
Um pedaço de ti ficou aqui,
num canto recôndito da minha casa da poesia.
Tinha flores na boca e eram os teus melhores dias,
naquela idade não sabíamos isso, como poderíamos saber o mundo finito?
Dar-te-ei esse fruto num poema de Eugénio, quando fizeres cor num verbo teu.
Que bela cor, pintarei as paredes da casa da poesia desse tom. farei futuro, apenas lembrarei um nosso beijo antigo.

Está este quadro numa parede,
um silêncio com vestes de árvore,
poderíamos apagar a parede, a casa, a árvore,
ficaria o silêncio, o nada vestido de tempo.
Começaríamos assim a casa, sem parede,
a porta sem porta, com a boca e a tua boca
e o silêncio em árvore.
Precisaríamos da poesia, faríamos um quadro,
com vestes de tempo, pintaríamos silêncio, sem árvore
Gostaria que assim fosse a casa, a Casa da Poesia.

Podia começar-se por aí, pelo olhar espantado aos lírios azuis.
Adicionar a ideia da surpresa do céu, perceber areia dura que pisamos,
Claro, perceber que o rei vai nu,
Mas isso não bastaria, não bastaria o nosso regresso às mãos, do
sentir outras mãos nas nossas, não bastaria agitar o slogan da coisa igual a outra.
É preciso não precisar nada,
talvez não fazer a promessa de que o mundo é outro.
Ai que rio se esvai na praia e todo o mar sem silêncio

É urgente pedir, aos deuses um poeta,
É urgente coser poesia com palavras gastas, fazer a promessa,
De que não iremos pela porta feia,
De que nos recusemos a não existir .
É urgente não parir um rato, é urgente trazer água na garganta,
Fazer versos sobre a manhã futura,
Pedir a humildade ao sol, por ser tão grande
E ser tanta amizade.
É urgente terminar o meio caminho do voo, ir até ao horizonte,
Abrir os olhos para lá.

Faz-se assim o sol, da platina das mãos, das copas das árvores,
Do quartzo das rochas, dos beijos. Este reflexo arde mais que uma estrela, porque eu sou a planta
Que tudo come, com a fome da poesia do sangue, reflexo genético da luz.
Eu sou o monstro perfeito, o centro magmático de um verbo. E isso, por pior que seja, é a verdade.

Em dois anos de actividade do blogue nunca fiz um artigo político, abre-se hoje a única excepção.
Obrigado Vasco Gonçalves,
pela tua coragem, pela tua verticalidade e coerência.
pela honestidade, pelo sonho.
Vasco Gonçalves ficará na minha história,
como o único e mais perfeito socialista português.
Deu-nos até agora 30 anos de regalias sociais dos trabalhadores, impensáveis se esse sujeito do "Sá Carneiro" tivesse vivido e governado.
Fica-me a memória que o socialismo, mesmo com os seus defeitos conhecidos, era um sistema tão viável como o actual capitalismo. A palavra "utopia" foi recriada por economistas.
Fica-me o sonho de construir um Portugal com todos, na independência dos partidos, fica-me a imagem de um ídolo de massas, falando como nenhum político até agora o fez com a verdade na boca.
Srs. políticos, nunca aprenderão isto!
Constantino Alves

Fizemos à bocado um segredo,
Tínhamos as duas mãos juntas pelas palmas,
O teu corpo tenso, arfou um silêncio,
Observei um momento no teu cabelo. Poderíamos fazer mais
Mas, bastou-nos.
O segredo não terá verbo, será como uma pedra de ar,
Cairá num bolso, como um botão. Escreverei um poema mais tarde.
A lua ruirá o sol, no poente. Sorriremos no mesmo momento.

Daqui não se vêem as orquídeas, podemos finalmente descansar.
A noite cobre-nos esse espelho. todos os outros já não existem,
fizeram-se de palavras ao mar. Só alguns peixes resistem, profundos.
Aquele bar de betão, de frente, é de uma noite diferente, não serve verbos. Bebe fadas nas bicas e serve pão anti-corrosão. Não vou a esse bar,
não há orquídeas para matar.
O dia começará amanhã com o piar
de um corvo branco, um vento entrará pela cortina azul da janela do quarto.
beberei a água do sonho e morrerei.
O convite para o funeral já seguiu para os correios,
neste momento, um general lacrará um selo real.
e dirá: morreu um poeta, quem quiser comparecerá, leve lírios e ciprestes,
algum deus o receberá.
um edital agiota proclama:
todo o morto nascerá.

uma árvore cresce pelo princípio,
pela vontade da semente.
Um poema pelo fim, pelo desespero do canto.
Não há coisas tão iguais, pela flor do verbo.

Deve-se falar a vida, falar da vida
fazer a vida falada, falar vivendo
a vida só é vida falando. falando da vida,
vive-se ao sabor da fala, fala-se ao sabor da vida
a vida serve mesmo para ser falada.
Na estação de comboios de Entrecampos em Lisboa , amanhã às 18:30 horas, algures num café realiza-se uma tertúlia de poesia com colaboradores da "Escritas", não poderei comparecer, enviei estas palavras...

Um poema para Entrecampos, no lugar do Gil, no comboio, solta-se o vento.
Na encruzilhada de comboios, vêm as pessoas e os seus lenços brancos das palavras,
Um poema alimenta-se das conversas com deus, na bica das 18:30 horas.
José em Odemira, planta a sua nona couve do dia.
Nem um relâmpago uniria todos à mesma hora, só poesia se fará assim, eternamente

Este sussurro cá dentro é um poema, preciso de lhe soltar a língua
Com pedaços de ideias, fazendo o tolo romance da vida
Num verbo quente da alma, pregando as palavras precisas
Na tela, pintando um sol como pintura. Dizer aberto vida
Experimentarei a guerra do sorriso com a água do canto
Farei concerteza toda a paz de que preciso.

Infelizmente, tudo aqui é sereno, podia-se escutar o oceano, ver uma folha a cair,
Mas eu sei que a morte está coberta por este silêncio, um poema mais fará o impropério
Do acto vivo. Não iniciarei a guerra, já dos ciprestes dalgum poema foram feitas as espadas.

Infelizmente os poemas não são mais que palavras, prefiro as ideias, a álgebra, o metal.

Tal como as terras que passam de geração para outra geração,
Assim estão também as palavras, os nossos negócios de lidar
Com as árvores com os outros, com deus
O meu avô teria o maior orgulho em mim
Sabendo-me assim tão sacana, molhando as palavras em ácido,
Degustando todos os meus leitores. Aquele sorriso que eu lhe via,
Era decerto uma palavra, embora assim tão branca, eu ainda não sabia como ela se iria assim multiplicar
Em todos estes verbos que nem sempre consigo dominar. O meu filho tem uma madeixa no ar.

A musa descobriu a luz.
Um rato correu aos seus pés. A terra.
O poeta escreveu o que lhe pareceu a luz.
O rato correu aos seus pés.
Os suecos sabem poesia, com gelo no cruto da cabeça,
Roubam a poeira como poesia, aparecem na tv como ricos e bons.
Há um rio que separa o mundo. Não sei qual é.