
Quando a noite preenche todo o espaço,
a lua o lago azul, o silêncio o tempo.
Uma ave branca lanceta um olho cego, uma criança sai de dentro,
uma flor abre no peito.
Podia ser dia de qualquer maneira,
mas o Homem tinha de ter outro jeito.

um natal começa a nascer aqui,
nas minhas mãos em concha à beira desta fonte, no meu e teu olhar,
na tua leitura do meu poema.
Uma criança faz um abrigo de canas, um velho aquece-se na lareira às cinco da tarde, há menos pressa da multidão com o frio da noite a chegar.
O teu beijo morno torna-se maternal e há todo o silêncio de uma flor a desabrochar no parapeito da minha janela. As palavras, coisas nossas de dentro, desfilam numa melopeia intensa no nosso coração, sem vírgulas e pontos finais construíndo poemas morais e desenvoltos num misto de esperança e serena tristeza.
Nas minhas mãos em concha, no teu e meu olhar construímos presépios de segredos que habitam abrigos de canas e memórias de velhos à lareira às cinco da tarde.
A multidão junta-se ao fim da noite em cada família por detrás dos xailes de lã
, nos sofás à frente da rotineira tv criando, fazendo laços de tempo e silêncio , cadinhos da mágica que vai nascendo nos corações.
Tu lês o meu poema e eu sei que neste frio há um fio quente de palavras
que enchem o nosso silêncio. Coloco-me na janela de nariz esborrachado como na montra de Natal, o lusco-fusco é a prata e as pessoas, como nós,vagarosas nos passos e quente nas palavras, são os presentes vivos da constância do amor.
Depois de toda a calamidade, vem vindo o Natal.

Constrói-se um poema de cadeiras vazias,
de solidão, de chuva na vidraça, de folhas caíndo no chão.
e Outono, de Inverno, de mãos frias e pedaços de pão,
mas esquece-se o grito seco do poeta que fica no coração.
O poeta quer mudar o mundo, perguntar, meditar fundo.
Mostrar o que vai mal, evidenciar a mentira e a verdade.
Faz do seu corpo um poema de sangue, lanças, ossos e verbo
como escultura armada no mundo. Faz mexer a multidão, iluminar o belo,
fazer rodar o relógio do sentimento, mudar a cor da ideia,
abrir o pensamento, alcançar o horizonte perdido.
Chama de irmão os outros e não desiste de
laçar o suícida, amar o desprezado, receber nos braços o fraco.
Se o sol nascesse agora quantas palavras podia o poeta agora escrever e abrir um novo mundo?
há um silêncio entre nós,
de seda e de fragância .
a tua mão de maçã promete um segredo.
No nosso olhar reflexo, um início do tempo,
uma manhã sem o ácido dos dias.

Sentas-te no mármore do lençol de cama,
a chuva, batendo de leve na janela, testemunha o silêncio de dentro.
não há voz, as promessas requerem a mudez complacente.
o nosso abraço abre o círculo fechado do coração,
a fragância que tu usas não tem nome
a seda fica nas nossas línguas
a teu beijo é o lacre que nos fecha em sois.
seguimos juntos na praça,
uma pomba branca esvoaça, levanta por momentos o Outono.

O vento e a água regressam
à terra, um homem caminha
no lado esquerdo da casa,
um jardim de sol para os sentimentos
tomate, cebola picada, orégãos e
mozarela espiritual na ilha a manga
e a laranja da ternura .
Os óculos caem no chão
um minuto para o meio –dia. Uma
velha penteia os cabelos brancos
frente ao espelho. Um dia que podia não ser
impossível. Já não vejo nada
sem os óculos do bom senso
O homem regressa à cada de vento
Chovem lágrimas de Deus sob
Os olhos da velha. Os cabelos ganha
Os seus próprios caracóis.
Os seios redondos da lua
O leito de Madona, aço e cetim
Um caminha na utopia, o não sonho
O frio. O homem ainda sem óculos.
Cega. As mãos e os pés desenham o percurso
O filme amadurece junto às ameixeiras
De trás para a frente, projecto ,redondo
silêncio, obstáculos, promessa
O simulacro da lua. Não tem fim
É redondo dizer utopia
JOSE GIL e CONSTANTINO ALVES

Os tambores já não troam,
Há sangue escuro no fato do luto,
Um lenço aos quadrados cai
No mato de cadáveres. Um silêncio.
Por respeito canto um grito palestiniano.

Uma ostra veio-me visitar,
Trazia perfume e utopia,
no lugar da pérola, sabedoria.
Qual mar esqueceu as ondas vivas e as marés,
O rebentar do pranto na praia?
Antes quis conceber o Belo e o conhecimento,
Roubar ao céu o seu tesouro.
Do meu corpo terra e da minha secura,
Nascerei outro neste mar
Perderei a ignota agrura
Serei sábio ópio no verbo amar.
desaperto o laço azul escuro, a lua emerge,
saem silhuetas claras de pessoas,
os meus olhos nos teus olhos,
um lago no degelo. uma dor, um beijo.
desce-se a escada da mão, um fogo.
pianíssimo, descobre-se o tempo.

Toda a chuva é o meu cabelo. toda voz. todo o silêncio.
Tudo que é nada não está em mim. é dos outros.
Toda a água é silêncio aqui. Só. já. eu.
Os rios continuam por entre as pratas do tempo. A melancolia exagera na onda
. na melopeia, no tempo.
os pés molhados. Roberto canta uma lírica. Maria recobre o seio com a seda carmim. a língua chove: um cavalo, Atlas!
Como se o meu poema não fosse sempre domingo. como se não chovesse.
Como se nunca houvesse pergunta.
Como se nunca chovesse.