
Alguns afectos antigos - 1
Mesmos sem nada no côncavo da língua para te dar,
Mergulho os dedos na tinta e desenho um poema:
Só o vento nos ramos forma uma canção,
De tempo e de silêncio esplêndido,
Dos meus olhos fixos no espaço,
Ressurge a memória dos teus abraços,
Da tua pele, dos teus dedos, da tua língua.
Que mais rosas nascem de árvores,
Graciosas feitas de vento,
Tão sibilinas que me deixam no pranto?

Em S.Martinho do Porto
Esses moinhos de vento,
Fazem espelho com a minha alma,
Levam o vento,
Para a mó do meu sofrimento.
A promessa verde do campo,
Não me trazem os meus amores brancos,
Antes levam, no vento,
As lilases saudades deles.
Dorme na falésia de S. Martinho,
Um segredo brando do meu afecto,
Os olhares cruzados nos vértices
Dos doces prazeres do encantamento.
Descobre-se o mar até pra além,
Depois do tempo que esfria o amor,
Mas traz o azul salgado do mar
A doce, quente, carícia no olvido.
para o José Gil que faz anos amanhã
Pudesse recolher todas as gotas de água pura
E fazer um mar nunca inventado.
Podíamos então pensar numa ilha feita só da amizade.
Imagina o poente que veríamos!!!

Maria Angelo
Quatro
Recorto luas em papel, quatro.
Quatro sombras, verdadeiras.
Com os olhos na lua, olho quatro vezes.
Quatro lágrimas no papel recortado.

Um fio de linho
Um fio de linho
Numa noite escura.
Sem tragédia, um pedaço de pão na rua.
Uma vida com sentido no furacão.
Uma viagem redonda no deserto.
E a lua rodando, parando, atirando o luar!

Um poema
Um poema é um pedaço de terra arada com os verbos do sangue.
Com ele podemos fazer um corpo com o húmus do tempo, com a bebida
das suas palavras fazemos um pão para todos os dias, para abrir as
gargantas secas de alma e de halos.
Com um poema fazemos a trajectória da lua e compramos o amor, somos
namorados das árvores, dos rios e todas as coisas que são ou não são.
Fazemos pontes, esculpimos abraços, dizemos solidão acompanhada.
Damos murros nas mesas, pontapeamos angústias e dizemos voz.
Não precisamos dos poemas, mas queremos sê-los, para ser menos
E lutarmos por mais.
Precisamos dos poemas para dizer mãe sem ela. Ou de pai para cairmos de joelhos.
Ou de Deus
Para dizermos alma.
Um poema é um território sem pântano onde podemos beber a água pura e ser uma árvore verde.
Um poema é um Cristo crucificado onde limpamos o pecado,
E seremos um pano de linho branco,
uma criança que vê para além da mentira,
que joga ludo com as estrelas mesmo fechado numa cela.
Um poema pode ser uma janela mas eu quero que seja um arco de pedra, a pedra seja de alabastro
E o alabastro, branco, e o branco da cor que só a alma vê

Nas árvores
Muito longe até às arvores,
Há o céu negro que espanta as pedras do caminho,
A vontade preguiçosa das sandálias indomáveis,
A alma presa nos vidros quebrados da solidão,
A verve do pântano do vício.
As árvores!
A miragem do descanso do meu sangue,
E os olhos prenhes de futuro?,
Um corpo na sublimação do atol fechado de uma angústia leitosa
De horas no descanso das ondas.
Podia eu ser um mar fechado como o Baical preso na terra,
As árvores, o cristal do segredo ouvido de mansinho.
Irei! Como um legume hasteando e achando o ar.
Nas árvores
Outro dia!

FENDA NAZARE
Abre o tectozinho da alma, abre
Desacorrenta Prometeu se a abobada
Do mosteiro desce na tua mão legére
Os sinos lavados tocam na rotura do sitio
Na Nazaré escondem tantas lágrimas
De outros pescadores de redes de escrita
Há missa hoje e já não há pesca, o sol seca
O sol sal, o salgado mar que o tecto quebra
Na muralha onde o musgo verde cobre
As pedras em coxa e concha redonda
Salgado o corpo de lágrimas como
Escamas de tanta ausência no peixe dourado
De Klee ao centro da sala do Museu de Vidro
Depois é o caos tudo se derrama sobre a areia
Um BMW só come sardinhas bem passadas
Warold fica em amarelo mo morro da Nazare
A Pop Arte as gambas bailam em Marcel Duchamp
E todo o trem do modernismo adensa a essência
De um samba longínquo ou um Blue de China Town
A Sónia sorri ,delicia na tarde esta é mesmo uma
carta para ti leitor ou legére ou não leitor
sem postais ilustrados nem links de decoração
José Gil
Sónia Regina
Teresa Silva
Constantino Alves
Nazaré,Fátima,Leiria, 18,19 e 20 de Agosto de 2004

come essa borboleta
come essa borboleta que voa,
que arrasta o ar que te falta,
vê o prado de alma que se estende à tua frente,
surripia a matinal cotovia
e presta o juramento ao sol,
que ainda és sangue jovem, erva que cresce sem razão,
imponderável vida, fruto ou futuro
raíz aeróbica que tece fractais infinitos.
o rio alimenta o vale, a montanha sorri, altiva
todo o voo na borboleta írica no campo
é a tua existência em cristal,
o teu corpo alado promete o prazer inefável,
mergulha sem dor
a idade não conta,
ganharás o vento
e o vento não se repete , não presta matéria
e não tece memória
come essa borboleta!

Agora que os pássaros passaram
Agora que os pássaros passaram
A areia presta um murmúrio ao sol,
Está prestes o futuro com algas de sisal e teias de sorrisos
Ainda suspensos.
Fez-se a bola de fogo e repartimos o cádimo turbante de prata
Tecido de existências felizes.
As ruínas são só palavras mortas, mas ficam as estradas,
Fluentes em cor.
Se puséssemos ar no moinho fazíamos o pão
para lá das árvores!

os amigos estão para lá das árvores,
presos na sombra da manhã.
A solidão, esta solidão de sol que criei,
arde-me nas palmas das mãos.
não há pontes no deserto que fabrico com o brilho dos vidros da memória.
Se houvesse pontes havia rios e margens e havia amigos debaixo de choupos.
havia árvores e eu e os outros.
mas o deserto é a minha ignorância e esta chama de verdade verde não sabe encontrar àgua branca, lagos com os outros.
Isto não é nada importante, só é importante é esta faca espetada no meu peito
por saber os outros longe...para lá das árvores!

lá longe não há lua decerto
parece impossível a lua ser só minha esta noite,
o silêncio e a lua como um bálsamo oriental.
não se esquece nada, apenas, tudo o resto não existe.
as folhas das árvores, devagarinho, fazem uma prece com a linguagem do vento.
o tempo pára no morno da noite como se quisesse falar comigo.
Eu estou na rua, nu, de palavras e ruídos. Não há saudade e memória.
As corujas brancas voam enchendo o ar de fantasmas pacíficos e extraordinários.
Parece impossível que a lua seja minha esta noite, e que eu percorra, lento,
o lago formidável da existência, no luxo do deleite da´paz deste momento.
lá longe, na vida, há mortos e feridas todos os dias, sem tempo, nem futuro.
de cabeça para trás de costas no muro bebo a lua, um hidromel que repito todas as noites de Verão.
lá longe não há lua decerto.