
amor
um poema inspirado em Cummings
eu terra
quero dizer
a lua que te amo
as flores encantam
neste momento o futuro
a sordidez e do teu amor en-
laçam existência como a tua pele
me deixa nuclear pode ser a guerra
e os teus olhos doces explodimos de ter-
ror como cravados na ternura só temos a vi-
da na tua boca o fim é previsível não passamos
de corpo mas a tua brancura como um astro apoca-
lítico enrolada no lençol branco és uma visão morte só
podemos viver o presente e és minha como o sol se deita
e não haverá manhã quando trocamos olhares meigos e brandos
os Invernos rigorosos estão aí amanhã porque damos as mãos
e bebemos a água de uma amizade profunda depois a fome
as pedras e os teus seios pousados nas minhas mãos que
os ditadores nunca esquecerão como o ar que tu res-
piras veneno do ácido das pessoas descerei sobre
sentindo o tempo e não há tempo nem mar nem
haverá terra quererei apenas ter-te ao meu
lado infinito sorte e azar só vinte gerações
nunca te esquecerei como o linho grita
as dores da fome a tua mão os teus
olhos as memórias negras lapidar
rolarás sempre nesse leito com
armas e sódio mirrará mas
quero-te e o fim virá com
as rolas num quadro e
será este sorriso que
estará na palavra
o fim amor fim
amor fim a-
mor!
bom dia
prodigiosa coisa, esta
de falar comigo baixinho,
cá para dentro, procurando,
o ar
e a palavra.
um poema ermita diz circunflexamente existência,
o meu hábito,
selecciona,
investiga a estrada da alma,
uma flor abre-se da túnica branca,
floresce no deserto exterior,
quinze mil anos antes
dos Invernos rigorosos da Terra.
queria toda a Humanidade num sítio, aqui,
depois da ovelha desenhada por
Saint-Exupery,
na minha boca,
nas minhas mãos,
toda a Humanidade
aqui , neste tempo,
no momento dos meus olhos abertos no silêncio
no ar branco,
na água do meu desejo.
no desespero da alegria.
hoje, é um bom dia
para unir as espáduas da história
para fazer de um fio uma corda,
de alisar uma pedra.
Como atirar para sempre
o dia de hoje?

Declaração
declaro,sob honra:
vivo!
Nem sempre atento às cobras,
mesmo pisando minhocas,
não vendo todos os dias os pássaros,
ou tocando nos ovos dos futuros borrachos,
por vezes ligando ao vento, sentindo a cara cheia,
mas não comendo mel todas as manhãs,
nem lembrando teu rosto,
esquecendo o sexo (uma vez por outra),
não ficando fumando na janela da casa,
não recebendo correio,
não partindo a mesa,
abraçando segredos,
não vendo amigos,
mesmo a dieta,
mesmo sem mota,
não devotando o mar,
não rezando na cama,
um dia sem ver tv,
mesmo odiando as horas, o relógio certo,
com dias amargos
e de noites incertas,
não provando teatro,
não bebendo poemas,
não coalhando memórias,
dias e dias sem ouvir histórias,
e até a quantidades de dias sem me dirigirem - papá!,
ou a falta do beijo da mamã!,
por vezes sem um país para fazer,
e já não me fazem falta inimigos para odiar,
sem avó, sem tio,
sem pio, medrando
nem tudo vale a pena
mas vale vivo, vivendo
o Estásimo do Segredo,
o pingue pongue do espelho
com eu deste lado , sem medo!

Descobertas
não houve caravelas
não houve caravelas,
nem astrolábios,
nem infantes,
nem mares distantes,
nem brasões assinalados
nem Adamastores embuçados
houve toda a aventura
num saco
com cobiça , poder e medo,
mártires, heróis....homens
na boca do vento,
atirados na solidão da conquista,
corpos descobertos, nus
contra o sal do mar,
olhos fendidos no destino,
cobardes atirados para a frente,
mulheres perdidas na rua,
honra acima da alma,
incertezas e destrezas,
vida,morte e vinho,
poeira do Alentejo,
sedas da China,
Geometria , crenças, pedidos,
gritos,risos,lágrimas e açafrão,
torturas e negros,
vinho e sangue,
glória e perdição,
reis, padres e doença,
poder e direcção,
mudos e poetas,
cavaletes e crianças ,
ouro e promessas,
violência, divórcios,
hipocrisia e progresso,
orações, discursos e ratos,
poentes raros,
nascentes e dilúvios,
tristeza, serrotes e miséria,
bostas nas ruas, bestas em casa,
freiras e romarias,
esperanças e ordens,
orgulho e feijões ao jantar,
ignorância, arrojo, violência,
pedófilia, amputações e risos,
formigas brancas, aves esplêndidas,
praias,sertões, palmeiras
corropio de influências,
dinheiro, abandono
fé,
deslumbramento,
arrogância,
sobrevivência,
ciência,
riqueza,
boatos e silêncios,
sexo e cordas,
enganos e poemas
carne seca,
Descobertas!
três momentos de ti!
descobrir, cerrar a água.
os movimentos do teu corpo estão neste segredo.
hoje colhi segredos nas pétalas que falam de ti.
as flores deitadas.
como falar da tua carne púrpura.
paixão, recorte e ácido na cama.

mel e de cabeça deitada
todo o sol de mel na cerveja,
indistinta do cobre.
tudo se apaga depois da cortina ácida.
faminto, dou passos no céu
acocorado de boca na tua.
É o equilibrio que conta na palavra deitada para fora.
Não há cultura na cerveja, mas
...há cerveja,
colheres de prata indistinta,
como o redondo do mel.
olha agora os meus rios de cor aberta.
toda a língua para ti!
Vejo uma flor nos teus cabelos, deitada.
adormeço. o sol abrirá decerto a manhã!

é noite!
do líquido da estrada
e da cor sem prata
não se diz noite.
a lua vigia o mocho que pia,
e é um verso que é noite
cravam-se berbéres das histórias
nas mentes.
contra os muros, serpentes
o líquido da estrada, de repente.
a cor da prata ausente.
o voo nocturno da lua, no espaço.
o mocho vigia, sem verso.
é noite!
Há
Há um trono
e uma águia branca.
Há a morte e a espera.
Há um nome e uma árvore.
Há um nome que morre no trono.
A águia espera na árvore....
...o Ínicio.
z
Primavera
os livros, as cores, as promessas.
tudo em cima da mesa.
deambulo na floresta e bebo raios de sol por entre as folhas.
Sou todo em bocados, no chão
agora há livros, cores, promessas
e já vejo
o sorriso:
um dia de Primavera.
os cabelos de cor de malva anunciam-me o tempo
no dédalo do desejo
...águas e mel e livros:
o dia
ainda sem grilos!

o corpo desce à terra
o corpo desce à terra,
não há dor,
o ritual lembra a volúpia da precaridade do corpo,
e das pedras, e das águas, e dos circunflexos lírios,
ciprestes rubros e montes verticais e vales flamejantes e nuvens rápidas,
há toda a máxima velocidade no estalar dos olhos,
que se fecham nas lágrimas e o corpo que desce.
roupas negras, tempo, poeira e automóveis lentos,
todo o mundo rodopia no silvo do efémero
e do ácido das dores ausentes.
a dor vem, um dia, depois de almoço
com a memória pregada na bica...
a ausência será uma estátua de sentimentos e de gritos
o sal abrirá a ferida, a vida.
Vou para o poço, procurando a dor
enganando o futuro.
panos, flores e chuva!

Bibliotecas
Os livros fendem
a rotina e a morte
com ácidos de algodão
no sal do açucar
este bébé que tenho nas mãos
chama-se sabedoria
são fluídos do corpo
colhidos na mente
estão de encontro às árvores
na película das pedras
nos raios de sol que demarcam as sombras
os livros estão neste saber
que se cose nos olhos
das alunas e dos professores,
dos leitores,
nas bibliotecas dos prados e das montanhas
no recato dos silêncios dos lugares
nas adegas das salas de leitura
aqui há ácidos doces
e sais ternos
nas nossas mãos pousadas nos dicionários,
.... nos dias...!

a meigura dos dias
com palavras,
meias falas.
com,
circunferências,
estritas,
e com o gelo no calor
a vida
é,
naturalmente bebida!

Toda a água
toda a água nos livros
toda a água nos passos
toda a água nos velhos
a luz cuida de todos
a água lava
a água cuida
a água
a manhã organiza o Março
o Março é a água
toda a água!

8 de Março
há uma mulher debaixo de uma árvore
como uma planta verde,
em pé,
fermentando o verbo da árvore,
que está em cima.
a árvore floresce agora e tem beleza
e um dia destes vai dar fruto também belo
tudo por causa do verbo...
...e do fermento...
...e da mulher que está de pé!
.

do medo
um arco, uma cidade,
uma promessa,
um sentido,
espaços que se encontram prenhes...
todos os esqueletos guardam a cólera do medo
as estradas abrem-se por baixo dos arcos
as cidades prometem um sentido
o medo,
os esqueletos.