
Quantos rios se despedaçam naquela sombra,
se perdem no frio daquelas raízes?
e nós, sabendo que aquilo, feito de gelo e ignomínia é só uma voz!
Há sangue deitado no úmero das verdades e nos braços puros,
por aquilo não ser mais que mentira e envenenar as árvores~.
o poeta e todos os homens puros continuam fazendo seiva de mármore branco
com os olhos cheios de lágrimas.
A voz. sem cara, continua ordenando os dias iguais.
a mãe branca acolhe o homem negro de verdade sem mácula.
a voz, que não tem nada a ver com as árvores e os lagos, mata!

Nos minutos que antecedem a alva
As gaivotas despedem-se do Deus negro
S. Pedro é apenas uma rocha
Fundida nas asas do mar
Na maré viva o tempo ousa
Sagrar os lugares como um desenho rupestre
Eva desce do firmamento em pedaços de sol
ouve os coentros em cristal, o pecado fragmentado em blues profano
Não faltam navios no vazio
O nevoeiro adensa-se por dentro da pele de Eva
Apolo matou Adão e roubou o sol ao mar
Eva negra constrói a trança sentada no espelho
A trança atalhe a cintura fina e Portugal está exposto na praia, permanentemente.
Os veleiros constroem o vento por habitar.
O Deus negro são as gaivotas deitadas no espelho
da noite – uma égua voa entre as pernas de Adão
O mundo tem duas partes planas invento
um planisfério à volta do teu umbigo
só me lembro das crianças e de minha mãe
tudo é opaco e verde como a hortelã dos
sentimentos , gosto de comer o silêncio
com palavras cheias de dentinhos redondos
o fumo desvanece as imagens sobre a areia
repete-se o domingo na esplanada das
mesquitas. Rosa espera o namorado, João
areia o relógio ,a língua estava morta junto
aos ponteiros do coração. É domingo as horas
dormem na rocha de S. Pedro , podíamos habitar
a Fundação e adormecer o canto na vertigem
dos violinos só o sol se esquece do que é a música
eu chamo as rochas invento uma sinfonia de pedras, o poema é feito pelo mar, o restaurante está aberto. Saberemos cumprir o dever do pão
o caminho verde da carne e o vinho branco
das lágrimas. Estou grávido de esperança mas tento esperar nove luas para que o mar se lembre de mim e traga as gaivotas de volta .Não se prende o continente nem o mar é só água nem as nuvens só olham nem eu sou só voz
alimento o Deus do acaso a ovelha negra do caos
quem não sabe o seu labor assim exposto
pouco sabe das vísceras da tristeza Não ouço
musica há tanto tempo, sou apenas sal e sou invisível despedaço as vísceras e grito
claro, que falta uma pele, uma árvore, uma torre
nem o poema é só mar, nem eu estou aqui
como um fruto seco do oceano, invente-se o vento na China, erga-se uma bandeira em Portugal que haja montes, rios, aguarelas,alimentos, desejos, paixões, versos, e tu não fales naquele dia, o dia um.
Rosa e João beijam-se devagar na primeira porta
da varanda de S. Pedro. Todas as pedras olham
e endurecem a própria solidez. Jogas as pedras
contra as pedras e tenta polir todas as almas
só o fumo salta, explode entre a água e a onda
o politico inventa a quadratura do verso, o parlamento das aves faz sal. Uma pomba desliga
o fio do horizonte .
Sempre a dor do paraíso, sempre o imperador
da flor da saudade, acácias do teu peito em bico
faltam animais na praia, o salto do gato, o latir do cão ,uma bica sem açúcar, o martelar de velhas locomotivas,um rolo de carne, por favor!
Rosa e João voltam ao traço da animação
Seguram os dedos contra a pele do céu, arrepiam
o próprio gato no aniversário da água
o bibliotecário arruma sistematicamente o mesmo livro no mesmo lugar
José Gil, Constantino Alves e Jorge Vicente
Praia de S. Pedro de Moel
24-10-2004

por baixo desta seda negra que é a noite
sinto o socalco do teu seio
que está preste a ser meu.
uma palavra minha é a tua lua cheia.
cruzamos desejos na cama.
o teu sorriso .
depois a tua pele.
a janela entreaberta. o luar.
não pode haver mais palavras. O mundo pode partir-se em dois
o sol.
pão com manteiga, na cama.
o beijo.
como vai ser com a saudade?
colocas o chapéu. Uma pomba levanta voo na praça.
o teu cheiro.

pintura
Se fosse pintura esta palavra que tenho na voz,
podia chegar até ti
numa cor aberta contra este domingo doente de cores.
Podia ser um desenho de uma flor demolhada nas lágrimas,
num pastel e aguarela fazendo um aquário de memória que guardo de ti.
essa pintura que chegasse até ti, podia ser a palavra que tenho na voz.
uma palavra resgatada na fenda dos dias sempre iguais e tão sóbria como este domingo cinzento, sem tempo e sem fim.
Esta palavra é o amor que sinto por ti
e estaria nos seios pintados na tela,
nos teus olhos serenos e doces escritos de guache,
nas tuas coxas, no teu cabelo, nas tuas mãos.
Se a minha palvra que guardo na voz fosse pintura,
podia ser
que tu visses qiuanto de ti está em mim,
que é tudo o que guardo numa palavra,
que se encontra na minha voz,
que me faz saltar para a frente,
vencer os dias sem ti.

O feijão, o embrião consome a água
O feijão, o embrião consome a água.
Eu, tu também!
A experiência principia: tudo no inicio.
Tudo de preto. É noite!
Estamos assim na encruzilhada, decompostos nos braços um do outro
Um mar obcecado penetra-nos, bebemos também.
Contas-me emoções, cai-te o cabelo, a árvore aprende. Contas-me a pele, sujo-me de doce, sorrio
Os plátanos esperam à janela para te olhar, há uma carícia que me apetece dizer-te,
A água cai no feijão, humedece os lábios, o cipreste pinta de verde a sombra, o lago ri aos cisnes.
Continuas assim, de olhar prestes a morrer de vergonha como os girassóis de plátano. O vidro resplandece e parte-se
Deitas-te , esqueces talvez que és minha, um ribeiro eu cai no cemitério das promessas, fazem-se contas na bolsa, continuas nua encostada na cama, só vejo o teu cabelo, amo- uma vela apaga-se, fumo um cigarro, dou voltas ao mar, agora.
O embrião consome a água, cozem-se os linhos no rio -te amarelo na China,