agosto 28, 2004

Alguns afectos antigos - 1


Alguns afectos antigos - 1

Mesmos sem nada no côncavo da língua para te dar,

Mergulho os dedos na tinta e desenho um poema:

Só o vento nos ramos forma uma canção,

De tempo e de silêncio esplêndido,

Dos meus olhos fixos no espaço,

Ressurge a memória dos teus abraços,

Da tua pele, dos teus dedos, da tua língua.

Que mais rosas nascem de árvores,

Graciosas feitas de vento,

Tão sibilinas que me deixam no pranto?

Publicado por constalves em 10:25 PM | Comentários (3)

agosto 26, 2004

Em S.Martinho do Porto


Em S.Martinho do Porto

Esses moinhos de vento,

Fazem espelho com a minha alma,

Levam o vento,

Para a mó do meu sofrimento.

A promessa verde do campo,

Não me trazem os meus amores brancos,

Antes levam, no vento,

As lilases saudades deles.

Dorme na falésia de S. Martinho,

Um segredo brando do meu afecto,

Os olhares cruzados nos vértices

Dos doces prazeres do encantamento.

Descobre-se o mar até pra além,

Depois do tempo que esfria o amor,

Mas traz o azul salgado do mar

A doce, quente, carícia no olvido.

Publicado por constalves em 11:26 PM | Comentários (1)

para o José Gil que faz anos amanhã


para o José Gil que faz anos amanhã

Pudesse recolher todas as gotas de água pura

E fazer um mar nunca inventado.

Podíamos então pensar numa ilha feita só da amizade.

Imagina o poente que veríamos!!!

Publicado por constalves em 08:42 PM | Comentários (1)

agosto 25, 2004

Quatro


Maria Angelo

Quatro


Recorto luas em papel, quatro.
Quatro sombras, verdadeiras.

Com os olhos na lua, olho quatro vezes.
Quatro lágrimas no papel recortado.

Publicado por constalves em 11:28 PM | Comentários (1)

Um fio de linho

Um fio de linho


Um fio de linho
Numa noite escura.

Sem tragédia, um pedaço de pão na rua.

Uma vida com sentido no furacão.

Uma viagem redonda no deserto.

E a lua rodando, parando, atirando o luar!

Publicado por constalves em 12:55 AM | Comentários (0)

agosto 23, 2004

Um poema


Um poema

Um poema é um pedaço de terra arada com os verbos do sangue.
Com ele podemos fazer um corpo com o húmus do tempo, com a bebida
das suas palavras fazemos um pão para todos os dias, para abrir as
gargantas secas de alma e de halos.
Com um poema fazemos a trajectória da lua e compramos o amor, somos
namorados das árvores, dos rios e todas as coisas que são ou não são.
Fazemos pontes, esculpimos abraços, dizemos solidão acompanhada.
Damos murros nas mesas, pontapeamos angústias e dizemos voz.
Não precisamos dos poemas, mas queremos sê-los, para ser menos
E lutarmos por mais.
Precisamos dos poemas para dizer mãe sem ela. Ou de pai para cairmos de joelhos.

Ou de Deus
Para dizermos alma.

Um poema é um território sem pântano onde podemos beber a água pura e ser uma árvore verde.
Um poema é um Cristo crucificado onde limpamos o pecado,
E seremos um pano de linho branco,
uma criança que vê para além da mentira,
que joga ludo com as estrelas mesmo fechado numa cela.

Um poema pode ser uma janela mas eu quero que seja um arco de pedra, a pedra seja de alabastro
E o alabastro, branco, e o branco da cor que só a alma vê


Publicado por constalves em 09:54 PM | Comentários (1)

agosto 21, 2004

Nas árvores


Nas árvores

Muito longe até às arvores,

Há o céu negro que espanta as pedras do caminho,

A vontade preguiçosa das sandálias indomáveis,

A alma presa nos vidros quebrados da solidão,

A verve do pântano do vício.

As árvores!

A miragem do descanso do meu sangue,

E os olhos prenhes de futuro?,

Um corpo na sublimação do atol fechado de uma angústia leitosa

De horas no descanso das ondas.

Podia eu ser um mar fechado como o Baical preso na terra,

As árvores, o cristal do segredo ouvido de mansinho.

Irei! Como um legume hasteando e achando o ar.

Nas árvores

Outro dia!

Publicado por constalves em 10:29 PM | Comentários (1)

FENDA NAZARE


FENDA NAZARE

Abre o tectozinho da alma, abre

Desacorrenta Prometeu se a abobada

Do mosteiro desce na tua mão legére

Os sinos lavados tocam na rotura do sitio

Na Nazaré escondem tantas lágrimas

De outros pescadores de redes de escrita

Há missa hoje e já não há pesca, o sol seca

O sol sal, o salgado mar que o tecto quebra

Na muralha onde o musgo verde cobre

As pedras em coxa e concha redonda

Salgado o corpo de lágrimas como

Escamas de tanta ausência no peixe dourado

De Klee ao centro da sala do Museu de Vidro

Depois é o caos tudo se derrama sobre a areia

Um BMW só come sardinhas bem passadas

Warold fica em amarelo mo morro da Nazare

A Pop Arte as gambas bailam em Marcel Duchamp

E todo o trem do modernismo adensa a essência

De um samba longínquo ou um Blue de China Town

A Sónia sorri ,delicia na tarde esta é mesmo uma

carta para ti leitor ou legére ou não leitor

sem postais ilustrados nem links de decoração

José Gil

Sónia Regina

Teresa Silva

Constantino Alves

Nazaré,Fátima,Leiria, 18,19 e 20 de Agosto de 2004

Publicado por constalves em 04:07 PM | Comentários (1)

come essa borboleta


come essa borboleta

come essa borboleta que voa,
que arrasta o ar que te falta,
vê o prado de alma que se estende à tua frente,
surripia a matinal cotovia
e presta o juramento ao sol,

que ainda és sangue jovem, erva que cresce sem razão,
imponderável vida, fruto ou futuro
raíz aeróbica que tece fractais infinitos.

o rio alimenta o vale, a montanha sorri, altiva

todo o voo na borboleta írica no campo
é a tua existência em cristal,
o teu corpo alado promete o prazer inefável,

mergulha sem dor
a idade não conta,
ganharás o vento
e o vento não se repete , não presta matéria
e não tece memória

come essa borboleta!

Publicado por constalves em 03:52 PM | Comentários (0)

agosto 19, 2004

Agora que os pássaros passaram


Agora que os pássaros passaram

Agora que os pássaros passaram
A areia presta um murmúrio ao sol,
Está prestes o futuro com algas de sisal e teias de sorrisos
Ainda suspensos.
Fez-se a bola de fogo e repartimos o cádimo turbante de prata
Tecido de existências felizes.
As ruínas são só palavras mortas, mas ficam as estradas,
Fluentes em cor.

Se puséssemos ar no moinho fazíamos o pão

Publicado por constalves em 08:29 PM | Comentários (1)

agosto 13, 2004

para lá das árvores!

para lá das árvores!


os amigos estão para lá das árvores,
presos na sombra da manhã.

A solidão, esta solidão de sol que criei,
arde-me nas palmas das mãos.

não há pontes no deserto que fabrico com o brilho dos vidros da memória.
Se houvesse pontes havia rios e margens e havia amigos debaixo de choupos.
havia árvores e eu e os outros.

mas o deserto é a minha ignorância e esta chama de verdade verde não sabe encontrar àgua branca, lagos com os outros.

Isto não é nada importante, só é importante é esta faca espetada no meu peito
por saber os outros longe...para lá das árvores!

Publicado por constalves em 11:00 PM | Comentários (1)

agosto 01, 2004

lá longe não há lua decerto


lá longe não há lua decerto


parece impossível a lua ser só minha esta noite,
o silêncio e a lua como um bálsamo oriental.
não se esquece nada, apenas, tudo o resto não existe.
as folhas das árvores, devagarinho, fazem uma prece com a linguagem do vento.
o tempo pára no morno da noite como se quisesse falar comigo.
Eu estou na rua, nu, de palavras e ruídos. Não há saudade e memória.
As corujas brancas voam enchendo o ar de fantasmas pacíficos e extraordinários.
Parece impossível que a lua seja minha esta noite, e que eu percorra, lento,
o lago formidável da existência, no luxo do deleite da´paz deste momento.


lá longe, na vida, há mortos e feridas todos os dias, sem tempo, nem futuro.

de cabeça para trás de costas no muro bebo a lua, um hidromel que repito todas as noites de Verão.


lá longe não há lua decerto.

Publicado por constalves em 10:02 PM | Comentários (7)