Ontem, dia 29/3, faleceu o poeta José António Gonçalves "JAG". Por isso este blogue está de luto. Para saber sobre este poeta madeirense visitem a sua página pessoal : http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
A minha pequena homenagem:
Morreu um poeta
Apenas lançarei uma rosa sobre o poeta,
cobrirei todo o mundo!
Constantino Alves

A poesia é uma emoção.
Um ferro e uma rosa que atravessa o coração.

uma lâmpada se acende na noite:
a notícia do teu nascimento,
na folha de uma palavra, um poema balbucia
o teu nome,
ousaste amar!

Van Gogh
a casa descomplicada aberta fechada
é a nossa casa desobstruída de palavras
com ventos de teias cinzentas de janelas
altas baixas com pessoas e coisas que
somos nós brancos onde guardamos o amor
e as memórias da religião que já não professamos
das irmãs e dos irmãos que já não temos e onde
conservamos no coração únicamente o pai e a mãe.
A casa desobstruída e descomplicada é o nosso lar
por dentro e por fora pintado de uma cor branca
impossível de imitar, guardamos também sabores odores
e desejos que já não temos e queremos. A nossa mulher
continua lá ao pé dos nossos filhos abraçados a nós. A casa
livre é a nossa cela que não queremos abandonar, a nossa casa é também o nosso automóvel quando ele circula na estrada e nós cantarolamos uma canção qualquer. Quando sentimos e bebemos vinho na amizade com os outros e os
outros bebem vinho connosco. A nossa casa tem telhado e o céu por dentro
porque o céu somos nós que o criámos há muito tempo com as nossas dores
e equívocos cegos de ignorância. A nossa casa somos nós quando plantamos
uma árvore, quando choramos, quando amamos. A casa vive dentro de nós repetidamente no medo e na coragem. Se nunca mentirmos nunca saíremos de casa. A casa desobstruída e descomplicada.

A Primavera é um frasco de vidro cheio de céu
com uma palavra dentro feita de pássaros transparentes,
pássaros feitos de peixes de água azul, pássaros inteligentes
da verdade e de promessas de prata, da areia aberta, com
esperanças de ventos cantadas por verbos autênticos,
nascendo das folhas dos pássaros libertos, bebendo cataratas
de flores de pássaros de vidro com ar água, torrente de ar
correndo por pássaros nos vales alegres, com rios de pássaros
olhando o céu azul e as nuvens subindo pelas palavras faladas,
molhadas de pássaros brancos de areia transparente no frasco de vidro
cheio de céu com a palavra dentro feita de pássaros transparentes, PRIMAVERA.

( o poema "Infinito" é um poema colectivo em permanente construção na lista poética Encontros de Escrita)
Vejo daqui o mar, os peixes a planar sobre a água,
desejam mais que o sal, procuram o infinito,
como um desejo impossível, como um sonho de homens,
que procuram o céu num poema plano, sem objectos,
nas palavras compridas de cor, como na terra
as árvores planam no vento descobrindo o sentido
dos verbos sugando o sódio das pedras.
Para além do sal estão as pedras, depois das nuvens,
depois de Deus, construindo o sólido da verdade,
numa coisa poética impossível que se verte no meu olhar.
Com a luz defronte, a minha sombra para trás.

o dia da poesia
é o dia do homem e da mulher,
da flor e do sol, à noite, da lua.
Os lagos e as árvores, hoje, foram
requisitados pelos poetas e pelos amantes
do inefável, dos adoradores do silêncio em sangue, dos infinitos
sonhadores, dos altruístas da cor, dos criadores de verbo.
Todos murmurarão as palavras laço, paixão ou deserto, dizendo outras palavras.
Muitos quererão dizer homem, mulher, flor ou lua, mas só escreverão morte.
Outros chorarão pelos que perderam e pelo que já perderam, rasgarão poemas. Farão outros.
O mundo fará uma rotação completa.
A poesia não parará.

Traga-me a vida nessa sandes!
Um rebuçado, qualquer coisa com mentol.
Não se pode mais com esta seca!
Qualquer coisa está vazia.
Um café com um chocolate.
Não se pode ter emoções, cada
coisa é uma coisa e a poesia uma
tábua rasa dos dias.
Pronto! Mas já lhe disse,
quero um suminho se faz favor!
Você não vê a TV?
Não sabe do que o país está a precisar?
Pronto é tudo e não é nada, uma escrita
seca e dura como a terra no estio
Imprevisto.
Esta terra não dá mais nada, antes beba
Sonasol, o que se fará à poesia?
Para o tribunal, para a seca!
Oh! Vizinha um copo de água. E a metafísica.
A poesia tem que chegar do espírito ao digital
Oh! D. Alzira também pode ser um suminho.
Um regaço complexo para o belo e o bom.
Não desdiga, ninguém falou na palavra sexo!
Todos o querem e ninguém sabe o que é?
Poderia fazer muito mais do que encontrar
Poesia nas gavetas, poderia fazer rir a miúda de saia curta.
Que seca de país em seca de poetas secados
Acabou-se a poesia!
A poesia. E a tv não ruirá a seca?
Poderemos fazer muito mais com consideráveis meios, poderemos inclusive fazer poesia com as meias pretas das crianças.
Mas será uma sorte a poesia operar um dia completo de água e palavras. Hei! Não se esqueça, eu pedi primeiro, o tal…
Um suminho se faz favor!
José Gil e Constantino Alves CCColombo 18/3/05

o olho humano
é uma piscina de coisas
e palavras vestidas de cor. Nos meus entra o branco.
Como um tecido veste o corpo, por dentro.
Dizem que é luz e que faz as coisas serem verbo.
No meu olho vivem também poemas, em bruto, como numa rocha de água.
Há cabelos pretos e azuis, outros olhos de gente que olha com poemas dentro.
Num olho, que sente, vivem as coisas, os poemas, as cores e todas as pessoas.
Só num olho. Isso cá fora é impossível.
O olho humano é uma piscina de água quente
com camélias brancas da paz envolvendo a humanidade nas coisas, as coisas com a humanidade. è um principio real.
Outras coisas dizem também isto.

Agora é tudo plano,
um chão de erva seca
tapeteia o caminho.
Assim tudo é fácil quando estou morto,
o capital não me dá a volta ao estômago
e a miséria depois da janela de minha casa
é longe e alheia às minhas palavras assépticas
dos meus poemas queridos.
Era preciso de facto nascer de novo, para ver o enxofre
que cobre o mundo. Isso é impossível quando se está morto.
Todas as estrelas estão presas em sonhos infinitos de uma
ingénua puberdade. O resto é carne seca pronta para o epitáfio
de um qualquer discurso politico. Deus permita que Cristo não desça à Terra.
Seria outra vez mais díficil fazer sexo livre e gratuito (e menos seguro).
Continuarei morto mesmo se fizer-se luz ao fundo do túnel.
Os diamantes da minha existência estão no testamento que fiz ao mar, que é o único omnipresente que fala e é sempre mais que tudo que eu conheço.
Não nascerei de novo, nem como cão ou pássaro, a dor continua da existência também é por eles sentida. Não serei flor, alguém não me permitirá.
O mundo rodará mais alguns milhões de vezes. E eu verterei milhões lágrimas.

No dia da mulher eu quero falar de uma
que tem olhos claros e cabelo preto, tez branca,
que fala uma língua que não conheço, com uma cultura
diferente da minha, com um riso igual à minha irmã.
Foi moça, namorou e foi professora de piano. Morreu
queimada em Auchvitz em 1944. Vive no desespero,
no mesmo sítio da alma em que vivem outras com outra tez,
que fazem, hoje, outras coisas. Que morrem também de outras coisas más.
Como de aborto clandestino e de violência doméstica e que amanhã não vão festejar com falos no bolo rei. Falo da dor e da indignidade.
Do que falta fazer. Do que é impossível esperar.

o pássaro voltou.
houve regatos secos e árvores nuas que não notaram esse começo.
Eu, por caso, estava escrevendo um poema.
Maria estava contando o dinheiro para a renda. Um outro como quase todos
fazia qualquer outra coisa. O governo governava.
Ninguém pensou no pássaro que voltava. E no entanto ele era o princípio.

Como numa religião celebro o tempo, um minuto complexo, vazio.
O momento de encadear o corpo com o eterno.