
A Investigação começou
as pétalas foram examinadas, o resultado foi positivo
trouxeram o cristal, apreciou-se a cor, provou-se a alegria
os reagentes provaram a ausência de ácido no cálice,
os estames provaram virilidade, os estigmas fertilidade,
chegaram dois especialistas, considerou-se sublime aquele aroma,
o linguísta pôs-lhe um nome: cravo
o povo não se esquece: -É o 25 de Abril!

A liberdade passou por aqui
uma cor de prata incendeia
a cor
a manhã
o astro cobre dentro do meu peito
não é só o sol que resplandece, hoje,
foi a liberdade que também passou por aqui!

Sem mar
sem mar, apenas a cidade.
as casas que não são casas, prédios, paredes.
e não há fontes, nem peripécias, nem azeitonas no chão.
Só pedras, risos dessimulados, origens fechadas.
Não sobra nada dentro dos automóveis, já experimentei.
Domingo, um campo sem palavras todo verde como uma bandeira,
Só na memória, como os mortos sorridentes da família.
Toda a cidade deita uma lágrima. A minha não deita.
é preciso fazermos sangue com os lábios na chávena da bica.
Eu não quero transmitir nada,
Apenas a voz do mar,
Sem mar!

Ítaca
Podia ir ao tempo
buscar cordas e missangas
presentear-me de medos e de animais extintos
imaginar tempestades
sentenciar campos de algodão com escravos
puxar para cá a palavra Liberdade, prometida.
Olhariam para mim como um poeta.
E essa verdade continuaria eficaz.
Mas eu apenas quero que os líderes prometam
que se vão embora e não sujem as palavras.
Os alentejanos que cantam o passado no seu coro colectivo
desejam
Quem bebe a bica em Leiria deseja
Quem corta alfaces no Valado deseja
o padre deseja
Vão embora homens do Poder,
deixem o desejo florir
Queremos Ítaca para sempre

na bica
é circular a árvore cortada na rua
é circular o vai e vem do vento sempre leste
é circular o medo, sem rodeios, o medo
(é aqui que o sinto, sem razão)
mesmo sempre equilibrado na recta
há um círculo que vem da Arménia e do Iraque
que conclui
o ponto inicial do medo
a árvore deitada, círculo
, um defunto.
começa na bica o assassínio em massa.

uma dor no meio do peito
tão distante das palavras
dos modos
dos homens
da poesia.
Nem posso invocar o martelo pneumático ensurcedor
ou a roda implacável do sistema tayloriano
estou sem destino, como numa lixeira,
cheio de obstáculos.
aqui não há telhados de oiro
nem a pele sedosa de Anna
Só um equívoco chamado realidade.
Realidade,
uma dor no meio do peito.

morre
há
uma criança que morre
quando eu acabar de escrever a palavra morre
e outra que morre tabém de fome quando eu escrever pela
segunda vez a palavra morre.
3 crianças com fome morreram já
quando eu acabei de escrever a palavra morre
não posso fazer mais...
só resolver escrever...morre
para que tu que lês sintas o que eu sinto.
não sei fazer mais que isto.
uma palavra, um cravo no meu corpo
o meu corpo também morre.
morre!
UNICEF´
Amnistia Internacional
AMI

manhãs esplêndidas
se da geometria saísse
para fora,
para a rua, a vida,
podia encontrar círculos e circunferências
bebidos pelas árvores
e pelas homónimas pessoas,
circulando ,rápidos, nas ovais derretidas com rodas e guiadores de chocolate
nos seus , súbitos e matinais desejos
de arcos góticos acompanhados
por cânticos onomotopeicos
de pássaros, triângulos equiláteros brilhantes.
Dos raios do Sol encontraria semi-rectas iniciais
que disseminavam os adjectivos mais sublimes,
sobre as cidades abertas ao novo dia.
Continuaria, se saísse da geometria, no percurso
breve da rua, no meu olhar vertical e substantivo
para os troncos de pirâmide de âmbar e alvenaria
que a aurora descobriria linear e perspectiva.
Do verbo e do cone faria a poesia concêntrica
e intrasitiva como um óculo de pétalas rosa
que visse o mundo como também é.
Os rectângulos e os quadrados homógrafos
funcionariam como um ludo de crianças
e tudo não seria engano ou doença,
nem os ruídos são como sempre se ouve,
nem os gritos, nem os rastos, nem as sombras,
nem os gases e as poeiras, nem os homens , nem as mulheres
acordam desfeitos pela erosão
há manhãs diferentes
todas as manhãs são outra coisa também,
depende do Sol
e de mim.

um livro!
procurar na estrada ou na palavra
o sinónimo de casa
com os olhos depois do volante
entre os versos
procurando a guarda
o escritor pôs chuva no caminho
direito
defronte do destino
perfilhei-me com memórias
buscando o fogo lento
da minha alma
no conforto das saudades
que faz do meu corpo eu
um km feito, um verso completo
um livro aberto,
a escrever em qualquer momento.
vidro eléctrico, verbo transitivo
um robe e uma coberta
a janela, grande enorme, luzente
os ácidos fazem efeito, da lucidez prumada
desde os cotovelos no balcão às 5 da tarde.
os sorrisos delas metidos nas palavras,
as palavras na boca,
o peixe encarnado, na cama.
o destino defronte, portanto.
A curva, o sinal vermelho, exclamação, espanto, pergunta.
os pinheiros, a alameda, a caneta,
um sorriso formidável.
um livro!