
Põe o pé, resolve o sentimento subterrâneo. Um mundo começa
na dor da raiz. A lua , hoje , não volta.
E se voltar?
De certo que trará consigo
as suas valsas nocturnas
Será o baile das musas
ternamente enriquecedora
das montanhas apaixonadas.
Navego muito alto nas ervas doces
regresso à terra cristalina, a filhó da memória
não serei a chuva que me falta
doce e louca como a dança
Põe o pé na rocha da roda
baila comigo um sentimento
ainda mais subterrâneo que a Serra d’Aire
o musgo cresce junto aos cabeços
como a água interior em que floresces.
E mais cantos se inventariam
dos brilhos das faces das moças,
da flor do alecrim prematuro
que teima encantar toda a montanha.
E não tardarão as papoilas
reflorindo o seu vermelho
cor de sangue. Mas não é sangue!
É a vida, a primavera
reinventando poemas sempre novos
que cantarei ao meu amor.
As aves aproximam-se e afastam-se
de S. João da Ribeira, as aves são
sempre como o sol maior
Deslocam-se rente a ele
na velocidade eólica da ternura
entre as papoilas que me enlouquecem
e o alecrim que me inspira
Vivo sempre mais do que escrevo
como quem tenta entrar num bosque
A poesia fica de fora das coisas
banais e quotidianas e cinzentas
ou como o pirilampo acorda-as
dá-lhes o sol onde te espero
na imensa paisagem que começa na escola
e lá vão os olhos a cavalo a cavalo
pela serra dos candeeiros. Pergunto aos Deuses
cada planta tem uma raiz e cada palavra? E se
os Deuses já não conseguem responder
sinto o vácuo de todos os elementos
Já não me chega o pão nem a broa nem o borrego
a minha dialéctica é outra, as moças riem
ao fundo do quarto e Deus de joelhos pede
perdão. Da alegria, da cruz desfeita, do caos
junto ás raparigas deste rancho és o Deus da
alegria, esquece o calvário, esquece a Páscoa
vive vivo neste nosso colo, espectacular
com as ondas da Praia da Nazaré
onde chegam as aves sempre brancas como a Lua
CONSTANTINO ALVES, JOSÉ GIL E MANUEL C. AMOR
27 de Fevereiro 2005, Restaurante Terra Chã, Chãos, Rio Maior,

No Semana da Poesia -21 a 28 de Fevereiro 2005
na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal
de Rio Maior.
Nasce a memória do poeta na poesia imaculada, saída
apenas das palavras que são ditas e recontadas
como se a oralidade ganhasse um novo fogo
e desse fogo caísse vinho, e o cálice fosse um néctar
sem nome, apenas um poente vermelho na serra calma
do meu país do nada, vivo entre as árvores e vou
brincando com as capelas incompletas ,imperfeitas
rasgarei os poemas nestes dias de Inverno, gelados
quando este rectângulo se empobrece , e definha
entre palavras ocas que se espalham em chuva que não cai,
por este céu que se estende da Terra Chã a São João da Ribeira,
o céu que te cobriu naquele longínquo 27 de Fevereiro quando escreveste o teu primeiro verso.
Aqui sente-se, a erupção da palavra como uma enxada
Que abre uma árvore.
Que se derrame a seiva ácida e inteligente sobre o urro da sombra.
É difícil estar com palavras no pé do teu túmulo quando toda a luz que conseguirmos fazer não chegar para iluminar a calote de céu que te cabe. Serei só uma testemunha que confirmará que o sol subiu neste dia.
Rezarei. A St. Teresa da Serra de Pilatos,
Stª Andrea dos novos Mundos
é nelas que dos dias tristes me defendo
S. Márcia de todos os momentos, quando
neste território de alegria , o som e o norte
deixa esta marca nas próprias pedras
Jorge Vicente, José Gil, Constantino Alves e Manuel C. Amor
Rio Maior, Restaurante Terra Chã, 27 de Fevereiro de 2005
Hoje, no poema concebido pela luz
Há um cristal mais cintilante,
Há um corpo de cetim translúcido no verbo.
Há o teu olhar e o teu quente dos seios
Numa espiral de seda de todas as mãos.
Há um arco de pedra transparente concebendo uma cálida verdade.
Eu sei que é o teu corpo gravado na minha seiva. A luz é a alegria
gerada na nossa respiração.
O poema é um limbo , como uma pista de dança aberta
na chama branca da água.
Um dia é assim, todos os dias.
Mas não os queremos assim.

A poesia é o acto da ausência, do verbo
vago do limite.
A poesia é uma incapacidade. O passo que não se consegue dar.
O vácuo das palavras e das línguas.
A poesia é mistério. teme-se porque não existe.
é a nossa inexistência. é a morte.
A poesia não existe no fundo dos Oceanos. A poesia flutua.
Pode ser uma nuvem, mas é preciso não tocar-lhe senão deixa de o ser.
Nos fundos dos Oceanos pode existir poesia mas não divulguem isso. Os suicidas adorariam.
O sol tem poesia, nos raios de luz muito afastados do astro. porque arderia.
A poesia é fria e não tem coração.
Os poetas são ladrões, roubam poemas à lua e aos lagos. A poesia não gosta dos poetas.
A poesia existe nas crianças mas elas não sabem. A poesia é caprichosa, tem feitio.
A poesia é indispensável. É um amigo invísivel. Não é o melhor amigo.
Não é o pior inimigo.

Há momentos como estes, sem poesia.
Sem a flor da novidade, sem cor.
E não se pode dizer mais nada. Nem acrescentar metáfora,
nem ideia. Uma linha recta de vazio, um círculo fechado, é
tudo o que se pode dar.
A minha vida, como uma hera subindo o corpo não quer dar-vos
a palavra que vos falta, que nos falta, no preciso momento do silêncio
em que o vosso, o nosso muro da solidão cresce com a noite.
Há dias assim, momentos.
A leitura de um bom livro não fará diferença. Às vezes, melhor, é um copo de água
pela garganta abaixo, um botão de alarme de um despertador carregado. Um sonho qualquer.
Pode ser com o diabo.

Já a lua não constrói as sombras no mundo,
o universo natural desperta na verdade da luz.
o matemático poeta compõe sinfonias de glicínias no jardim.
O editor do jornal imprime um cabeçalho a tinta roxa dizendo:
"Um dia como os outros" assinado por um cronista de renome.
-Logo à tarde há futebol!
vender-se-à mais tremoços e pevides, coca-colas e sorvetes.
Nada de especial, um sábado cheio de sol.
Todos os animais farão a existência.
A corrente prisioneira do Segredo não parirá.
Que importa? uma brisa correndo fará o tempo!

A minha voz tem a ténue verdade do dia,
na minha língua sabe o sol a carne,
os meus poemas são a espuma do cerne das palavras.
Procura-se na rosa dos ventos um rumo para as sombras,
para as didascálias dos actos.
Tudo sem igual, um desencontro sem a sintaxe da lógica.
Mas quando se sai do cubo fechado da dor o corpo
nem sempre encontra o verbo, o paralelo da mensagem, o .
O que quero dizer nem sequer é palavra, não se usa na Matemática,
não serve na ideologia, não chega a nota. o.
Nem o simples sinal passa no exame da nuvem, que é doutorada em céu e perfeição.Nem o lamento chega desesperado ao sentimento. não se vê.
A minha voz tem a ténue verdade do dia,
na minha língua sabe o sol a carne,
os meus poemas são a espuma do cerne das palavras
Tão completo como o campo seco à beira do rio. Como a coruja branca na noite.

As palavras desdobram-se noutras palavras, inventam-se palavras.
Há dominós de palavras. O Infinito são também palavras. Contaram-me que há um tesouro de palavras.
Inventam-se jogos, palavras cruzadas, letreiros e cabeçalhos.
As palavras voam no vento, dançam na seda. Bebem-se, cantam-se, amam-se.
Os sentimentos são palavras. Os bebés inventam palavras.
Fumam-se palavras.
Há precipícios de palavras. Lagos. Ciclones.
Todas respeitam o epicentro vago do ego.
Uma palavra mata outra palavra
Não se respeita a palavra de outro. Mata-se
Por palavras.
O meu amor é uma palavra.

A porta fechada tem uma albarda de vidro.
Tudo se fecha na casa com luz.
Não há pior ignorância.

Perto de ti há uma abóbada milenar que te diz o céu
com o silêncio cavo dos segredos. Nem sempre mentira ou verdade.
Lembra-te que o amor arde na terra húmida da existência. Tu pisas a terra.
Tudo é assim, sem se explicar. Tudo vem em pedaços que nós não sabemos ligar.
O amor .

Uma dor branca de prata,
Um agudo som de silêncio
Fazem o contínuo da existência, a sinfonia vazia da vida.
Não se pode ter mais.

Aquela folha de papel, branca, vazia, sem fruto
É um homem na solidão.
A tristeza faz de manta ao frio do branco da pena.
Uma árvore, que não se mexe, delicia-se soltando a sombra.
O homem, como uma folha de papel branca, não sabe isso.

Nem sempre encontramos a porta.
Mil segredos fazem o complexo da felicidade,
precisamos de ser para o resultado atómico da pessoa estar completo.
Este Domingo fresco, bonito cheio de paz
estava escondido no emaranhado dos fios
dos dias difíceis, das razões incompletas, das sombras das decisões,
foi preciso a aventura do teu corpo, a espuma de teu sorriso,
a seda dos abraços para que a bússola crepitasse um novo norte.
Que se pode fazer num domingo assim... quando as pérolas de novo cantam alegria nas faces dos verbos... no magnetismo de um novo verde do prenhe das árvores?

Ruy de Carvalho e Canto e Castro em "Rei Lear"
Tudo soa agora a madeiras
Tudo cheira a cortinas pesadas, bastidores pretos.
Não há aplausos nesta partida.
Canto e Castro já soa na minha saudade, e há um infinito na boca,
as minhas mãos são lágrimas.
Não verei mais aquele patrão austero, cruel,
Todo feito em papel brechtiano.
Não verei mais o avô malandro do vendedor da banha da cobra, ou aquela voz quente e lúdica do “D’Artacão”!
Todas as rosas atiradas ao palco hoje serão dele.
Por quanto tempo ficará um lugar vago no palco do teatro?