
Agora, às sete menos um quarto,
já com a lua fazendo amizade com a noite,
é que me posso sentir só, como antes do espectáculo, antes de subir ao palco:
Eu e o Segredo,
e uma bandeira de rosas brancas cantando paz.

Desculpem-me as rosas pelo sangue vermelho derramado
desculpem-me as árvores pelo vendaval de palavras do meu peito
desculpem-me as florestas, os jardins pela chuva ácida da minha ironia
desculpem-me a mentira do transparente do meu olhar negro, oh nuvens negras da desgraça.
Que o Universo perdoe-me a iconoclastia da minha vontade.
Mas o susurro da verdade tem que trespassar o meu corpo, violentamente
no centro do sol arbitrário da lógica , da submissão da razão.
A minha boca tem de lançar um novo ano aberto de novos verbos, as minhas mãos quebrar o aço das coisas impuras.
É preciso sonhar com o fogo na saliva da dúvida.
è preciso governar os jardins , fazer bandeiras de rosas, abrir as memórias e descobrir a paixão pelos outros e as coisas, sentirmo-nos todos,
Ousar a pérola do futuro. Oh! grande Utopia.

Como fazer o silêncio das vozes doridas,
Talvez uma voz encontre a razão das rosas florescerem da laje deserta do Inverno,
Outra vez, sempre.
O silêncio é o signo das coisas escondidas dos olhos tristes, da saudade.
Os moinhos emergem das lágrimas e encontram o futuro nos ventos.
Um pássaro voa como um tenor num lago branco.
Ainda é Natal, os meninos ainda rodeiam os pinheiros
Lê-me o pássaro do olhar,
vê no transparente do meu verbo,
a verdade das minhas lágrimas,
têm um sulco de fogo,
um código antigo para dizer coração.
Todas as hecatombes de aço
que tombam as cidades
ainda não encontraram os homens
e as verdades,
Tudo o que resta,
está nas dores dos dias, no imcompatível da carne do sangue,
que por isso se organizam nas nuvense, na alma das verdades
e dos homens com lágrimas e sulcos de fogo.
Vem, a minha casa descobre-se por detrás
do cobre das maldições e das catástrofes,
jaz o meu corpo nas florestas de sangue,
nas montanhas das cabeças decapitadas.
Entra no único lago que tu já sabes, no falo dos nenúfares brancos,
na seda do sémen dos líquenes
A minha, casa, o meu lago, o meu sangue, os nenúfares,
as minhas lágrimas,os líquenes
Sou eu, envolvendo-te o infinito nos teus seios,
beijando-te fogo na verdade.
Lembra-te que a terra é ingrata,
e o nosso refúgio só pode ser o amor.
Amor, as sílabas estão cortadas...

Que força é esta, que deruba cidades,
destrói velhas e velhos, crianças e jovens fortes e destemidos?
Que monstro diabólico, lá no infinito segredo, desorienta as marés,
faz correr o sangue dos inocentes?
De que massa é feita o Deus complacente de tamanho terror?
Como é que Ele nos deixa segurar entre as mãos um pomba branca,
abrir um sorriso de um menino, florescer as árvores, dar alma ao azul do céu?
Porque é que a terra tem alma? porque odeia os outros?Porque sente o meu coração?

Estou consideravelmente bem disposto,
Com a garganta no céu, uma palavra minha na alegria,
Consideravelmente são, com as mãos na água fria.
Todo o tempo, todo vento, passa, trespassa,
Lava a ousadia. Só eu cá estou, monumento, alegoria.
Um pouco de emoção, porque não compaixão,
Hoje é Natal, viva o grande dia!
Consideravelmente bem disposto, sem rugas, nem olheiras.
Bem dormido, peito feito, que novo ano está a chegar
Consideravelmente carcomido para no ano próximo arrebentar.
Puxa da ironia, consideravelmente circunspecto,
Boa pose, muito cash flow, porque o negócio está perto.
Os economistas, consideravelmente bem satisfeitos,
Com o sistema em ritmo de cruzeiro, fazem contas, dizem impossível
A distribuição do dinheiro.
E eu cá estou, de riso consideravelmente amarelo,
Piso consideravelmente distraído o sem abrigo.
Consideravelmente bem disposto, afinal, tudo vai bem,
Os políticos coitados é que riem com desdém.
Consideravelmente romântico, chorando com lira,
Envolto na capa preta do tédio, ardendo em pira.
-Tudo nos bolsos? Gravata online?
O penteado consideravelmente robotizado,
Os sapatos bué, bué!
Viva mundo! Consideravelmente destruído!
Olhem cá pró Cámone consideravelmente surreal
Vivendo todo consideravelmente numa boa, mesmo que tudo à volta
Seja consideravelmente real!

Cada batata tem uma casa
No lugar do queijo uma emoção
Cada sumo tem uma asa
A alface traz o desejo
Cebola, picadinha é uma canção
Olhe como é linda! A sopa da pedra,
O entrecosto, o mangericão, o cravo,
O contra-filet, a pimenta, a mostarda e o mel.
Que gozo me dá a morena
Que por detrás do balcão é poema.
E aquela missa de rabanetes naquele altar de pedra!
Faltam dez para as duas
E as batatas enchem as ruas
No olhar do açafrão.
-Sai um peru com puré,
um beijo e um café!
Constantino Alves, José Gil e Sónia Regina 26/12/04 CCColombo/Benfica/Lisboa

Rasgo a folha da alma na cicatriz do olhar perdido
Na curiosidade do túnel, o olho escuta cada som
Que a imagem já não revela, sente…A isso chama
O velho visão: um medo, um pânico, o sulco de espelhos
Freme a placidez do sólido opaco, o vértice das águas
Das palavras amigas infinito, recto, musico, amigo
O poeta perdeu todos os sentidos
Como cogumelos toca e não sente
Olha e não vê, só há já o mar
Onde me lanço, onde o meu coração
Ganha o movimento em cada um dos
lábios do búzio aberto e solto na areia à deriva
rasga-se o poeta na deriva cicatrizada
como carne viva e verde
todo o rasgo do nada acompanha o
concerto do poeta
o olho já é estômago
uma tripa de rimas
e de métricas virguladas
harpas de sódio sincopadas
ais e sais que fazem os novos, as
princesas e os monges
a beleza é aquela meta
que não se vê , saboreia-se
não se chega, só na sede
ou a seda caindo no chão
devagarinho mostrando
todo o corpo nú
o poeta desculpa-se
perdeu mesmo toda a razão
dói a sílaba,da avenida da estrela polar
que só brilha onde não há cruzeiro do sul
quando o vento é do norte
Constantino Alves, José Gil e Sónia Regina 25/12/04

Crua a palavra em pequeno bloco
Na laranja mecânica da cidade à noite.
Estátua viva de sal, a poesia não morde
O museu nem a imortalidade,
Antes escorre lânguida entre os espaços que a imagem deixa.
Correm as cortinas de Buñuel a Lorca na Península de pedra.
Freud escreverá a D. Quixote um poema em bronze nos moinhos,
as santas pombas das velas da saudade.
Quem matará o tempo que o poeta vive no limbo do texto?
Parte-se a vitrine dos Etruscos, emergem as atelanas romanas,
Abre-se a boca dos gregos,
Homero é a Pátria do verbo.
Bate a palavra no soneto de Petrarca,
Matraca o hacai de Bashô,
Solta-se a Divina Comédia
Na moldura do circo romano,
O soleil de metáfora em metáfora.
Cesariny sai da pastelaria da miniatura do museu.
Lurdes da Costa desenhará as sombras
Onde Noronha da Costa escreverá a luz,
Porque não se ouve nada além do vento
No que sobrou das embarcações dos Fenícios.
Olhe só! Ele olhando a morena,
Quem é? Só pode ser Vinicius
Eterno enquanto dure a poesia.
Resta-nos o sabor de Belém.
Constantino Alves, José Gil e Sónia Regina 25/12/04

a partir de um documento sobre "pão" na revista CAIS - um excelente artigo sobre este tema de uma excelente associação de apoio aos sem abrigo
“Quem tem fome sonha com pão”,
No musgo verde a broa fria.
Um círculo de carne, humús da vontade. Boca
E cereja, o umbigo rente à língua, em calda
e ao sonho.
Nos mosteiros, os Jerónimos, com o povo.
melhores que as palavras, porque dizem o sol, as mãos suadas,
um corpo que vai daqui para as pernas, dos pés para as mãos.
O que desenham os feijões?
No teu corpo apenas as ancas quentes e a rua longa.
Ai! Se eu pudesse pôr um rio líquido de pão nos peitos,
nos verbos, a levedura da memória mesmo no luar verdadeiro
como lava inquieta devorando o verdete do sentimento.
Se o pão pudesse ser uma janela,
Todos os dias à mesma hora, o padeiro,
De manhãzinha, servindo versos de farinha
em Belém, para falar dos pássaros
no rio do trigo e inventar uma areia de luz
e luz e luz e grãos.
Pão que projectas a rocha mais divina e delicada.
Pão que é sítio da palavra.
Mar de ostras de cevada, anjo de milho, no meu caminho
Vou e volto, volto e vou da casa à alma, do céu aos altos.
Constantino Alves, José Gil e Sónia Regina 25/12/04

1 cravo para a urgência do sentimento
1 cravo para o sintoma da saudade
1 cravo para a liberdade
1 cravo para a boca, aberta
1 cravo para a senhora, mulher
1 cravo para quem quer
1 cravo para a poesia certa
1 cravo para beber
1 cravo para sempre melhor
1 cravo para a razão
1 cravo para a perfeição
1 cravo para um qualquer
1 cravo para o amor
1 cravo para uma outra flor
1 cravo para uma pequena criança
1 cravo para a bonança
1 cravo para a boa educação
1 cravo para a lição
1 cravo para a viagem
1 cravo para a coragem
1 cravo para todo o poema
1 cravo para a solidariedade
1 cravo para verdade
1 cravo para mim
1 cravo para ti

Lembras-te daquele fio de lágrima no teu seio,
um rio de preces impossíveis?
uma pergunta que agora jorra do meu punho do desespero.
Tece aquele gesto com o silêncio quente
dos teus lábios, um imperativo da minha saudade.
Lacre e fogo rasgam-me a fenda das palavras no rio morto do meu peito.
já não nascem flores no jardim vetusto da saudade.
Há uma lua partida por detrás
do luar inteiro da memória dos teus olhos.
Percebo o ciúme no áspero frio da noite imposta.
Todos os ventos saíram em vendavais.
Só eu espero!
Só eu tenho a mágoa.
Só eu formigo o silêncio
Só eu sou a dor no hárem de nuvens que iluminam a prece.
A voz freme o vazio opaco da distância.
Começam as pétalas um segredo.
O sangue corre branco.
No futuro tudo começa.
O meu corpo cai no túmulo.

Entre nós ficou uma rosa,
um começo, uma caminhada.
Da flor, sei que é bela,
do começo ainda tenho a doce esperança e os olhos brilhando,
da caminhada um coração cheio , o forte desejo e um caminho sem destino.
Todas as estátuas da cidade me parecem todos os outros, parados, quietos sem verbos.
E só tu e eu na chama do sangue branco...
continuamos caminhando...
Poema dedicado a todos os leitores de "Diário Poético"

Olha como o raio de luz faz a manhã,
como aqueles olhos verdes abrem os teus lábios,
como um verbo te acende a língua.
Repara no silêncio das árvores,
no segredo do voo das aves,
no poema da água inquieta do rio.
Não ponhas a máscara. Por um momento,
fabrica um sorriso.
Engana a noite, acende uma saudade.
Espera a hora do Natal. Faz nascer uma palavra
no corpo.
Uma palavra e um raio e luz, um rio inquieto, uns olhos verdes, uma boca, uma ave.
Amanhã, não serás só tu.

Procura-se um tesouro, toda a vida,
um amor puro, uma estátua divina, uma seiva eterna.
Descobre-se sempre dores nos actos, encontram-se pistas
inúteis, frutos sempre verdes, minas fechadas.
Só o vendaval, numa falésia escura com a lua como um sol me traz o prémio:
existência!
Há uma torre de Babel em pleno deserto,
todos os pontos convergem na língua,
um arco gótico de ar branco faz o corpo de todas as mulheres,
um verbo longo faz a praia.
Todos se compadecem com o silêncio, fora do círculo.
Uma jovem mulher é o epicentro da dança diabólica que faz os vulcões.
descobre-se o segredo.
Uma estrela distende-se no Ártico. Uma chama.
Joana descobre o sorriso. E isso é importante.
A lista de Escritas está escrever o poema (colectivo) "Infinito", um poema também sem fim. Porque não te juntas a nós em Encontros de Escrita e aderes à nossa lista de criação poética?
O poema já vai assim...
INFINITO
É verdade óbvia, do Infinito não se parte,
E nunca se chega, nesse mar só há caminho .
Precisamos de uma barco
para estender a esteira do destino,
diluir as roupas frias da noite,
afogar máscaras de silêncios brancos.
Canta-se uma dor no cais da partida,
um pássaro negro amedronta
os marinheiros da viagem, soa o apito da bruma .
Conversa-se devagar,
a corrente oceânica puxa o momento.
Errante o corpo escolhe a base de granito
em duas ancas escultóricas junto ao sol
o infinito vai do Lordelo do Ouro
ao Rio Grande do Sul
plinto de pedra e doce
de docente busto
integrado entre as sílabas
ressurgimento rural e metafísico
na intimidade das orelhas do sal
procuramos sem harmonizar
a intima terra
É levemente o inicio colectivo
toco a flauta do afecto do talento
como um rio do Genesis
abre-te suave flor aos meus dedos
à luz da alegria
vibro contigo a fábula sem fim
escrevo nas prospecções arqueológicas
dos sentimentos dos óleos e das águas
habito o subsolo da Igreja Romântica
de S. Cristovão - donde partem as novas asas
as novas aves. Sou um pré- cristão performativo
as estátuas das tuas ancas esperam-me
"forgeries love and olther matters"
é o espectáculo que te proponho
o Infinito é esperança azul
é estrela d'oiro reluzente.
fica ali
quase à mão de uma criança.
Fica além onde deus se exilou.
Fica perto longe
zénite,
azimute.
Do Infinito não se parte
não se chega.
Apenas o sonho o trespassa.
Para lá do Paquistão, no deserto, como uma missão afectiva
abraço a romã vermelha do teu seio e o sol infinito do teu olhar
como uma coreografa de "Mystic River" com um chocolate
não podemos escrever todos os dias , mesmo com Haendel
cantado o Messias de burca, cairei no teu vale negro
como a ópera "A Floresta" de Sofia
Se não fechas a boca comemos a estrelicia e os seus cones
brancos, amarelos e verdes da solidão mais só e dolorosa
olha-me novamente com o desejo de um beijo único de dragão
O fogo canta "Strange Transmission" de Norah Jones nas piramides
antigas do Egipto mais arcaico destas saudades em sombras
de passado
Os poetas fazem sempre ligações de alto risco e enlouquecem
com morangos simples, no comboio mágico até ao infinito
Pelas trombas d'água, viajando em sílabas entre as colinas
sinuosos dragões verdes beijam em cada gota um sabor
De viagem ad eternum o gosto de festa nos pés,
arcaicas saudades que se adiantam ao corpo
Levemente pousadas em solo movediço:
pão, colo e goiabada comida às dentadas
A intimidade queima nas orelhas
em línguas que nunca foram matemáticas
Finda a procura em convulsivos movimentos
e na busca do oceano profundo vem o mar
O cerne
O infinito estado
do ser.
As velas brancas do silêncio
São como as paredes do meu quarto,
Um acto perpendicular de solidão.
No navio sou como aquele homem solitário
Debaixo da pala de Siza Vieira, sem destino, absorvendo infinito.
(continua)
Constantino Alves , José Amor, José Gil, Sonia Regina...

(poema escrito na tertúlia Tejo em 08/12/04)
Habitua-te a ver o Tejo sem barcos
Nota apenas as gaivotas pousadas
Na borda do rio
Imenso, como o vento
No limite dos dias serenos
Onde a vontade e o dragão se fundem
Habitua-te a ser um rio que flui.
Nasce a raiz do dia a névoa passa
Como o vento em cada folha
Trago a cenografia do teu corpo esguio
Numa caravela engalanada de flores de papel
Pela mãe, pelo mar e pela mão volto à vela
o palco onde o actor traz o movimento da escrita.
Os teus olhos verdes são a escrita, a própria
Transfiguração das palavras em algo palpável.
O universo feito olhar,
Todo o voo é feito de folhas e de seiva brilhante,
Nasce o Universo e as folhas morrem e nascem
Novamente, triste é a vida que não é vivida
Nem os teus olhos são vertigens de memória.
Só a vertente agreste da nostalgia transparece
No vento
E os corvos marinhos são sombras nocturnas
Nos meus olhos de espelho tardio.
Vem, corre a água agreste dos teus lábios de sal
E pronuncia a alma dos peixes.
Mergulha na maresia dos meus dedos
Os segredos azuis das algas
Vem, água das ninfas perdidas, lava-me os pés
E leva-me para orientais emoções
Sem fazenda e especiarias
Navega-me nos escolhos dos náufragos
E fica-me na ilha da judiaria, perdida no Índico mar.
Vela as palavras debruçadas
sobre a existência intima da solidão
sabes, o mar é meu
as ondas vigiam os ventos adiados
e uma gaivota gravita.
Vela onde o actor parte a onda solidária
Habitações de pão e romãs, máscaras tão
Claras como a rua da hortelã
Dança com a vela acesa onde os seios dobram
E a estrada reparte todos os segundos
A longa vela do oriente amado e secreto
Desfralda – se ao secreto vento da palavra
A palavra é tudo o que eu tenho e não tenho
É a vida, é a morte, é o todo
Vela que sulcou o mar no sentido suão
Em busca de novos amores
Vela que se despedaçou na tormenta
Dos amores que ficaram em terra.
Habitua-te ao mar sibilino que te traz no segredo
a ternura pelas coisas, por ti pelos os outros,
faz do mar da palha um país inventado em todas as cores
e poentes. Faz a madrugada na Lisboa aberta,
estende todas as alvoradas que nascem no ventre
dos começos.
Lisboa prenhe.
Constantino Alves, José Amor, José Gil, José Félix, Maria Gomes, Jorge Vicente, Teresa Bruno Sousa, Gonçalo Bruno de Sousa

Um engenheiro bebe uma bica rápida e cria estrofes de betão
Com palavras mágicas de madeira propensa e densa à palavra não. Um torneiro embalsama
Metáforas e parábolas em pirâmides gizadas por Arquitectos ingénuos, perplexos, bebendo chás
De ervas finas em pleno deserto. Um Matemático equaciona a simétrica palavra reflexa que encanta o narcísico tenor
antes do espectáculo de Ópera “ Adónis e Vénus” no Casino Royale e trés, trés speciale. Uma corista declama uma ode periférica de certo autor no cimo de um barroco monumento de arte Déco. Um geógrafo sobrepõe um adjectivo a uma declinação exausta de pouco uso “porque a língua estava morta” e o médico operava próteses de onomatopeias
barulhentas e ruidosas que punham fim à comunicação. O político teimava na construção. O sacerdote cosia o breviário, desfolhando mil uma vez sem conta sem qualquer explicação. Um farmacêutico goteja uma lágrima de António Gedeão. O Metalomecânico aspira carvão. O Comentarista tropeça na palavra senão. José compõe sinfónicamente ao piano a palavra não , O caçador foge do leão. Renato, no microscópio, encontra Deus zombando
ironicamente de um charlatão. O professor elabora o processo que o advogado discorda. O enfermeiro mata. A dactilógrafa despede o patrão. O sindicalista ora no confessionário. O pastor não concorda com que o lobo sonha. O jardineiro almoça enquanto cresce uma amora. Josefina não é grande palavra e não namora. O mundo retorna.
Um aguadeiro não bebe água. Uma vedeta morre sem cheta.O lixo no lixo. Às três hora vem o cirugião. O papão não vem.
Não há
Não pode vir
O poeta bebe uma bica na mesa do lado do engenheiro.
São sete da tarde, um operário morre na construção! Uma mãe tem fome.

Desce a seda na pele branca ou negra
Como a pétala na lenta cascata.
Todo o ar salva um grito cheio de nomes
Fechados na árvore nua da verdade.
Todo o deserto engravida, belo, de equívocos
E de outras faces da lua.
Uns tantos homens são poucos no navio deserto de carga,
as mulheres abraçam-se no cais. Os meninos, perplexos, jogam descontroladamente ao futebol.
Há mais tempo, há muito mais tempo, há um homem na Ilha. Mas ele não sabe o que fazer.
Uma seda sobe na pele branca ou negra. Maria tem um filho.
Um poeta bebe um copo de água pura.