dezembro 31, 2004

Sete menos um quarto

Agora, às sete menos um quarto,
já com a lua fazendo amizade com a noite,
é que me posso sentir só, como antes do espectáculo, antes de subir ao palco:

Eu e o Segredo,
e uma bandeira de rosas brancas cantando paz.

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dezembro 30, 2004

Quase no fim


Desculpem-me as rosas pelo sangue vermelho derramado
desculpem-me as árvores pelo vendaval de palavras do meu peito
desculpem-me as florestas, os jardins pela chuva ácida da minha ironia
desculpem-me a mentira do transparente do meu olhar negro, oh nuvens negras da desgraça.
Que o Universo perdoe-me a iconoclastia da minha vontade.
Mas o susurro da verdade tem que trespassar o meu corpo, violentamente
no centro do sol arbitrário da lógica , da submissão da razão.
A minha boca tem de lançar um novo ano aberto de novos verbos, as minhas mãos quebrar o aço das coisas impuras.

É preciso sonhar com o fogo na saliva da dúvida.
è preciso governar os jardins , fazer bandeiras de rosas, abrir as memórias e descobrir a paixão pelos outros e as coisas, sentirmo-nos todos,

Ousar a pérola do futuro. Oh! grande Utopia.

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dezembro 29, 2004

Ainda é Natal


Como fazer o silêncio das vozes doridas,

Talvez uma voz encontre a razão das rosas florescerem da laje deserta do Inverno,

Outra vez, sempre.

O silêncio é o signo das coisas escondidas dos olhos tristes, da saudade.

Os moinhos emergem das lágrimas e encontram o futuro nos ventos.

Um pássaro voa como um tenor num lago branco.

Ainda é Natal, os meninos ainda rodeiam os pinheiros

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dezembro 28, 2004

carta 2 a A.

Lê-me o pássaro do olhar,
vê no transparente do meu verbo,
a verdade das minhas lágrimas,
têm um sulco de fogo,
um código antigo para dizer coração.

Todas as hecatombes de aço
que tombam as cidades
ainda não encontraram os homens
e as verdades,
Tudo o que resta,
está nas dores dos dias, no imcompatível da carne do sangue,
que por isso se organizam nas nuvense, na alma das verdades
e dos homens com lágrimas e sulcos de fogo.

Vem, a minha casa descobre-se por detrás
do cobre das maldições e das catástrofes,
jaz o meu corpo nas florestas de sangue,
nas montanhas das cabeças decapitadas.
Entra no único lago que tu já sabes, no falo dos nenúfares brancos,
na seda do sémen dos líquenes

A minha, casa, o meu lago, o meu sangue, os nenúfares,
as minhas lágrimas,os líquenes
Sou eu, envolvendo-te o infinito nos teus seios,
beijando-te fogo na verdade.

Lembra-te que a terra é ingrata,
e o nosso refúgio só pode ser o amor.


Amor, as sílabas estão cortadas...


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dezembro 27, 2004

Maremoto


Que força é esta, que deruba cidades,
destrói velhas e velhos, crianças e jovens fortes e destemidos?
Que monstro diabólico, lá no infinito segredo, desorienta as marés,
faz correr o sangue dos inocentes?
De que massa é feita o Deus complacente de tamanho terror?
Como é que Ele nos deixa segurar entre as mãos um pomba branca,
abrir um sorriso de um menino, florescer as árvores, dar alma ao azul do céu?

Porque é que a terra tem alma? porque odeia os outros?Porque sente o meu coração?

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dezembro 26, 2004

Consideravelmente

Estou consideravelmente bem disposto,

Com a garganta no céu, uma palavra minha na alegria,

Consideravelmente são, com as mãos na água fria.

Todo o tempo, todo vento, passa, trespassa,

Lava a ousadia. Só eu cá estou, monumento, alegoria.

Um pouco de emoção, porque não compaixão,

Hoje é Natal, viva o grande dia!

Consideravelmente bem disposto, sem rugas, nem olheiras.

Bem dormido, peito feito, que novo ano está a chegar

Consideravelmente carcomido para no ano próximo arrebentar.

Puxa da ironia, consideravelmente circunspecto,

Boa pose, muito cash flow, porque o negócio está perto.

Os economistas, consideravelmente bem satisfeitos,

Com o sistema em ritmo de cruzeiro, fazem contas, dizem impossível

A distribuição do dinheiro.

E eu cá estou, de riso consideravelmente amarelo,

Piso consideravelmente distraído o sem abrigo.

Consideravelmente bem disposto, afinal, tudo vai bem,

Os políticos coitados é que riem com desdém.

Consideravelmente romântico, chorando com lira,

Envolto na capa preta do tédio, ardendo em pira.

-Tudo nos bolsos? Gravata online?

O penteado consideravelmente robotizado,

Os sapatos bué, bué!

Viva mundo! Consideravelmente destruído!

Olhem cá pró Cámone consideravelmente surreal

Vivendo todo consideravelmente numa boa, mesmo que tudo à volta

Seja consideravelmente real!

Publicado por constalves em 09:23 PM | Comentários (0)

Quadrinha da hora do almoço

Cada batata tem uma casa

No lugar do queijo uma emoção

Cada sumo tem uma asa

A alface traz o desejo

Cebola, picadinha é uma canção

Olhe como é linda! A sopa da pedra,

O entrecosto, o mangericão, o cravo,

O contra-filet, a pimenta, a mostarda e o mel.

Que gozo me dá a morena

Que por detrás do balcão é poema.

E aquela missa de rabanetes naquele altar de pedra!

Faltam dez para as duas

E as batatas enchem as ruas

No olhar do açafrão.

-Sai um peru com puré,

um beijo e um café!

Constantino Alves, José Gil e Sónia Regina 26/12/04 CCColombo/Benfica/Lisboa

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O OLHO ESCUTA



Rasgo a folha da alma na cicatriz do olhar perdido

Na curiosidade do túnel, o olho escuta cada som

Que a imagem já não revela, sente…A isso chama

O velho visão: um medo, um pânico, o sulco de espelhos

Freme a placidez do sólido opaco, o vértice das águas

Das palavras amigas infinito, recto, musico, amigo

O poeta perdeu todos os sentidos

Como cogumelos toca e não sente

Olha e não vê, só há já o mar

Onde me lanço, onde o meu coração

Ganha o movimento em cada um dos

lábios do búzio aberto e solto na areia à deriva

rasga-se o poeta na deriva cicatrizada

como carne viva e verde

todo o rasgo do nada acompanha o

concerto do poeta

o olho já é estômago

uma tripa de rimas

e de métricas virguladas

harpas de sódio sincopadas

ais e sais que fazem os novos, as

princesas e os monges

a beleza é aquela meta

que não se vê , saboreia-se

não se chega, só na sede

ou a seda caindo no chão

devagarinho mostrando

todo o corpo nú

o poeta desculpa-se

perdeu mesmo toda a razão

dói a sílaba,da avenida da estrela polar

que só brilha onde não há cruzeiro do sul

quando o vento é do norte

Constantino Alves, José Gil e Sónia Regina 25/12/04




Publicado por constalves em 03:34 PM | Comentários (0)

Museu da Poesia



Crua a palavra em pequeno bloco

Na laranja mecânica da cidade à noite.

Estátua viva de sal, a poesia não morde

O museu nem a imortalidade,

Antes escorre lânguida entre os espaços que a imagem deixa.

Correm as cortinas de Buñuel a Lorca na Península de pedra.

Freud escreverá a D. Quixote um poema em bronze nos moinhos,

as santas pombas das velas da saudade.

Quem matará o tempo que o poeta vive no limbo do texto?

Parte-se a vitrine dos Etruscos, emergem as atelanas romanas,

Abre-se a boca dos gregos,

Homero é a Pátria do verbo.

Bate a palavra no soneto de Petrarca,

Matraca o hacai de Bashô,

Solta-se a Divina Comédia

Na moldura do circo romano,

O soleil de metáfora em metáfora.

Cesariny sai da pastelaria da miniatura do museu.

Lurdes da Costa desenhará as sombras

Onde Noronha da Costa escreverá a luz,

Porque não se ouve nada além do vento

No que sobrou das embarcações dos Fenícios.

Olhe só! Ele olhando a morena,

Quem é? Só pode ser Vinicius

Eterno enquanto dure a poesia.

Resta-nos o sabor de Belém.

Constantino Alves, José Gil e Sónia Regina 25/12/04


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“Quem tem fome sonha com pão”


a partir de um documento sobre "pão" na revista CAIS - um excelente artigo sobre este tema de uma excelente associação de apoio aos sem abrigo

“Quem tem fome sonha com pão”,

No musgo verde a broa fria.

Um círculo de carne, humús da vontade. Boca

E cereja, o umbigo rente à língua, em calda

e ao sonho.

Nos mosteiros, os Jerónimos, com o povo.

melhores que as palavras, porque dizem o sol, as mãos suadas,

um corpo que vai daqui para as pernas, dos pés para as mãos.

O que desenham os feijões?

No teu corpo apenas as ancas quentes e a rua longa.

Ai! Se eu pudesse pôr um rio líquido de pão nos peitos,

nos verbos, a levedura da memória mesmo no luar verdadeiro

como lava inquieta devorando o verdete do sentimento.

Se o pão pudesse ser uma janela,

Todos os dias à mesma hora, o padeiro,

De manhãzinha, servindo versos de farinha

em Belém, para falar dos pássaros

no rio do trigo e inventar uma areia de luz

e luz e luz e grãos.

Pão que projectas a rocha mais divina e delicada.

Pão que é sítio da palavra.

Mar de ostras de cevada, anjo de milho, no meu caminho

Vou e volto, volto e vou da casa à alma, do céu aos altos.

Constantino Alves, José Gil e Sónia Regina 25/12/04

Publicado por constalves em 03:29 PM | Comentários (0)

dezembro 25, 2004

25 cravos em 25/12

1 cravo para a urgência do sentimento
1 cravo para o sintoma da saudade
1 cravo para a liberdade
1 cravo para a boca, aberta
1 cravo para a senhora, mulher
1 cravo para quem quer
1 cravo para a poesia certa
1 cravo para beber
1 cravo para sempre melhor
1 cravo para a razão
1 cravo para a perfeição
1 cravo para um qualquer
1 cravo para o amor
1 cravo para uma outra flor
1 cravo para uma pequena criança
1 cravo para a bonança
1 cravo para a boa educação
1 cravo para a lição
1 cravo para a viagem
1 cravo para a coragem
1 cravo para todo o poema
1 cravo para a solidariedade
1 cravo para verdade
1 cravo para mim
1 cravo para ti

Publicado por constalves em 12:16 PM | Comentários (2)

dezembro 24, 2004

Carta para A.




Lembras-te daquele fio de lágrima no teu seio,
um rio de preces impossíveis?
uma pergunta que agora jorra do meu punho do desespero.

Tece aquele gesto com o silêncio quente
dos teus lábios, um imperativo da minha saudade.

Lacre e fogo rasgam-me a fenda das palavras no rio morto do meu peito.
já não nascem flores no jardim vetusto da saudade.

Há uma lua partida por detrás
do luar inteiro da memória dos teus olhos.

Percebo o ciúme no áspero frio da noite imposta.
Todos os ventos saíram em vendavais.
Só eu espero!

Só eu tenho a mágoa.
Só eu formigo o silêncio
Só eu sou a dor no hárem de nuvens que iluminam a prece.

A voz freme o vazio opaco da distância.
Começam as pétalas um segredo.
O sangue corre branco.
No futuro tudo começa.
O meu corpo cai no túmulo.


Publicado por constalves em 09:47 PM | Comentários (0)

Entre nós ficou uma rosa

Entre nós ficou uma rosa,
um começo, uma caminhada.

Da flor, sei que é bela,
do começo ainda tenho a doce esperança e os olhos brilhando,
da caminhada um coração cheio , o forte desejo e um caminho sem destino.

Todas as estátuas da cidade me parecem todos os outros, parados, quietos sem verbos.
E só tu e eu na chama do sangue branco...
continuamos caminhando...

Publicado por constalves em 07:01 PM | Comentários (1)

Feliz Natal

Poema dedicado a todos os leitores de "Diário Poético"

Olha como o raio de luz faz a manhã,
como aqueles olhos verdes abrem os teus lábios,
como um verbo te acende a língua.

Repara no silêncio das árvores,
no segredo do voo das aves,
no poema da água inquieta do rio.

Não ponhas a máscara. Por um momento,
fabrica um sorriso.

Engana a noite, acende uma saudade.

Espera a hora do Natal. Faz nascer uma palavra
no corpo.


Uma palavra e um raio e luz, um rio inquieto, uns olhos verdes, uma boca, uma ave.

Amanhã, não serás só tu.

Publicado por constalves em 12:18 PM | Comentários (0)

dezembro 19, 2004

Existência!

Procura-se um tesouro, toda a vida,
um amor puro, uma estátua divina, uma seiva eterna.
Descobre-se sempre dores nos actos, encontram-se pistas
inúteis, frutos sempre verdes, minas fechadas.

Só o vendaval, numa falésia escura com a lua como um sol me traz o prémio:
existência!

Publicado por constalves em 11:41 PM | Comentários (2)

dezembro 11, 2004

Joana descobre o sorriso


Há uma torre de Babel em pleno deserto,
todos os pontos convergem na língua,
um arco gótico de ar branco faz o corpo de todas as mulheres,
um verbo longo faz a praia.

Todos se compadecem com o silêncio, fora do círculo.

Uma jovem mulher é o epicentro da dança diabólica que faz os vulcões.
descobre-se o segredo.

Uma estrela distende-se no Ártico. Uma chama.

Joana descobre o sorriso. E isso é importante.

Publicado por constalves em 10:25 PM | Comentários (1)

Infinito

A lista de Escritas está escrever o poema (colectivo) "Infinito", um poema também sem fim. Porque não te juntas a nós em Encontros de Escrita e aderes à nossa lista de criação poética?

O poema já vai assim...

INFINITO


É verdade óbvia, do Infinito não se parte,

E nunca se chega, nesse mar só há caminho .

Precisamos de uma barco

para estender a esteira do destino,

diluir as roupas frias da noite,

afogar máscaras de silêncios brancos.

Canta-se uma dor no cais da partida,

um pássaro negro amedronta

os marinheiros da viagem, soa o apito da bruma .

Conversa-se devagar,

a corrente oceânica puxa o momento.

Errante o corpo escolhe a base de granito

em duas ancas escultóricas junto ao sol

o infinito vai do Lordelo do Ouro

ao Rio Grande do Sul

plinto de pedra e doce

de docente busto

integrado entre as sílabas

ressurgimento rural e metafísico

na intimidade das orelhas do sal

procuramos sem harmonizar

a intima terra

É levemente o inicio colectivo

toco a flauta do afecto do talento

como um rio do Genesis

abre-te suave flor aos meus dedos

à luz da alegria

vibro contigo a fábula sem fim

escrevo nas prospecções arqueológicas

dos sentimentos dos óleos e das águas

habito o subsolo da Igreja Romântica

de S. Cristovão - donde partem as novas asas

as novas aves. Sou um pré- cristão performativo

as estátuas das tuas ancas esperam-me

"forgeries love and olther matters"

é o espectáculo que te proponho


o Infinito é esperança azul

é estrela d'oiro reluzente.

fica ali

quase à mão de uma criança.

Fica além onde deus se exilou.

Fica perto longe

zénite,

azimute.

Do Infinito não se parte

não se chega.

Apenas o sonho o trespassa.

Para lá do Paquistão, no deserto, como uma missão afectiva

abraço a romã vermelha do teu seio e o sol infinito do teu olhar

como uma coreografa de "Mystic River" com um chocolate

não podemos escrever todos os dias , mesmo com Haendel

cantado o Messias de burca, cairei no teu vale negro

como a ópera "A Floresta" de Sofia

Se não fechas a boca comemos a estrelicia e os seus cones

brancos, amarelos e verdes da solidão mais só e dolorosa

olha-me novamente com o desejo de um beijo único de dragão

O fogo canta "Strange Transmission" de Norah Jones nas piramides

antigas do Egipto mais arcaico destas saudades em sombras

de passado

Os poetas fazem sempre ligações de alto risco e enlouquecem

com morangos simples, no comboio mágico até ao infinito

Pelas trombas d'água, viajando em sílabas entre as colinas

sinuosos dragões verdes beijam em cada gota um sabor

De viagem ad eternum o gosto de festa nos pés,

arcaicas saudades que se adiantam ao corpo

Levemente pousadas em solo movediço:

pão, colo e goiabada comida às dentadas

A intimidade queima nas orelhas

em línguas que nunca foram matemáticas

Finda a procura em convulsivos movimentos

e na busca do oceano profundo vem o mar

O cerne

O infinito estado

do ser.

As velas brancas do silêncio

São como as paredes do meu quarto,

Um acto perpendicular de solidão.

No navio sou como aquele homem solitário

Debaixo da pala de Siza Vieira, sem destino, absorvendo infinito.

(continua)

Constantino Alves , José Amor, José Gil, Sonia Regina...

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dezembro 09, 2004

Tágides


(poema escrito na tertúlia Tejo em 08/12/04)

Habitua-te a ver o Tejo sem barcos
Nota apenas as gaivotas pousadas
Na borda do rio
Imenso, como o vento
No limite dos dias serenos
Onde a vontade e o dragão se fundem

Habitua-te a ser um rio que flui.
Nasce a raiz do dia a névoa passa
Como o vento em cada folha

Trago a cenografia do teu corpo esguio
Numa caravela engalanada de flores de papel
Pela mãe, pelo mar e pela mão volto à vela
o palco onde o actor traz o movimento da escrita.

Os teus olhos verdes são a escrita, a própria
Transfiguração das palavras em algo palpável.
O universo feito olhar,
Todo o voo é feito de folhas e de seiva brilhante,
Nasce o Universo e as folhas morrem e nascem
Novamente, triste é a vida que não é vivida
Nem os teus olhos são vertigens de memória.

Só a vertente agreste da nostalgia transparece
No vento
E os corvos marinhos são sombras nocturnas
Nos meus olhos de espelho tardio.

Vem, corre a água agreste dos teus lábios de sal
E pronuncia a alma dos peixes.
Mergulha na maresia dos meus dedos
Os segredos azuis das algas
Vem, água das ninfas perdidas, lava-me os pés
E leva-me para orientais emoções
Sem fazenda e especiarias
Navega-me nos escolhos dos náufragos
E fica-me na ilha da judiaria, perdida no Índico mar.

Vela as palavras debruçadas
sobre a existência intima da solidão
sabes, o mar é meu
as ondas vigiam os ventos adiados
e uma gaivota gravita.

Vela onde o actor parte a onda solidária
Habitações de pão e romãs, máscaras tão

Claras como a rua da hortelã

Dança com a vela acesa onde os seios dobram
E a estrada reparte todos os segundos
A longa vela do oriente amado e secreto
Desfralda – se ao secreto vento da palavra
A palavra é tudo o que eu tenho e não tenho
É a vida, é a morte, é o todo


Vela que sulcou o mar no sentido suão
Em busca de novos amores

Vela que se despedaçou na tormenta
Dos amores que ficaram em terra.

Habitua-te ao mar sibilino que te traz no segredo
a ternura pelas coisas, por ti pelos os outros,
faz do mar da palha um país inventado em todas as cores
e poentes. Faz a madrugada na Lisboa aberta,
estende todas as alvoradas que nascem no ventre
dos começos.

Lisboa prenhe.

Constantino Alves, José Amor, José Gil, José Félix, Maria Gomes, Jorge Vicente, Teresa Bruno Sousa, Gonçalo Bruno de Sousa

Publicado por constalves em 04:47 PM | Comentários (1)

dezembro 03, 2004

Construção

Um engenheiro bebe uma bica rápida e cria estrofes de betão

Com palavras mágicas de madeira propensa e densa à palavra não. Um torneiro embalsama

Metáforas e parábolas em pirâmides gizadas por Arquitectos ingénuos, perplexos, bebendo chás

De ervas finas em pleno deserto. Um Matemático equaciona a simétrica palavra reflexa que encanta o narcísico tenor

antes do espectáculo de Ópera “ Adónis e Vénus” no Casino Royale e trés, trés speciale. Uma corista declama uma ode periférica de certo autor no cimo de um barroco monumento de arte Déco. Um geógrafo sobrepõe um adjectivo a uma declinação exausta de pouco uso “porque a língua estava morta” e o médico operava próteses de onomatopeias

barulhentas e ruidosas que punham fim à comunicação. O político teimava na construção. O sacerdote cosia o breviário, desfolhando mil uma vez sem conta sem qualquer explicação. Um farmacêutico goteja uma lágrima de António Gedeão. O Metalomecânico aspira carvão. O Comentarista tropeça na palavra senão. José compõe sinfónicamente ao piano a palavra não , O caçador foge do leão. Renato, no microscópio, encontra Deus zombando

ironicamente de um charlatão. O professor elabora o processo que o advogado discorda. O enfermeiro mata. A dactilógrafa despede o patrão. O sindicalista ora no confessionário. O pastor não concorda com que o lobo sonha. O jardineiro almoça enquanto cresce uma amora. Josefina não é grande palavra e não namora. O mundo retorna.

Um aguadeiro não bebe água. Uma vedeta morre sem cheta.O lixo no lixo. Às três hora vem o cirugião. O papão não vem.

Não há

Não pode vir

O poeta bebe uma bica na mesa do lado do engenheiro.

São sete da tarde, um operário morre na construção! Uma mãe tem fome.

Publicado por constalves em 12:00 AM | Comentários (1)

dezembro 02, 2004

Cripto


Desce a seda na pele branca ou negra

Como a pétala na lenta cascata.

Todo o ar salva um grito cheio de nomes

Fechados na árvore nua da verdade.

Todo o deserto engravida, belo, de equívocos

E de outras faces da lua.

Uns tantos homens são poucos no navio deserto de carga,

as mulheres abraçam-se no cais. Os meninos, perplexos, jogam descontroladamente ao futebol.

Há mais tempo, há muito mais tempo, há um homem na Ilha. Mas ele não sabe o que fazer.

Uma seda sobe na pele branca ou negra. Maria tem um filho.

Um poeta bebe um copo de água pura.

Publicado por constalves em 11:09 PM | Comentários (0)