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Feliz ano novo!
tudo começa outra vez
e para o ano outra vez
comnosco ou sem "nosco"
a vida continua
sempre melhor....
que outra coisa podemos desejar?

Inverno
gosto de misturar as palavras
com as cores do dia
as pedras roladas húmidas dos ribeiros com as ideias
beber os sorrisos das jovens com o verde viçoso das folhas
misturar o separado com o junto
as bicas com as línguas
as serpentes com as mãos.
As belas com as feias
correr o vento com o passo macio do meu andar
uma coisa com outra
para o abraço do verso
sublimar o vazio com coisas cheias
os gatos com as crianças
os elogios com as texturas
os poemas com os homens
construir um mundo onde se caiba direito com a imaginação em espiral
revolvendo a memória cinzenta
na lareira rubia
no namoro ao meu coração
encontrando o amor nas esquinas das nuvens que
se bamboleiam na esperança dos olhos e dos olhares
no longo Inverno
em que se pensa
e de tanto se pensar
se mata!

Robert Motherwell
já não voo
já não voo.
os pinheiros sucedem-se
um atrás do outro
como o tempo
como a música, nota após nota
as nuvens vêem
atrás umas das outras
como os outros
um de cada vez
como num xadrez
lance após lance
já não voo.
tudo se sucede
com o seu espaço
o meu espaço também é tempo
agora vejo cada pinheiro
cada homem
cada mulher
cada criança.
depois o mar
e ainda o mar é o
que não tenho
o mar é o tempo cruzado e trocado
é o voo
que já e ainda não tenho.
Nestas promessas dos meus passeios
a S.Pedro de Muel
não há certezas,
só o encontro com o tempo,
o sucedâneo do meu verso
no poema do sono
Acordado não voo,
continuo no caminho
tenho um destino.
Na verdade por alguma coisa
o mundo é redondo,
para que o percuso
seja infinito
e o meu destino eterno.
Sem asas
o fio
dá lugar
ao sítio
um sítio é um tempo sem distância

entre rostos e palavras
entre rostos e palavras a erecção do tempo
como um vento
como uma brisa feita de seda
que nos dá a fresca existência
como um puzzle que se esclarece
que nos convida à ciência da solução, da conclusão
concluímos com a pele quente dos outros próximos de nós
uma flor na braça despida da árvore
e nós erguemos também um Inverno
mas sabemos ter as palavras quentes nos olhos e nos lábios
para os outros e para nós
O natal sempre existiu
a devoção só agora começa em mim
porque há rostos e palavras no mar
e o mar tinha coberto a cidade
e há um epicentro no poema
que extingue a memória longínqua
dos sacríficios sem razão
porque há rostos e palavras
e há um tempo que só os homens lêem
e era um desperdício não contar as horas na lareira
com a promessa dos rostos e das palavras
e há um mar sempre presente
trazido gota a gota nos olhos das mulheres e das meninas
e nos ombros dos homens
que enleia a ciência, os lábios, a ternura
e desfila o tempo naquela imagem fixa
de rostos e palavras
como o começo da vida.

as bátegas do nada mar
as águas quando claras podem ser nada
o mar vem até à cidade
vem de nada
e o silêncio que traz é nada
(o silêncio pressupõe um anterior ruído)
toda a cidade é vácuo
e essas bátegas de nada mar
encontram o vazio
um mundo sem homens é esta cidade deserta
não podemos hoje estabelecer a relação da nossa existência com um mundo sem ela.
Mas podemos assistir a essa circunferência
no recato do olhar pela janela transparente de encontro aos muros brancos
formiga a lareira, crepita o fogo no ar,vazio
hoje
um dia depois do Natal.

Modigliani
o dia mundial do dia
Podia ser partir o mundo
Cortar o corpo, mostrar o sangue
lavar os muros das sombras
pôr gravatas brancas
limpar o pêlo dos gatos
pôr broches nos olhos
correr os corpos com as línguas
colocar bandeiras brancas nos mares de cinza
recortar mentiras nos discursos
colher o sol nos beijos
tudo para ser
tudo o que se inventar
que não se invente
que seja
o que não se mostre
como a luz que deixa ver
e que a consciência inibida
omite e tapa
tudo num dia
num único dia seria dia

deserto
Não tenho cardos defronte
para dizer
que agora há deserto
Mas se escrever um poema
o que dizer de tanto espaço?

Daylight Fireworks by Pierre-Alain Hubert
uma questão de luz
Podemos escrever o poema
com a luz do dia
mas fica tudo por dizer
porque isto, aqui na avenida,
é só penumbra e pouca luz

Prefácio póstumo
Um diário não é um rol de solidões
Não é um breviário de sonhos
Nem uma enciclopédia de dores
Nem um altar de devoções
São palavras cosidas à mão
tecidas no tear da alma
com fios de solidão.
projectos que se contemplam
no científico epicentro
do eu geográfico do continente dos outros.
Não há ar nem vento
no papel amadurecido do diário
mas sim uma brisa de poesia que
trespassa o eu vibrante e vivido
E porque da palavra volátil
é imperioso que se faça matéria
a minha voz terá a espessura necessária,
tanto cómica como séria.
Não falarei de histórias e notícias
mas estará aqui sempre a poesia
do que perpassa
nas noites e nos dias.
Aqui haverá sempre um leitor fiel
para lá do que outros queiram ser,
eu e a vida,
como escrevo:
no precípicio da virtude possível
e da honra do razoável.
Não quero perpectuar
o pacto da forma com o conceito
mas prometer o belo
sem o compromisso do interesse.
Se for preciso matar a poesia
para que se tire o grito da garganta obstipada
que mate!
mas
que eu escreva sempre a palavra
" e seja então o vento lá fora
a fazer nos cabelos vivos de uma mulher
a estética do futuro
que afinal é só isso
que a poesia procura"

nota para o leitor assíduo
Não sejas só um consumidor.
Não te feches no consumo das palavras.
Há um vento que passa das palavras à película das íris dos teus olhos
que precisa de escrita. Escreve os teus versos
Com o odor do teu sangue
e assim escrever todo o sol que se consome
O teu paralaxe é preciso para a matemática da existência.
Faz uma multidão de palavras
do teu poema esquecido, encontrarás
a amizade da existência
e serás mais um que não morre.
Preciso da tua dor. Empresta-me o teu verso, juntos
vamos fazer as nuvens e as árvores do silêncio.
É preciso voz em tudo o que se sente,
a vida é tão escassa...

S.Pedro de Moel,Portugal
Um café em S.Pedro de Moel
um café sem gatos
e um vazio
entre as pessoas.
o mar está nas costas das mãos
e o altar na areia
faz a prece do sal.
Ao volante da bica
conduzo as palavras
para o céu...
,,,da boca
encontro voz
na pluma do dia.
O café em S.Pedro de Moel
é o espaço onde
a vida constrói o silêncio necessário
das palavras e das cores.
Não há epitáfios nas nuvens.
Também não há poemas.

"mar" Kandinsksy
há tudo para crer amanhã.
o poema começa nos pulsos
no drenar baptista do sangue
e a mão abre-se no ínicio da ideia(relâmpago avulso do corpo)
há uma casa e um leão como o sonho anterior aos passos na rua
e o cubo da existência abre a flor como o dia abre a cor
tudo são palavras, o poeta resume o tesouro.
deixei-te alguns dias no branco da página do teu corpo, diário.
nem sei se existes e sei que és menos que o morto
na explosão de Setúbal. há um fim sempre depois do poema.
Não me importa o cadáver, importa-me a dor que fica,
os sonhos da pessoa que deixou de ser passam agora para mim.
Não importa. Nem importa a minha má consciência. há ricos e pobres ponto final.
o mar também está nos pulsos os pulsos são um búzio. podemos orar.
Quero que a prece seja especial. Quero orar a Herberto Hélder. Sentir.
o meu diário, tu, és especial, não és um poema, tu és a poesia que passa por mim.Só
não tenho vivenda na praia, não podia ter.
rompem-se os lenços no cais palavra e outro poema regressa, contabiliza-se os grãos de areia
falta sempre um
não sei sempre se há maré , os ventos levam os ácaros e as preces.
o meu poema é vazio não podia deixar de ser, não tenho vivenda ao pé do mar
o morto da explosão de Setúbal também não tinha
restas tu, diário
sempre tu
as palavras e eu de cá
os poemas nascem nos pulsos como os búzios a dizerem o mar
há demasiado sangue nas praias
há demasiado diário nas palavras
há um poema de Herberto Hélder " A minha cabeça estremece"
há respeito. há silêncio
há tudo para crer amanhã.

Não sou Deus
Não sou Deus
tenho a certeza disso
apesar da culpa repartida de tudo o que acontece também caír aqui.
já disse algures, não há inocentes.Se calhar somos todos Deus, definhado e repartido.
deus morto. Alguém tem de inventar outro conceito outro nome.
A culpa e o Inverno, Dezembro e o Natal e Deus.
poderia-se fazer a capa de uma revista com estes títulos
poderia fazer-se um poema, daqueles bonitinhos de métrica e rima
e rima e métrica e Natal e Dezembro e de culpa e de Inverno
e de Deus. e não se dizia a azia que tudo isto tem.
e o dia e a noite, a noite e o dia.
Esticar a corda do piano. REBENTAR.
Não sou "Deus".
a palavra implica

a vulgaridade dos corpos
podemos também ver assim:
pelo diâmetro da existência
trocando as pessoas por corpos.
Pode até ser a mais séria das atitudes
comprrender que muitos são só corpos
e o mundo um enorme matadouro.
Quantos permanecem no sonho e fabricam a ideia?
Adia-se a existência por troco da mortalidade,
cumpre-se o corpo.
è certo que só podemos erguer a matéria
e continuamos espalmados às paredes
de tudo o que se sabe ainda ninguém levantou a imortalidade
da existência
do sublime e determinante eu ainda não se fez a promessa dos sonhos
se calhar o futuro será sempre tarde
e as manhãs um jogo inocente
faremos herbários com o silêncio da irreverência
cuidaremos dos jardins dos poemas com lágrimas no canto dos olhos
seremos sempre um segredo inefável e estranho...
podia estar bem disposto e acreditar...
mas o relógio Górdio do meu corpo dita a morte
o diabo depois do poema escrito baba-se do escárnio que me atira todo o dia
há mulheres belas ainda
o milagre pode começar a qualquer momento!

tudo o que vejo fala de mim.
tudo o que vejo fala de mim.
E isto e só falar,
as ruas, os húmidos dos vidros, as centopeias das paredes da minha deportação.
eu não estou no lugar, nunca verdadeiramente me encontro cá
há um espaço não ocupado que não ocupo, portanto.
Mas tudo fala de mim.
a própria existência das coisas de fora são eu mesmo, mim.
Há um filósofo qualquer que em qualquer momento falava assim
e eu só tenho mais um litro de cerveja e um litro de futuro gastos já.
tudo fala de mim, no oblíquo das ruas e na achega das luzes bizarras
das ruelas, tudo é esventrado neste eufemismo do meu eu colidindo com as matérias que designamos coisas,
coisas sempre coisas, soltas, que formam a ruinosa realidade fora de nós.
o exterior somos nós, com absinto ou cerveja. E nós somos isso , lá de fora
sentidos e reunidos á volta do eixo do nosso eu, sim seremos sempre o nosso centro
seremos sempre a força centrífuga e centrípta do que conhecemos e vivemos.
Tenho sonhos como todos vós, apenas.
numa rua pequena há um yoggi, um fantasma e um diabo
e há palavras.
o gozo perco-o no dislate da comunicação, nos versos, na ode.
E tudo é uma ode quando sentimos a doce dependência
da existência.
o Fantasma não fala e não mete medo.
o diabo é negro e meu amigo. a morte visita-me
Soltam-se os gatos e os cães.
O sangue corre como um sultão arábico por entre o adultério.
As palavras prendem o medo, ficarei só, erecto nas árvores que não conheço, que nunca conhecerei.
A vida perece aqui, e sou só eu que falece. E o que mais importa?
A vida se calhar é só esta prece...descosida de palavras enleadas....
falta-me o álcool para o fim do poema.
o yoggi aparece, desce da tipóia funesta.
haverá flores num poema que lerei.
haverá perdão aqui ou ali.
Mas não perdoarei o que não sonha e não grita.
Existirei amanhã. É a promessa que farei no sexo.
Adeus, é uma última palavra.

É bestial sentirmo-nos assim
comendo maçãs coçando a orelha
bocejando "pra fora cá dentro"
empoleirado em versos formiga
crescendo em alter-ego
recitando ar e ideias
lavando a pele poluída de escárnio
fervendo em ócio
esquecendo
olha Constantino, onde estão agora os teus poemas da guerra e da fome
e da pobreza epidémica
onde está o horror do sangue que coalhava na garganta
o grito da revolta?
-tudo tem o seu lugar é preciso aproveitar o dia
deixar o cinzento à porta procurar o gozo na ideia
o mundo é redondo e a sopa come-se toda
e depois afinal só se preocupam com os outros quem não serve para mais nada.
Pois, o poema, é mais importante essa urgência
habituamo-nos à desordem, à ineficácia, á incogruência
a utopia degenera no seu próprio significado
a luta está democráticamente condenada
e os outros gritam?
que interessa os outros....
promete-te a felicidade, a meta...
reflecte e ousa!
a divergência, o eufemismo da opinião
a opinião, o leito da concórdia...
prefiro raspar a pele depois do banho
depois do banho e da barba

Monet
tudo tem de ser especial e sublime
Acontece quando os dias são secos
e o opaco do tempo não deixa leitura
as palavras rescindem em mim o abono da matéria
eruptizam-se em espirais doces e voláteis
emergem dos livros de poemas e dos dicionários
como serpentes emplumadas convidando domador
sabem a feno de monet e dos trigos de Van gogh
e são toda a minha família de afectos
que circundam o vácuo da minha atenção
podia-se fazer água das palavras dos textos moribundos
e saciava-se a sede aos poetas
podia-se pintar céus cinzentos da capa azul das palavras
podia-se vender fonemas do canto das ideias
tudo se promete no encanto da criação da obra
tudo tem de ser especial e sublime
quando o ácido do estômago cresce
da raiva da chuva agreste
é preciso não escrever fim

S.Pedro de Muel 8/12/03
a BICA EM s.pEDRO DE mUEL SABE AO MESMO.
o SAL NÃO SABE, SENTE-SE.o MAR É O MEU OLHAR PERDIDO
TRAGO NOS BOLSOS MEIA DÚZIA DE MEMÓRIAS, RESTOS QUE ME ACOMPANHAM PARA TODO O LADO.
aS NUVENS FORMAM O CÉU, O CÉU NÃO ESTÁ PRESENTE.
pARA MIM TUDO É RECTA, FUTURO INDEFINIDO, DEPOIS DA MINHA MORTE.
jÁ NÃO QUERO A MONTANHA, CHEGAM-ME AS CONCHAS, AS AREIAS, AS ESPLANADAS.
aS GAIVOTAS ENCIMAM A PAISAGEM COMIGO DENTRO,
ESCREVENDO CONCÊNTRICO, COMO O MUNDO,
CURCUNFERÊNCIA DENTRO DE OUTRA CIRCUNFERÊNCIA.
pASSAM-ME PALAVRAS PELOS OLHOS, A sILVIA CHUEIRE, A SÓNIA, O GIL, O FÉLIX, O JORGE,
VERSOS DO VÁCUO DO SILÊNCIO.
tUDO É ESCASSO NA TERMINOLOGIA DO METEOROLOGISTA, MAS TUDO ME CHEGA,
THAT´S ENOUGH PARA O MEU DESEJO.
cOMPREENDO AGORA POUCO MAIS QUE ISTO:
UMA BICA E s.pEDRO DE mUEL DE MANHÃ, UM FERIADO, SEM GENTE.
pODIA SER SEMPRE ASSIM, NÃO ME CANSAVA COM OS OUTROS.
a MULHER DO BAR FALA PELOS COTOVELOS E O FUMO DESCANSA.
nÃO HÁ NADA PARA DESCANSAR, NÃO HÁ NADA PARA VER, NÃO HÁ NADA PARA VIVER, APANHA-SE A CANETA DO CHÃO E ESCREVE-SE E CHEGA.
a oRIENTE JÁ SE ENTARDECE E AQUI TUDO SE COMEÇA.
E BASTA!

Há um sonho
Há um sonho em que a planície se estende
no sublime da cor tépida até aos crepúculos da inteligência
não existem muros, nem fronteiras e os horizontes são apagados
no último esforço poético que alguém doou à humanidade
É um sonho que vive nas fenda das livrarias
e no soslaio das palavras líricas
nos monumentos que erguemos quando emergimos das noites fúnebres.
Os sonhos não são para crer
apenas precisamos de os realizar.

natal outra vez
por uma vez no ano
e ano após ano
o natal outra vez
os enfeites, os sorrisos, as ofertas
cremam-se os calculismos e as violências
sagra-se um corpo de menino
adocica-se as mãos no esmero
asseia-se o relicário da bondade
o tudo monstro espera
e nos bolsos ficará a magia renascida
por uma vez no ano
e ano após ano
o natal outra vez

revolver a gaveta
é tudo papel pardo:
as fotos luminosas, os selos catitas
as moedas raras, os cromos preteridos
é como este Outono e este dia
que não passa
que não tem futuro
só arde no prato a maçã que vou comer
um futuro breve prevê-se
e é tudo o que se leva da memória

JimWarren
Portugal não vive aqui
Pronto, nada há a dizer
o poema acabou.
Agora erguem-se as praias brancas
os mares imperfeitos
as memórias vivas
as nuvens cinzentas...
Portugal não vive aqui
e de que era feito?
Sonhei hoje cavalos brancos e pretos
numa extensa praia de areia fina
um mar bravo e uma fronteira
1 de dezembro
é uma camisola de lã
o Natal um efeito sem luz
mas isso que importa...
chove!
água e o sonho
ouvem?
Não compram?
água e sonho