
Um licor de amendoa,
na mesa ao pé da bica.
perna traçada, cigarro espetado no ar.
Já todo o silêncio começa a girar. A
metamorfose da fenda em brilho no olhar.
uma mão enfrenta o vácuo do papel. a metáfora chega
em palavras como trocos ali no bar.
Uma volúpia no frémito do occipital.
"Deitada como uma rosa no ébano do prazer,
sonhava na melancolia da saudade o limbo do amor"
A face desprende-se da sublimação,
o poema já corre cantando no seio de uma mulher,
Sidónio limpa o cachecol, a cinza que caíu
já é uma palavra qualquer.

Acrescentar uma palavra a esta noite, é beber a lua
De um trago. Não quero que se apague o rasgo
De sangue no meu sentimento. Não quero que se iluda
A solidão. A euforia é um sol doente, não faz a manhã.
É preciso que noite fique assim. É preciso agora que as
Palavras regressem do meu corpo para o sódio do livro.
A existência …
o poema vem pequeno,
na brisa leve do pó.
Insinua-se letal para o ódio e para as sombras
das palavras.
Emerge como uma estátua por entre o corpo
e a alma, faz voz nos ombros, transfigura-se de navio
na proa do verbo,
rebenta as águas dos segredos, ama a tua pele,
difunde-se no éter da paixão.
Mas ainda não é Poema, precisa do poeta-leitor.
Só assim as águas dobram o tempo,
se faz a crase da dúvida,
se inicia a viagem à volta do Universo na demanda
do cálice da água pura.
Um dia o poema pára como folha seca, no chão. De onde se fará o pó
que fará a nova palavra
que procurará o poema
na língua mais molhada , no desejo mais sincero
no imperativo mais letal da criação
Não haverá fim, não, nas palavras não!

há um sonho que não esqueço,
há uma ave que nunca consegue pousar.
Tudo é sublime no voo das aves,
a elegância do corpo, o movimento geométrico,
a serenidade do esforço.
Quando o sonho sei a felicidade

E se tudo fosse princípio, como uma flor
E eu pudesse saber antes dessa raiz,
O átomo elementar do verbo,
No metrónomo sem tempo,
Sem a imobilidade da estátua e,
Mesmo que a verdade seja a multidão eufórica
Da feira de Maio, ou o acepipe mais salgado da
Tábua de todos os comeres, a face do segredo
Esteja no paradigma do mito, ou no glóbulo branco do
Sangue de Cristo, ou tudo seja um boato de um buraco negro
Mal-disposto, ou uma lágrima de mulher,
Nada mudaria o bocejo de tédio de tudo saber,
Porventura a vida seria maior, com mais cientistas, santos padres,
Super economistas, mais travestis.
Mas a cor do mar me encantaria…
E a flor não deixaria de ser flor
E ser o mais belo principio para me educar,
O mais belo verso o mais belo poema, o mais doce olhar,
Que continuaria a equação entre a energia e a emoção,
A simetria do coração e a palavra,
A incógnita da paixão
Pudera eu saber…e a flor não mudaria.

Como trazer as árvores num lenço de bolso?
Como fazer fantástico à hora da bica?
Como beber o mar num segredo?
Não precisa responder, algures há um poema na gaveta
Em que a rima não acerta, o sentimento não entreabre os lábios dela,
O conceito não germina no verbo.
Algures há uma dúvida impossível e utópica com uma mão cheia de sangue
Um riso aberto numa vírgula que não coube…
Um vórtice de uma emoção na lapidação de um soneto,
QUE TRAZ TODOS OS IMPOSSÍVEIS QUE EU QUERO,
QUE EU EXIJO, QUE EXISTA NA MINHA LÍNGUA ENCOSTADA À MÃO.

Todos os rios vão dar a este poente…
Uma estátua de sal erguida das preces.
Como posso celebrar os dias quando já se ergue a noite dorida?
Cai-me a folha da verdade entre os dedos no hipnotismo da precoce lua das sombras.
Gostava que estivesses aqui lendo-me o meu primeiro poema,
todo o sangue no narciso branco, o som do búzio do começo,
um segundo fora do tempo,
uma chuva macia nos teus seios, seria um fim

A minha omoplata é um rio,
de cor e chuva, um silêncio
de verbo, onde só corre a emoção
súbita do corpo.
Não quero vender a minha omoplata,
nem por palavras chatas, muito menos por dinheiro.
A carne está-lhe agarrada e o meu corpo ao eu. Eu
sou a minha omoplata, a minha omoplata, eu.
Eu não estou à venda.Os rios, as cores, os silêncios vendem-se?

Podemos fazer poesia de qualquer coisa...,
dos biscoitos nos teus lábios de mágoa,
do brinco no lóbulo da tua orelha,
da palavra que baila no teu olhar.
Tudo é mais difícil quando há um sentimento dorido, fundo,
mas, assim, tu e um domingo livre, um coração de água,
uma Primavera como esta de Janeiro!
Com uma rosa orvalhada crescendo nas mãos.

Como se a árvore explodisse o Infinito,
como a água bebesse a lua,
na vértebra do sol há um suspiro de flores.
Os namorados rendeiam de beijos o tempo.
Um Oceano incorpora o verbo-
Tudo é poema, nas minhas mãos com a terra.
A elipse fecha-se aberta. Todos o decretaram

Quase se chora por ver a árvore nua,
Quase um espelho da minha sombra.
Para a árvore será só Inverno, para mim a toda pesada mágoa.

Não encontro a palavra mar. Agora não.
Não quero.
às palavras que não gostamos pomo-las nos bolsos, de
qualquer maneira e esquecemo-nas delas.
Não tenho braços, nem mãos para chegar aos bolsos,
a minha dor amputou-os.
É pouco o que faço pela dor dos outros...o mar nos bolsos,
uma dor no peito.
Parecem jogos de palavras, mas é assim, a impotência só encontra palavras.
E aquele assassino matou tantos de nós...

Um começo. Das mãos para as palavras.
Das memórias pisadas para os verbos.
Os dias estão no caminho.
Na verdade um andarilho não inicia o caminho.
Não se esqueçam que ontem os poemas vieram-nos visitar nos sonhos.