
só
só o teu olhar, uma sereia de seda, os teus seios cómodos e redondos,
só o teu beijo, um verde aqui, as tuas mãos propícias, uma nuvem mais branca que as outras, as tuas coxas sublimes de chocolate, o teu verbo da língua,
só um tempo e um espaço, o teu sorriso macio, uma água em rio, o teu segredo da tua pele, um domingo, uma ostra de alabastro, a tua fantasia em amor, uma terra húmida em planta, todo o azul
todo o azul e o branco
e o branco
não cabem na minha boca.
soltam-se ventos nos poemas, o mundo há-de girar!

Outono
decompõe-se o fruto, abre-se a terra à semente,
abre-se a vereda do frio,
cozinha-se um pão quente no peito,
constrói-se um relicário lento da verdade,
as folhas de plátano caídas declinam o sol,
há uma estrada de solidão em frente,
espero o meu amor às sete.
atira-se lentamente lenha para o coração,
as janelas pintam-se de cobre,
a melancolia é um precípicio sagrado,
uma linha de cegueira cobre a manta do sono.
preparamo-nos de sonâmbulos para a frente!

Ainda Verão
Como esta tarde, sem cair e com alcachofras vivas no poente,
Um grito branco, sem dor e lento,
Revela as árvores sóbrias e insistentes,
A existência em mármore se afirma
Há todo o amor no deleite da consciência,
Que este Verão não pode acabar!

iremos até à montanha
os dias começam com as árvores,
com múrmurios livres das folhas,
depois as aves fazem desenhos frescos nos ares,
os nossos olhos abrem com a preguiça do amor,
mas o dia ESTÁ PRONTO!
é preciso abrir a porta, soltar o coração no verde da erva limpa,
usar as sombras meigas das medas de fenos,
coaxar carpe diem no charco,
olhar de pé as memórias sólidas da existência,
carpir o vinho de ontem,
e provar a chuva quente e nova,
assim , provalmente o dia acaba
na cama, fazendo sexo com ela, concebendo um filho
por firmeza,
por gosto e coragem
e
iremos até à montanha!

Desconcertadamente tudo é diferente da tv
Tudo é como sempre foi.
A praia, o oceano, a casa.
Os homens, as mulheres e as crianças.
O relógio, o tempo, as calças vincadas.
A lua rouba a luz do sol, o namorado goza a namorada.
Um rei tem diabetes, um servo comemora o nascimento de um varão.
Um terrorista urina uma árvore e boceja, o tornado derruba o presidente da câmara.
Desconcertadamente tudo é diferente da tv.


Um barco na tarde, um polícia morre!
Perfura-se a pele do dia, encontra-se o âmbar perdido.
As rosas bebem a luz derramada do sol.
Como num caminho, deslizo no azimute da bica,
Fazem-se as horas de ouro no relógio de pulso.
O mar pratica o contágio com o sangue.
É meio-dia. S.Pedro de Moel. Um detido na esquadra.
Regurgito o almoço. O verso não quer calorias.
A seda está pronta no córtex cerebral.
Machados de ouro em algas de safiras.
Frescas sardinhas na lota.
Fura-se mais a pele: golpes de prata.
O âmbar sobe poluto. Três da tarde!
Um morto na estrada, água na língua,
Um jovem casal não namora, odeia!
Colo-me às pedras da praia, recebo as estrelas do mar,
Cinco da tarde, é hora do chá!
Um barco na tarde, um polícia morre!

Mais um dia negro de Setembro
chega aos meus ossos o sangue da Ossétia,
cegam-nos lágrimas de dor feita de revolta.
não há paz na verdura deste mar de S.Pedro,
não há paz na brancura das flores do Jardim Camões,
não há tempo na secura dos nossos lábios sensíveis.
Não há amor nas minhas mãos que afagam os meus filhos,
nem o sol claro me podia dar agora esperança e consolo.
Há morte e desespero na Ossétia e isso invade todo o mundo,
as coisas que tocamos, os outros que amamos.
chove na rua, o céu cinzento de nuvens,
mais um dia de Setembro negro,
a paz prendida,
a dor solta!