fevereiro 27, 2005

Chãos



Põe o pé, resolve o sentimento subterrâneo. Um mundo começa

na dor da raiz. A lua , hoje , não volta.

E se voltar?

De certo que trará consigo

as suas valsas nocturnas

Será o baile das musas

ternamente enriquecedora

das montanhas apaixonadas.

Navego muito alto nas ervas doces

regresso à terra cristalina, a filhó da memória

não serei a chuva que me falta

doce e louca como a dança

Põe o pé na rocha da roda

baila comigo um sentimento

ainda mais subterrâneo que a Serra d’Aire

o musgo cresce junto aos cabeços

como a água interior em que floresces.

E mais cantos se inventariam

dos brilhos das faces das moças,

da flor do alecrim prematuro

que teima encantar toda a montanha.

E não tardarão as papoilas

reflorindo o seu vermelho

cor de sangue. Mas não é sangue!

É a vida, a primavera

reinventando poemas sempre novos

que cantarei ao meu amor.

As aves aproximam-se e afastam-se

de S. João da Ribeira, as aves são

sempre como o sol maior

Deslocam-se rente a ele

na velocidade eólica da ternura

entre as papoilas que me enlouquecem

e o alecrim que me inspira

Vivo sempre mais do que escrevo

como quem tenta entrar num bosque

A poesia fica de fora das coisas

banais e quotidianas e cinzentas

ou como o pirilampo acorda-as

dá-lhes o sol onde te espero

na imensa paisagem que começa na escola

e lá vão os olhos a cavalo a cavalo

pela serra dos candeeiros. Pergunto aos Deuses

cada planta tem uma raiz e cada palavra? E se

os Deuses já não conseguem responder

sinto o vácuo de todos os elementos

Já não me chega o pão nem a broa nem o borrego

a minha dialéctica é outra, as moças riem

ao fundo do quarto e Deus de joelhos pede

perdão. Da alegria, da cruz desfeita, do caos

junto ás raparigas deste rancho és o Deus da

alegria, esquece o calvário, esquece a Páscoa

vive vivo neste nosso colo, espectacular

com as ondas da Praia da Nazaré

onde chegam as aves sempre brancas como a Lua



CONSTANTINO ALVES, JOSÉ GIL E MANUEL C. AMOR

27 de Fevereiro 2005, Restaurante Terra Chã, Chãos, Rio Maior,

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Ao Encontro de Ruy Belo

No Semana da Poesia -21 a 28 de Fevereiro 2005

na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal

de Rio Maior.




Nasce a memória do poeta na poesia imaculada, saída

apenas das palavras que são ditas e recontadas

como se a oralidade ganhasse um novo fogo

e desse fogo caísse vinho, e o cálice fosse um néctar

sem nome, apenas um poente vermelho na serra calma

do meu país do nada, vivo entre as árvores e vou

brincando com as capelas incompletas ,imperfeitas

rasgarei os poemas nestes dias de Inverno, gelados

quando este rectângulo se empobrece , e definha

entre palavras ocas que se espalham em chuva que não cai,

por este céu que se estende da Terra Chã a São João da Ribeira,

o céu que te cobriu naquele longínquo 27 de Fevereiro quando escreveste o teu primeiro verso.

Aqui sente-se, a erupção da palavra como uma enxada

Que abre uma árvore.

Que se derrame a seiva ácida e inteligente sobre o urro da sombra.

É difícil estar com palavras no pé do teu túmulo quando toda a luz que conseguirmos fazer não chegar para iluminar a calote de céu que te cabe. Serei só uma testemunha que confirmará que o sol subiu neste dia.

Rezarei. A St. Teresa da Serra de Pilatos,

Stª Andrea dos novos Mundos

é nelas que dos dias tristes me defendo

S. Márcia de todos os momentos, quando

neste território de alegria , o som e o norte

deixa esta marca nas próprias pedras




Jorge Vicente, José Gil, Constantino Alves e Manuel C. Amor

Rio Maior, Restaurante Terra Chã, 27 de Fevereiro de 2005

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fevereiro 23, 2005

Mais um “post it”

Hoje, no poema concebido pela luz
Há um cristal mais cintilante,
Há um corpo de cetim translúcido no verbo.

Há o teu olhar e o teu quente dos seios
Numa espiral de seda de todas as mãos.

Há um arco de pedra transparente concebendo uma cálida verdade.
Eu sei que é o teu corpo gravado na minha seiva. A luz é a alegria
gerada na nossa respiração.

O poema é um limbo , como uma pista de dança aberta
na chama branca da água.

Um dia é assim, todos os dias.
Mas não os queremos assim.


Publicado por constalves em 05:33 PM | Comentários (0)

fevereiro 22, 2005

Elogio à Poesia e contraditório

A poesia é o acto da ausência, do verbo
vago do limite.

A poesia é uma incapacidade. O passo que não se consegue dar.
O vácuo das palavras e das línguas.

A poesia é mistério. teme-se porque não existe.
é a nossa inexistência. é a morte.

A poesia não existe no fundo dos Oceanos. A poesia flutua.
Pode ser uma nuvem, mas é preciso não tocar-lhe senão deixa de o ser.
Nos fundos dos Oceanos pode existir poesia mas não divulguem isso. Os suicidas adorariam.

O sol tem poesia, nos raios de luz muito afastados do astro. porque arderia.
A poesia é fria e não tem coração.


Os poetas são ladrões, roubam poemas à lua e aos lagos. A poesia não gosta dos poetas.


A poesia existe nas crianças mas elas não sabem. A poesia é caprichosa, tem feitio.

A poesia é indispensável. É um amigo invísivel. Não é o melhor amigo.
Não é o pior inimigo.


Publicado por constalves em 10:46 PM | Comentários (0)

fevereiro 18, 2005

Uma pausa para me virar na cama


Há momentos como estes, sem poesia.
Sem a flor da novidade, sem cor.
E não se pode dizer mais nada. Nem acrescentar metáfora,
nem ideia. Uma linha recta de vazio, um círculo fechado, é
tudo o que se pode dar.

A minha vida, como uma hera subindo o corpo não quer dar-vos
a palavra que vos falta, que nos falta, no preciso momento do silêncio
em que o vosso, o nosso muro da solidão cresce com a noite.

Há dias assim, momentos.
A leitura de um bom livro não fará diferença. Às vezes, melhor, é um copo de água
pela garganta abaixo, um botão de alarme de um despertador carregado. Um sonho qualquer.
Pode ser com o diabo.

Publicado por constalves em 10:55 PM | Comentários (1)

fevereiro 12, 2005

sábado


Já a lua não constrói as sombras no mundo,
o universo natural desperta na verdade da luz.
o matemático poeta compõe sinfonias de glicínias no jardim.

O editor do jornal imprime um cabeçalho a tinta roxa dizendo:
"Um dia como os outros" assinado por um cronista de renome.

-Logo à tarde há futebol!
vender-se-à mais tremoços e pevides, coca-colas e sorvetes.


Nada de especial, um sábado cheio de sol.
Todos os animais farão a existência.
A corrente prisioneira do Segredo não parirá.


Que importa? uma brisa correndo fará o tempo!

Publicado por constalves em 10:47 AM | Comentários (3)

fevereiro 10, 2005

o.


A minha voz tem a ténue verdade do dia,
na minha língua sabe o sol a carne,
os meus poemas são a espuma do cerne das palavras.

Procura-se na rosa dos ventos um rumo para as sombras,
para as didascálias dos actos.
Tudo sem igual, um desencontro sem a sintaxe da lógica.


Mas quando se sai do cubo fechado da dor o corpo
nem sempre encontra o verbo, o paralelo da mensagem, o .


O que quero dizer nem sequer é palavra, não se usa na Matemática,
não serve na ideologia, não chega a nota. o.

Nem o simples sinal passa no exame da nuvem, que é doutorada em céu e perfeição.Nem o lamento chega desesperado ao sentimento. não se vê.


A minha voz tem a ténue verdade do dia,
na minha língua sabe o sol a carne,
os meus poemas são a espuma do cerne das palavras


Tão completo como o campo seco à beira do rio. Como a coruja branca na noite.


Publicado por constalves em 09:15 PM | Comentários (1)

fevereiro 09, 2005

Palavras

As palavras desdobram-se noutras palavras, inventam-se palavras.
Há dominós de palavras. O Infinito são também palavras. Contaram-me que há um tesouro de palavras.
Inventam-se jogos, palavras cruzadas, letreiros e cabeçalhos.
As palavras voam no vento, dançam na seda. Bebem-se, cantam-se, amam-se.
Os sentimentos são palavras. Os bebés inventam palavras.
Fumam-se palavras.

Há precipícios de palavras. Lagos. Ciclones.
Todas respeitam o epicentro vago do ego.

Uma palavra mata outra palavra
Não se respeita a palavra de outro. Mata-se
Por palavras.
O meu amor é uma palavra.

Publicado por constalves em 11:21 PM | Comentários (0)

Aforismo poético

A porta fechada tem uma albarda de vidro.
Tudo se fecha na casa com luz.

Não há pior ignorância.

Publicado por constalves em 11:04 PM | Comentários (0)

fevereiro 08, 2005

Criptograma

Perto de ti há uma abóbada milenar que te diz o céu
com o silêncio cavo dos segredos. Nem sempre mentira ou verdade.
Lembra-te que o amor arde na terra húmida da existência. Tu pisas a terra.

Tudo é assim, sem se explicar. Tudo vem em pedaços que nós não sabemos ligar.
O amor .

Publicado por constalves em 11:06 PM | Comentários (0)

A sinfonia de prata

Uma dor branca de prata,
Um agudo som de silêncio
Fazem o contínuo da existência, a sinfonia vazia da vida.

Não se pode ter mais.

Publicado por constalves em 08:46 PM | Comentários (0)

Aquela folha de papel


Aquela folha de papel, branca, vazia, sem fruto
É um homem na solidão.
A tristeza faz de manta ao frio do branco da pena.

Uma árvore, que não se mexe, delicia-se soltando a sombra.
O homem, como uma folha de papel branca, não sabe isso.

Publicado por constalves em 05:18 PM | Comentários (0)

fevereiro 06, 2005

A felicidade neste Domingo


Nem sempre encontramos a porta.
Mil segredos fazem o complexo da felicidade,
precisamos de ser para o resultado atómico da pessoa estar completo.

Este Domingo fresco, bonito cheio de paz
estava escondido no emaranhado dos fios
dos dias difíceis, das razões incompletas, das sombras das decisões,
foi preciso a aventura do teu corpo, a espuma de teu sorriso,
a seda dos abraços para que a bússola crepitasse um novo norte.

Que se pode fazer num domingo assim... quando as pérolas de novo cantam alegria nas faces dos verbos... no magnetismo de um novo verde do prenhe das árvores?

Publicado por constalves em 11:21 AM | Comentários (0)

fevereiro 02, 2005

Por quanto tempo ficará um lugar vago no palco do teatro


Ruy de Carvalho e Canto e Castro em "Rei Lear"

Tudo soa agora a madeiras
Tudo cheira a cortinas pesadas, bastidores pretos.
Não há aplausos nesta partida.
Canto e Castro já soa na minha saudade, e há um infinito na boca,
as minhas mãos são lágrimas.

Não verei mais aquele patrão austero, cruel,
Todo feito em papel brechtiano.
Não verei mais o avô malandro do vendedor da banha da cobra, ou aquela voz quente e lúdica do “D’Artacão”!

Todas as rosas atiradas ao palco hoje serão dele.
Por quanto tempo ficará um lugar vago no palco do teatro?

Publicado por constalves em 04:27 PM | Comentários (0)