta e ainda os sorrisos das esposas
para lá há dias formidáveis como presas agendadas de políticos camarários
Deus não dorme nas igrejas e vive sonâmbulo nas estrelas testemunhas
o nariz indica a frente e todos seguem em fila indiana
esquece-se a urgência da sobrevivência e da dignidade perdida
fazem-se blogs e não se dá pão à velha
os directores são os piores e derretem-se nas ordens
os policias apercebem-se mas contam sempre as moedas
os nazis irritam-se
e os peidos florescem
não há gritos

um claro olhar de 17/11/03
fim fim fim
no fio da lâmina um esplendor
todos os brilhos pertencem às plumas brancas
tudo começa construído azul nas conversas
o verbo certo no voz do actor
há uma mulher tombada que acerta no ínicio
e os espaços entre as coisas são bulícios claros
do que se zomba há um costume
e a conversa cai
Agora a lua regula o inexorável desespero
e a garganta caminha como os loucos comem
fim fim fim

Algo
Ah quero deitar-me à beira de uma lagoa,
o corpo imerso,
cravados os dedos na areia,
sentir os cabelos balançando leves,
algas a subir e descer com as pequeníssimas ondas.
Quero deitar-me e esquecer-me de mim,
embalada pelo ir e vir da água,
olhos voltados para o céu,
definitivamente alga.
Algo pouco e silente
a resvalar pela vida.
Não ser mais,
por instantes não ser mais.
Silvia Chueire
abertura
(exercício)
a porta estáva aberta
o silêncio fluiu no espaço aberto
formidável o canto abriu
na escuridão os olhos fermentam e abrem
a abertura é o fim

Pedro Charters d'Azvedo
calma
depois de avistar o ilimite
o homem suado limpa o rosto
nunca viu o sol a pôr-se
nos seus olhos está a maré do tempo
para lá da poesia
três quartos de pão
e um beijo de solidão
é a lua amarga da porta aberta do seu quarto

os putos da Vieira
os putos da Vieira fazem teatro
entre os limões de Talma
descobrem a voz na Vitória (Professora)
que ama os dedos , que é atriz
o segredo não faz parte das almas
o teatro está crescendo nos putos e nos outros
o futuro é uma gota que foi recolhida pelo bem
porque os putos são a água
porque os putos vão

A Al Berto
um anjo escuro
desceu a cidade na procura da água calma
o céu não pode esperar o cantos dos homens sem corpo
(o certo é que o céu é hoje mesmo a montanha que o mundo pariu)
por isso os anjos que nos percorrem de noite
silenciando o dia

um Dominguito
linda manhã
aqule garoto e a irmã
eu comendo bolacha e café
a árvore sempre de pé

A figura de Jesus
A figura de Jesus é a fé de todos
o milagre
estás nos lagos que no seu brilho iluminam-nos
Sou à deriva
mas isso é só luar!

melo
uma folha silente descobre a noite
num lento caír
o chão que é o seu leito
recolhe a sua "melo" e o dia

um poema da Margarida
uma flor é mais do que eu digo
e eu sou só o beijo

poemar
é a sorte que nos calha
quando somos canalha

bater sistemático na pedra
bater sistemático na pedra
bater sistemático na pedra
na pedra contra a pedra
não resulta
atira a pedra para frente
onde cai a pedra fizeste uma meta
vai até à meta
atira a pedra para frente

cantata para um poeta ausente
o bico da ave de prata e a água explêndida
é o restolho dos dias aziagos
só esta roupa poderia ser de um poeta

para o espectásculo "Basta um olhar"
naquela criança com olhar deitado
eu sou o homem faminto
que procura um lar
é só egoísmo que Deus pode ver
mas no meu passo
há a dor
que só ela sente
poema chinês
dedicado à Margarida Antunes
desconheço os teus poetas
só me seguro assim num branco junco
com o mar Ocidental voltando
com as suas mãos cheias de uma brisa de aromas
e as velas são as faces de nós portugueses
nas praias com os braços nas águas
nunca tivemos naus
também somos só aromas
os lírios roxos
os lírios roxos
hoje
são a certeza do tempo
incomodamente

Jean-François Millet
natureza morta
o pão a água o pão
tremendamente as maçãs rosas
suspendem as vindimas azuis roxas.
E a terra para quem a trabalha
O poema
Nero num dia aziago:
Incendeie-se Roma!
O poema ardeu sobre Lisboa!

um poema impõe-se
um poema impõe-se
uma lua cheia
aberta
para o futuro de todos
com a azáfema do cavalo negro
o vento e o tempo
e o sortilégio do Inferno diluído
na Inquisição dos 5 sentidos
eu sei que um poema é mais
mas esta é a minha pedra
![]()
a noite
e o sol ,aceso,escarnece da noite
a noite, seca,
espera.
escarnece.

Chagall
embora não queiras
embora não queiras
o rio e as árvores
são silêncios nos nossos corpos
embora não te pareça
a luz e os ventos
são obedecidos nas nossas carícias
as nossas línguas repercutem-se nas palavras dos poetas
toda a matéria do nosso amor está na poesis essencial da voz e do sangue
caminharei silente e seguro como o farol erecto que indicia a margem ou a terra descoberta
poderia eu ser sempre o sábio dos reflexos na poeira da solidão?
a tua ignorância é a ingenuidade em chamas do teu beijo que me lança a essencial dúvida
e eu sempre te esconderei este poema

Ignacio Navarro
silêncio partido
o silêncio partido
mostra a manhã aberta
quatro castores
fazem uma represa no rio
para nós a vida começa com a ferida fechada
e uma ave no corpo
hoje é um dia diferente:
somos só nós
que vemos as almas abertas dos outros
e com carinho
multiplcamos na cidade
os relâmpagos que forjámos
A cidade dos outros também é nossa
quatro gatos passeiam nos telhados

Dumitru Lucian Botez
um minuto para ti
um minuto para ti
um abraço apertado com a forma das palavras
um beijo que vai no vento que é tempo
e que chega a ti no ar comum do silêncio

Lisa Fittipaldi
um fio da noite
deixo que a noite caia devagar
nos olhos pesados da chuva
sigo a rota do lume
nas horas cheias de amor
e prometo o ar de amanhã
nas colchas pesadas do tempo
sigo com um dedo crespuscular na tua pele leve e inconsciente
a tua espera é
o meu tempo, são os meus olhos de terra húmida onde crescem ventos de chamas
o silêncio ocupo-o com os poetas amigos da luz
que me dão pão macio de palavras
onde te posso escolher entre um trigo claro e quente
no teu beijo já antigo percebo os mundos que colidiram e fizeram brilhos em todas as estrelas
e não quero conhecer outro firmamento
a noite depois de caída
faz nostalgias nas rugas das mantas de um Inverno terno
todas as letras do livro de poemas
foram dormir nos verbos que pairam em todas as lareiras das almas
e as palavras sumiram deixando os sonhos nas gentes
o nosso amor começa no caminha indefinido
como a noite sem meta
é um fio quente que une as casas e faz sentido ao vinho
e não quero a lúcidez da manhã
sem ter bebido toda esta adolescência da noite
onde estás, onde estás

Vincent Van Gogh
imagino as árvores que não estão cá
imagino as árvores que não estão cá
e na sua sombra poderia estar a beber esta bica
e eu seria outro
e o café!
poderiam as ramagens das árvores fazer o meu olhar
e os cheiros e os ventos fazerem-me a vontade
e eu não teria de crer na pulsação cardíaca da manhã
seria também a árvore o rio e a esplanada
seria o espaço
e não seria este m2 de fé
poderia, nesse caso, como as árvores
ser passado presente futuro
e não ser este relâmpago de existência
entre o ruído opaco de gente relâmpaga
a droga que a bica dá
faz viver o reflexo longínquo
das àrvores que não estão cá
de ínfimas pontes é também feita a manhã
mas que sombra darão as ávores ás palavras em chamas
que em mim procuram condição?
Não saberei
aqui não há árvores
só um outono violento num deserto habitado por multidões
as palavras procuram as árvores
e eu que as não tenho serei sempre este monstro mudo
de serpentes escaldadas escrevendo sonhos
e vivendo "ses"
agora na rua continua a não haver árvores
mas haverá poemas e ses
ligo o rádio no carro
rodo a chave de ignição
esfrego o dente sujo de café

Caro diário 7/11/03
queria falar-te do cinzento
ou das cores que nunca são
dos espaços entre as palavras
das fendas dos olhares
são o refúgio entre as horas
(e no poeta são o futuro)
dos que não vêem e que mergulham no escuro
o intervalo onde não crescem àrvores
mas se fazem rápidas as sementes
pequenos espaços de garças e de cisnes a preto e branco
que migram no tempo e fazem tempo
que são gritos silentes e transparentes
que tatuam na alma o claro e o escuro
donde se vê o que podemos ver
onde rasgamos o limite
onde vivemos sem viver
e depois choramos
onde fazemos o murro
e só sonhamos
onde dizemos distante
e o que é a vida é só esse instante
longe do que amamos
quase sempre perto do trivial
nessas horas
onde as cores são só cinzento
as cores distintas são só reclame
o que se vive não tem cor que se chame
preparando o 30º aniversário do 25 de Abril de 1974

Ai os meus 16 anos no 25 de abril de 74
A revolta já estava no meu corpo
bruta como deve ser nesta idade
contra tudo porque cá dentro arde
as portas abertas mostraram o mundo
com diferença e recorte
da revolta solta dei-lhe um sentido e uma meta
todo o ar já era meu,já era nosso
e o nós nasceu e o sempre e o depois
no espaço dos gritos encontrei a paz
o futuro a dúvida (que tinha estado presa e era a semente da certeza)
das revoltas, fizemos gritos, amigos, discutimos sonhos
fizemos filhos
do mundo mudámos pouco agora depois de 30 anos há quem queira fechar as portas outra vez
os meus 16 anos ainda estão cá
nos lares que fiz na minha voz
não há maneira de repetir a nossa experiência aos outros
apenas podemos explicar aos mais novos que as árvores sempre estiveram cá
e que por sinal até morrem de pé

comunhão
só quando formamos o círculo com as nossas existências definidas e separadas
podemos dizer nós
para que a carne tenha explicação.
cruzamos os silêncios e os nossos sons na festa da comunhão
e essa festa é a descoberta do sentido do fim e do princípio
com os nervos do olhar e do tacto
temos tudo a ganhar na erupção da alma grupal
para que o gelo e o tempo sejam apenas metamorfoses do vazio
na verdade não fora a morte e os buracos negros
toda a vida nascida podia muito bem ser a festa orgíaca do Universo
mas isso que importa
para lá dos ilimites do tempo e do espaço estou certo que existe
qualquer número gordo potenciado a mil complexidades cada vez mais brilhantes uma que outra
só podemos ser uma tentativa
absoluta e inexperiente
totalmente em nós, cruzados de corpos e de troncos de árvores
com as línguas formidáveis buscando a água de tudo
mas estou em crer que os buracos negros são secos
preparando a comemoração do 30º aniversário do 25 de Abril de 1974

foto de Mario Cravo Neto
cravo
agora és cravo
mais cravo no átrio da chuva
porque a chuva é a idade da Terra
e como os homens sedentos fazes parte do ciclo da água
todos esperamos a água e somos terra
tu és também terra
e os homens são terra e são água
a semente és tu
e tu és a ideia
e a ideia está em mim
e no meu olhar para o meu filho
e nos cabelos da minha filha
eu morrerei
o meu filho morrerá
a minha filha morrerá
e como cravo terás também um fim
morrerás na mesma terra que todos nós,
mais tarde que todos nós
porque os portugueses fizeram de ti uma ideia e serás eterno até depois de não haver água e terra
se houver alma
se houver espírito
se houver qualquer mistério para desvendar
e se não houver nada deste ouro
serás a prata da nossa bandeira
que fez e que faz nascer ideias da água e da terra
e tudo pode ser um equívoco
a eternidade ter fim e ser um paradoxo
e então só sobra a dúvida matemática
e tudo ser matemática
e tu não seres cravo
e não haver terra
e não haver água
e só sobrar no meu último fôlego uma imagem nítida
Fernando Pessoa com um cravo na lapela

passar um dia inteiro sem ver as nuvens
sistemático e aborrecido simplesmente aritmético
passo as cores na máquina cinzenta
preciso os olhos na poeira magnética
sorrio em linha recta circunflexamente sentado
o grito parou coitado
quando tomo banho na água poética percebo que tudo se fez claro
a dízima foi cobrada
alguém colocou no quadro o sol deitado
passou o dia e as nuvens já não estão lá
conto mais um dia no calendário
que contaram as nuvens às crianças que dormem tão sorridentes?

toda a terra
toda a terra é este momento
que alimento no presente
que incluo em mim
toda a terra é o ar e o vento
que circula no corpo
e marca o tempo
toda a terra é a minha palavra
que faz o súbito poema
que distingue o presente
depois há a miríade de sílabas prenhes de estrelas e do mundo
que formam o côncavo dos silêncios volumétricos que fazem com direcção e sentido a repetição da incógnita
tão vasta, tão vasta que o cérebro não basta
e eu sou a haste erecta no vento
que anseia o espaço
noutro futuro talvez vá ao poço buscar devagar uma palavra e depois outra e crie a novidade do espanto
no passado que agora são livros velhos as portas fecham-se atrás umas das outras
mas eu sou tão pequeno no poço da morte
Leo Ferré também pisa a terra com os meus sapatos
e no entanto há a voz
e nem tudo tem sentido
Pessoa tinha razão, Pessoa tinha razão

Sue Loder
PEQUENO ALMOÇO A TRÊS
e o sal da terra vermelha, a lua do cão
e um gato.Passo as mãos no seu pelo
e cheira pelas vielas a chá de hortelão
quem tem pelo tem a luz do cabelo
Preparamos-te as torradas com geleia
de chocolate e morango, as brisas
os biscoitos e os sconnes nesta teia
da mesa rapida e do duche em frisas
depois vem a carne e o soneto
e daqui a bocado um poemeto
toca a banda o sax no coreto
anis,champagne e ginjas em licor
ficam guardadas no mentol da dor
da noite e da ceia com a tua cor
CONSTANTINO ALVES
E
JOSE GIL

bairro alto
os pardais voam nos livros como um filme
eu sou um pardal a preto e branco na banda
sonora e gestual da hortelã clara da tua casa
no Principe Real à Misericórdia e
do outro lado o arco em pedra do Castelo
aqui mesmo omde os olhos vos descobrem
o elevador das almas sobe da liberdade
e da glória até a Livraria Ler Devagar
como um carmo de rosários sensuais
amo-te em banda larga e adormeço
amor descalço vai ao café
amor regressa pela verdura
na fresta femosa e clara da noite
tudo o que foi dito pode-se repetir sempre
nos astros sem palavras e nos reflexos das mais pequenas
coisas,voam no espelho os pardais de lisboa
e um corvo desenha os nomes e os labios
Lisboa é uma resma de calçadas livres
há igrejas e pelorinhos nos homens dos taxis
nas pronúncias do nordeste e Lisboa
veste-se de fado em cada carro verde e preto
Lisboa é uma mulher descalça com as velas sobre o rio
despem-se lenços à medida que os corvos acompanham
o castelo até á India e o Brasil
e se ainda choras na saudade o teu sangue
é o horizonte claro e familiar
jose gil
jorge vicente
constante alves

o último poema da noite
nem tréguas nem rendições
a terra tem a democracia dos grãos
que uma fotografia manipula em blow up
tenho um romantisno instrumental
sentimental total
o coração tem rede a rede não tem coração
blow up outra vez
e sempre minimal
um poema é uma letra começada por c
não ladra mas tem cão
um texto pode começar onde o sopro perde
o cristal e o poema não é fumo nem chama
e começa por c
autêntico é toda a inteligência verde de Rosa
absinto de Cesário.o poema transporta
o conhecimento por dentro
é de c. o conhecimento prudente do poema
uma outra ordem uma tentativa de vida
decente
o poema mesmo assim ainda rasga
até à última bica da noite
como um deus descansa no prato
ao lado da colher
como as coisas contassem poesia depois da última palavra
e o fim não é o fim e a equação viverá depois de nós
talvez depois do verbo se extinguir na inexperiência do inuso
Os setenta homens ouviram a voz de Deus e adormeceram.
Todas as suas palavras transformadas num cântico final,
Todos os seus gestos simultâneos. Dizem que só os anjos
Procedem assim. Porque conhecem o que existe de mais
Inacessível e, ao mesmo tempo, sempre presente: o Amor.
constantino Alves
jorge vicente
josé giL
nov 03
cova da moura

biblioteca das moças
à Silvie e Sónia
por Constantino Alves e José Gil
fuenteovejuna é a aldeia onde as moças núas
escrevem com bandeiras os corpos na mesa clara
o poente desce sobre o sol e o sol abre sobre
o Comendador.O povo viaja no casamento entre
o pão e o cavaleiro. Junto á capela
Lope de Vega é .... é nosso amigo no luar
perdido do Castelo de Leiria com o vinho das Cortes
Fuentueovejuna é a coreografia da revolta dos corpos
que não se rendem , que não resignam, que não se enfeiam
o tempo é o amor protegido pela poesia brasileira
e a canção das ancas samba connosco no calcuta de outra aldeia
onde o povo violado, explorado, encarcerrado se revolta
na História do centro, na espiral da pureza clara, onde nascem
nas mãos cabelos de feltro corpo a corpo onde tudo é vivo
na casa de pedra.Penso a pedra.Sinto a pedra
e vivo a pedra mais dura dos silêncios junto ao
Arco de Pedra que simula o Tempo no Pendulo
dos beijos em pequenas palavras doces noutros
corpos e raízes,até nas nuvens e pelas nuvens num Deus
a poesia alternativa é um corpo rude e claro negro e
ao sol correndo na fantasia dos revoltosos.E a verdade
é que não guardamos o amor em caixas de segredo
não escondemos a tradução dos desejos debaixo
dos tapetes.Sem medo o poeta aprofunda o arco em pedra
Apetece ser Shakespere, e ser Londres e Picadilly circus
nos vossos umbigos de livros e folhagens piercingadas
A Sonia e a Silvia também estão aqui
Que Sonia? Que Silvia? Apenas a interrogação
dos poetas no Castelo de S. Jorge olhando
os paquetes que chegam do Rio e choram saudades
Viveremos na Idade Media, seremos frades se mentimos
com a corda no pescoço tomamos o convés escondidos
nas batatas, no bacalhau e nos vinhos das caravelas
procuramos por elas.As canelas e as pimentas e o desejo
abre as fortalezas.De quem ? Como? Onde? Para nada
a Europa para nós apodreceu para sempre.Viajamos no Rio
como águias comem leões em fogo de artificio virtual
e espumante francês com castanhas e natas
A biblioteca é uma pequena dispensa,como Neruda
Confessamos que vivemos ou como Garcia Marques
Vivê-la para cantá-la

Poema à Terra comum às portas de Lisboa
por Constantino Alves e José Gil
atravessei a linha do comboio,e susti o tempo
era a palavra da comunidade,o predio
dos irmãos -uma casa aos 20 anos pode ser
um convento, uma biblioteca e 30 anos depois
do outro lado da linha, só te guardo
porque não consigo descrever
nem dizer aos outros os cristais,
que é tudo o que sei o que são as mulheres
atravesso de novo a linha com os nervos dos pés
nos caris de cristal.Só a memória.Só o retorno.
Lá em casa nasceu a catarina, a joana
lá vivemos nas massas e no arroz o suor nocturno
e alternativo. Conh Benit era na altura um Maio
para ser Abril, uma porta para ser aberta,um cravo
e eu só me lembro das pernas esticadas dos palhaços
e do som da Damaia, que era outro mar
La Solitude de Leo Ferré, os livros da Internacional
Situacionista, Guy Debord, e o Festival de Vila
Nova de Cerveira. Portugal era pequeno como os quartos
a fenda estava em ferida na linha do comboio
no Apeadeiro descrito dos cigarros e dos charros
a bagaceira da minha irmã doia os dentes quentes
dos negritos, das escola lá de cima,do yogurt em copo
de vidro e feito em casa, da geografia rude dos rios de Angola
da Tropa lucida e dura, mais longe e também perto está uma mansarda
junto á praça que me lembra o sexo e as torradas com café quente
dos homens estátua da brasileira florescente junto á Pide
a Stand Up Poetry a duas mãos enlouquece
jose gil e constantino alves
"para que o corpo seja algo
do berço ao caixão/não se perca
no consumo das camisas"

Ás vezes gosto de vir até este piano bar
Ás vezes gosto de vir até este piano bar de armagedeon de silêncios e melancolias
uma sonata dorida, requium de espantos de outrora
e vir ver a tua cara nas cores dos meus olhos no espelho de dilúvios perdidos
beber uma bebida arrastada e de círcunferências de dedos e de postulas de saudades inauditas
pisar a terra molhada de um ritual de dança infinita
dizer poema de olhos fechados como que acreditando que num filme antigo que passa na mente se possa fazer as pazes com a vida
a palavra fica seca o mais importante é o momento
a beleza é algo que não se quantifica está entre as palavras no inviasado olhar por entre as minhas mãos circunflexas para as mulheres defronte
que contêm muito mais que noite e manhã e são únicas neste lapso de metafísica que formo num sorriso longíquo e olblíquo para lá das torres de açucar do mais puro extâse
gosto quando sinto este olhar dormente e diferencio as coisas das pessoas, as pessoas das coisas e encontro todas as obras primas naquele gelo súbito de um toque de pele que se sente quente porque não há palavras não há palavras
já olharam os rostos dos outros como livro que conta histórias tão próximas de nós que as nossas mãos(que são tudo o que é nosso verdadeiramente)se desfazem, pelo reparo daquela qualidade única que um nariz nos conta a amizade que faz com o ar com o céu com as tempestades aquele outro olhar da praia que nós já visitámos sós e só conhecíamos o sol e agora a lua naqueles outros seios e o prazer das mães que se distingue nos cantos das bocas porque não existe Deus visível e omnipresente que nos possa observar e passar um carinho pelo nosso dedo no nariz?
o pianista toca dolente uma melodia de Alejandro Sainz e a sua voz que visita qualquer parte do mundo está presente como salvação impossível
para quem já nasceu
a fenda que corta como o absinto está debaixo da minha língua e só se solta com o vento quando for dia
depois todas as imagens que recolho ao canto do bar podem também ser vidas soltas do mal do bem beijar o espaço faminto de pessoas
junto os tostões com o nervoso miudinho da inexistência ,do malogro da minha alma contra a música do piano que desafia as horas
podia ser Pessoa da Tabacaria e na verdade sou uma má réplica mas infelizmente também compro cigarros como o Esteves que não sabe nada de poesia
mas tudo se repete
como os quadros de Picasso que só contam uma só história
ou como todos repetem tudo o que têm de repetir
e dizer silêncio como eu preciso de dizer quando ardo
e tudo é noite
tudo é noite
e amanhã eu esqueço não quero saber mais nada
na verdade estamos perdidos