
by Jan BRUEGHEL the Elder
poema aberto
o que se prolonga no enleio
das memórias com as coisas?
todo o meu futuro é o passado,
obedece-se à análise: a descoberta
do segredo.
Em vão.
Não sou metódico e não obedeço a princípios, as flores que gostava de compreender estão disseminadas pelos rostos das minhas mulheres e essas
partilham paixões em páginas de diários.
Tudo seco, sem solução.
Os dias abrem-se em manhãs dispersas , o mergulho, nessa água é inevitável.
Nado como ando: num deslizar que só eu sinto, depois de beber o tempo
e de o conter, inefável e invisível, por momentos um segredo.
O meu sorriso é o meu futuro sem desejo. O milagre da felicidade é transversal
e nunca se colhe.
O corpo contém uma pergunta e se quisermos nunca a deitamos para fora.
A pergunta é a felicidade.
As coisas e a memória enleiam-se solutas na pergunta.
Como gostava que vissem este sorriso que não deita para fora.

um poema em Maio
a noite quente de Maio
tem gente,
que nasceu das papoilas,
dos malmequeres, dos poentes.
Toda a gente tem camisa aberta, t shirt,
sorriso, ritmo, luz, uma brisa que sopra lentamente.
as palavras circulam, derretidas, na roupa, na mão contra a mão,
no afago do passo no passeio.
a lua espraia indolente a luz macia na festa na varanda dos vizinhos
defronte, até às tantas.
Há choupos, urzes, fetos e carvalhos no jardim lúdico da minha mente.
ribeiros, charcos, grilos e lençois brancos da minha memória na piscina.
Tudo diferente do jornal malicioso das notícias, dos concursos electrónicos de televisão, das bielas giratórias dos automóveis, dos irritantes casamentos milionários monárquicos, da estupidez, do hediondo, do rídiculo.
uma ideia na ponta do cigarro, uma letra no dedo mindinho, um trevo no desejo,
...um sono profundo...
um poema em Maio
Louie Metz
pintura de Maio
como uma cortina de água:
um dia caído de cor, na tela.
No baço da tinta,
a textura da carícia só lida por mim.
Precisa o pintor do vulto, dos seios,
da boca, das mãos.
Para além da tela, eu preciso só da memória
com as tuas palavras na voz fina da tua têmpera,
os sorrisos, a tua carência, estão aqui,
nas dores do meu peito, na gaguez do
amor dito no poema.
A tela de água é o calendário
da nossa ternura imaterial,
a saudade está no fado ouvido dos meus pulsos,
tu vives,
algures, para sempre aqui

aprimorar a voz
preciso das palavras como pedras,
jogando um dominó lento com as sílabas.
Nos intervalos dos verbos, abrem - se os espaços
para águas e areias que dormem no corpo.
É sublime o arco de ar que assoma o monte,
também na voz lá vou, beber,
rolar debaixo das nuvens as preces.
Demonstrar um lago em entrevistas abertas,
de beijo para beijo, decompondo
o tempo...
desenhando letras em pergaminho
como tatuagem em garganta.
as pedras formam o marco,
o marco são os poemas
cansados que formam mares e oceanos
nos jardins persas das nossas autoestradas
é preciso tomar o conceito de asfalto que diz liberdade,
encher os bolsos
de espaço aéreo comercial,
afagar o correio azul,
dizer ao ouvido jornal,
para que as pedras do marco, do poema
não fiquem de encontro aos muros dos prédios
nas palavras bairros, circunscritas,
pondo os intervalos entre as pedras
nos azimutes dos mares e , dos oceanos.
É óptimo o futuro,
é preciso é pintar as paredes,
colocar as sombras
e adivinhar a luz,
viral do sol.
alimentar a bactéria da vida.
pintar as paredes.,
pintar os jornais
pintar os sóbrios
pintar as sogras
aprimorar a voz.