
Conhecem alguma sombra, por detrás daquela palavra, que impeça o silêncio, o forte clamor da liberdade?
Impossível, encontrei-a nos meus pulsos, dizia-se de “poesia” e era de uma voz pura, ingénua vadia
só procurava um lar.

Há uma concordância entre a ideia
e o verbo, um patamar de silêncio,
que verte um poema como água,
na sede do poeta.
É aí que surgem as árvores esplêndidas
de substância, de conceitos, os rios
infinitos de romance, as luas prenhes
de magia.
Essa concordância é um eu tresloucado
de emoção, da sublimação mais depurada,
é do que se faz um deus/palavra mais omnipotente
que o espírito.
É desse vulcão de silêncio que se fará sempre o mundo,
como uma dor que não dói.

Não deixem passar esta hora
sem olhar para trás,
sem celebrar o pulsar quente
das artérias, façam uma paragem
no movimento dos olhos, deixem de ler o poema,
fixem o silêncio das mãos, agora,
não acontece outra vez.
esse mar infinitamente pequeno e suave,
são vocês mesmo, flutuando num verbo.
Curiosamente voltam a ler o poema.
Estou certo que isso é realmente importante.
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São oito horas da noite,
Muito cedo para me aborrecer com as palavras,
Fumar, pois então, delimitar a ideia. Às
Vezes faço isto, rodar dois dedos um no outro,
Accionar o prazer, esquecer, ganhar tempo.
Jornais para quê? Antes a Internet, ver-me aí
Na luz sublime do ecrã, o branco maximizado,
Um escorregar na cadeira, vazio completo.
É uma clareira que procuro, não vale a pena a dor
Inflamada a soturna emoção, ou a sombra do diabo, amanhã, logo ou agora, tudo
Estará na mesma. Menos eu, no vale gigante do intervalo,
Compondo a sinfonia do vagabundo, dissertando
De perna cruzada cada momento.
Saindo do corpo, vendo.

Tenho pouco tempo, a liberdade esgota-se,
O que tenho para dizer e que depois não posso dizer
É muito simples:
A árvore!
Contemplem-na, atentamente perceberão o seu halo,
A liberdade, principalmente o espaço, nenhuma árvore vive
Encostada a outra.
Ela tem tempo, compreenderão que precisarão dele.
A seiva que corre inesgotável, verão que é viva.
No silêncio que a cerca reflictam com sabedoria,
nos anéis do cerne a memória.
Abracem-na, sentirão o calor, a ternura. Analisem
O viçoso da cor, a virtude da copa, o poder dos frutos.
Ficarão a saber.
Terão que cuidar,
não as imitem, poderão também ser abatidos.

É verdade que o poema submerge
as palavras,
percebo quando já não tenho língua
e as mãos são farrapos.
Este capuz negro
de uma tristura negra não existe na Natureza.
è um urro que surge de um poço fundo
que não existe. Vem das cordilheiras distantes.
dos chãos altíssimos do sangue.
Estes jogos que não percebo fazem-me segredos
e chocam como átomos no meu silêncio.
Serei sempre este pateta das palavras, procurando
ideias nas coisas, respostas nos verbos.
Nunca perceberei o axioma da existência.
Só perceberei outro vento.
Quando as palavras se abrirem com as
mãos em concha, tentando trazer outro mar,
para além do espelho do sal.

Elisabeth Chamontin
Todas as coisas têm nome.
Todas estão pintadas na dor.
O nosso corpo nas coisas.
As coisas não têm dor.
Nós temos os nomes. Não temos as coisas
A nossa dor não são as coisas.
Eu não sei o que é uma árvore. A minha dor.

As palavras doem-me o corpo,
Inevitavelmente, senão não seriam palavras.
Porque elas são sempre este vento, por dentro, ardendo o sangue,
Fazendo a chama dos meus beijos.
A poesia enche-se de palavras. O meu corpo e as palavras.
O vento.

Os dias podiam ser vermelhos
Como os poentes, as cenouras ou os tomates,
Redondos como luas cheias ou novas,
Puros como os riachos, o orvalho,
Podiam ser significados sem significantes.
Opacos como as coisas de que gostamos. Âmagos.
Serpentes
E não lixo e jornais velhos
Como retratos de esqueletos nos trens
À meia hora de Alfornelos a Sintra.
Podiam ao menos ser dias, mas o Homem
Não sabe a manhã.
Pressente somente o vento…
E come demasiadas bolachas.
E os dias em palavras
São repentes.

Tudo se fez assim, de palavras e de amor.
Aí nasceram estátuas, ideias, encheram-se lagos com as experiências.
Os segredos fizeram meadas e os silêncios, maçãs
Chamem-lhe agora monstro, dessa esperança acumulada.
É um verde que anda escondido de bomba.
Nuns lados é bomba, ou só ameaça noutros verbos abertos.
Anda nos serviços de urgência, inala-se nos féretros
Haverá um poeta que o fará poema. Um dia será aço,
Forjado em pétalas. Terá tatuagens de mulheres com seios nus.
Terá que dizer basta e isso será o fim.
Não estarei cá. E haverá então ainda árvores, rios e o simples vento?
Estarei cobardemente morto num sítio pior que o tal Inferno. Estaremos todos juntos
No vértice invertido da paz

escreverei depois esse livro,
quando se fizer a palavra que falta,
pois eu não percebo ainda
o que é isso de ter coração e não sentir,
de ter mãos sem suor e rir em voz alta.
A palavra que falta é uma bomba
e será dita ao telefone,
na missa e no parlamento,
nas finanças e nas creches,
balbuciada pelos velhos,
não fará mal ao ambiente.
Quando ela for inventada
não se dará por ela, nos livros
ou nos jornais, nem constará dos dicionários.
Estará prenhe de multiplos verbos
e não será novidade, não haverá notícia do seu nascimento.
Será verde e poderá ser uma árvore,
mas nunca ninguém a conhecerá,
estará talvez num jardim de uma casa desabitada,
ou num poema de Ramos Rosa. Não será certificada.
O notário teria de ser poeta e ter vivido há mais de mil anos.
Pouco importa essa história, será uma bomba.
E o que ela fará?
Não estarei cá. Com toda a certeza
será.... uma palavra de agradecimento.
Não será a Esperança, nem muito menos a Fé.
Quando ela for inventada, já há muito
Que haverá todas as respostas aos silêncios e aos pedidos,
vacinas para o sofrimento, economistas com talento,
políticos verticais. Não haverá fome e muito pouca guerra,
não haverá futebol, alguém por engano o terá exterminado.
ainda haverá pobres, aqui e ali, por opção de um qualquer arquitecto pós modernista de vanguarda que terá escapado ao esteta todo
poderoso rei.
Não haverá internet, só radio e mp3. A televisão passará outras coisas
para outras pessoas. E eu não estarei cá.
Essa palavra será uma bomba e eu não estarei cá
Não estarei cá.
Essa palavra será uma bomba.
Será uma bomba.

Lembrar que todos partilhamos
o mesmo mundo e existência.
Lembrar que não há lógica haver tanta fartura
e muitos passarem fome.
Lembrar que os economistas
são burros e tendenciosos.
Lembrar que o rei vai nu.
Não esquecer:
nunca!