
Portugal é fixe nas vertigens das escarpas dos castelos medievais, na planura das praias Atlânticas,
no sol sincero e vertical, nos campos fecundos do Ribatejo, na razão fria de Trás-os-montes, na sinuoisidade caligráfica do Douro.
É fixe na alegria do vinho tinto, na seda do vinho branco, nos cheiros dos churrascos, no sorriso honrado de um idoso. Tudo aqui é fixe menos o colarinho branco, a gravata ao xadrez , o sapato Versace. O Benfica é fixe, o Sporting também, pudera o FCP também sê-lo. Os dirigentes desportivos, os caciques e especuladores não são fixes, não gostamos nada deles, também alguns intelectuais, escritores antiquados e pseudo-artistas pós modernos podiam tirar umas férias vitalícias, não são nada fixes.
Fixe é a voz da Amália, Dulce Pontes, do Zeca, do Carlos do Carmo e felizmente de muitos mais. Não é fixe não ser muito competente, ordinário e vadio, pudera todos perceber que só temos a ganhar com limpar o nosso nome
como povo desleixado e pouco certo.
Podíamos ser sempre fixes se percebessemos a benção da cidadania, dever e receber, construír a cidade democrática num país que é tão fixe, que tem poemas tão loucos, escrita tão amiga do ambiente. Heróis não faltam, a coragem está em cada braço dos portugueses.
A bandeira é pouco feliz, o hino pouco fixe mas, não é aí que está o país, está no sussurro da água a mourejar contra o cais, no castanheiro a ondular, no pastel de bacalhau a fritar, nos nossos sorrisos abertos quando temos uma história a contar, na simpatia aos outros que nos vêm visitar.
Portugal é fixe mas temos que nos encontrar, no trabalho persistente e no cuidar. Talvez de vez em quando olhar a rosa, observar, como uma coisa tão bela dos espinhos foi precisar. A rosa, é fixe, como pode ser o todo Portugal

Lukas Birk
Não há engano com a morte, é esse corredor vazio
vestido de negro, fazemos mistério dessa ignorância,
esse retrato barroco do medo é a morte, em trocados,
construído do preconceito, a morte devia chamar-se pergunta.
Ao corredor, silêncio, medo. Não há engano, é aquela resposta que tenho
na mão fechada do poema, para quando chegar a pergunta.
Posso continuar a vida, o sangue a correr.
podemos fazer assim, deixamos de olhar para trás.
podemos pedir ao vento uma folha de ácer como futuro, nas linhas dessa palma inventamos o nosso diálogo com a felicidade, percebendo o tempo,
aceitando a morte, inclusivé descobrindo outra sinomínia da vida.
experimentamos o corpo com o espaço, bebendo o amor das nossos braços e pernas entrelaçados. Como jovens, sem ritual, irritando Deus com o nosso azul da nostalgia do amanhã.
podemos fazer assim, dilatamos os verbos nas árvores que encontramos no nosso caminho, irritaremos também o Diabo com a nossa honestidade para com os rios e montanhas.
Eu sei que isto no fundo é um grito seco como um rio sem água mas, quero que todos saibam que existe o amor sem compaixão ´pela regra, mesmo que esta seja o sol em cima e a terra por baixo.
Tenho todo o azul do mar
, precisarei de um barco?

Fiz a experiência com um prisma de cristal,
na luz desta manhã refractava-se apenas a matiz azul.
Azuis mais claros e mais escuros,como um dia completo, não havia sol.
Bebia assim o céu neste verbo, que trouxe de ti,
um prisma que trouxe do nosso amor, feito apenas da nossa felicidade, sem sol.
Porque o sol fere os afectos e nós só queríamos o azul.
O azul é o nosse doce inesquecível, que faz parte das nossas palavras,
nós só queríamos ser o azul do céu, dos ribeiros, dos rios. Como foi possível tornarmo-nos neste mar?
Como é ainda possível este milagre?
É de partida este adeus, feito de coisas verdes claras,
é também poesia o que levo na garganta, nos versos já escritos na esperança.
NãO tenho dores de saudades, os que amo estão nas minhas mãos em versos
escritos no futuro. Vou para o mar, absoluto dos olhos e do sol , podem vir comigo se trouxerem verbos abertos e terra preta, todas as árvores serão possíveis agora. Vou partir, deixar as pedras antigas.
Neste mundo só pode haver partidas, comprem um bilhete, só custa ler, o prémio é a soberba morte tecida em papel.
Comemora-se hoje o segundo aniversário de "Diário Poético", 420 poemas, 173.000 visitas. Pra um blog de poesia é bom.
Senti sempre os meus leitores, gostei de fazer toda esta poesia para eles e para mim. 2 anos que passaram rápido, espero que muitos mais possam estar aqui convosco. Gostaria que continuassem a fazer os vossos comentários, são para mim um bom alento. Um grande abraço para vocês.
toda a minha poesia
toda a minha poesia passa por aqui, pelos braços, por estes
segredos das mãos, fazem-se cânticos com todos os verbos
dos vossos olhos, na luz difusa do vosso sorriso.
Não quero adiar o mundo no meu coração, quero que ele verta
uma nova ideia para os novos rios do futuro. é com o meu corpo
em verso que beberei o éter da dor, da alegria.
estarei cá sempre adornando a serpente,
que o poema rebente na montanha,
que se faça luz no medo

Neil Marshall
ENTRECAMPOS VIII
Poema da Casa da Borboleta Preta
O teu rosto puro, os olhos, as mãos
fugidias, a inspecção irónica das pernas
demorada e ascendente na Deusa Yuri
a revolta encarnada do teu corpo de aurora
Na teia da aranha sedenta arrastam-se
Pensadores. Os olhos perdem-se nas estrelas
Ofuscam-nos cometas e a serpente
Solta o seu sibilar penetrante. O mundo
está preso numa casca de noz
disposta ao contrário nas auroras primitivas.
Todo o acaso com a luz do dia.
somente a borboleta preta existe como uma palavra,
Circula na sala como o comércio na praça, só é preciso o cobre
das ideias para percebermos mais sobre o tempo.
O tempo somos nós, como se víssemos uma parte do elefante,
Uma sua pata podia ser uma árvore, o tempo podia ser o nosso musculo dos braços,
A força, todo segredo aberto.
Na sua memória vivem duas borboletas na tromba do elefante.
A solidão tem uma casa , os teus seios sagrados abrem a porta
aguda como o sonho do esqueleto de Deus no horror da poesia
três andares, uma espada fina como os dentes do elefante.
O castelo suspenso na noite das estradas. Deus é o deserto
A nuvem negra procura-te em frente ao sonho.
A nuvem negra desperta a fronte do desejo.
Sigo em direcção ao corpo, a espada em riste,
Com um risco desenhado no canto da sobrancelha.
Reflecte o sombreado da voz no corpo do vinho.
Regressámos ao castelo e ao fogo da planície.
De noite, só se descobrem os olhares dos faróis
Morrendo nas ervas. Se o rio sobrar da minha morte,
Atirarei da tua escarpa, um resto de rochas dominado
Por uma serpente de destruição.
A serpente tem uma casa, no canto das rugas
Espalmadas no choro da solidão.
Tremem ao longe as águas do deserto
Envolvendo as sombras inquietantes da serra
Vozes de todo o lado tocam-nos em lado nenhum
E as sombras da noite alimentam-se de seguranças
Calam-se as vozes dos escolhidos ao ver
Erguer-se o manto do lagarto cego.
Contempla o teu passado com distância
Os seres que vês já não te pertencem…
Foge o lume da verdade, estreia-se a promessa em água.
Já não há o sentimento diário, como tudo se perde em comboios.
Não se circula a virtude, porque não se quer, não se diz, não urge.
Mas de tudo se faz Portugal, assim, aos bocados.
Nesta casa, jaz-se o jugo da morte, por que não se sabe.
Silêncio! Eu não quero cantar o fado!
No outro lado da chuva onde ainda chovem as estrelas
no teu lagarto sedento, Jim Morrison busca um amanhecer
na folha de aço da noite em águas no teu lugar seguro
do chá de hortelã dos sentimentos. O que é a emoção ?
depois do teu catavento de espelhos na montanha
no limão com natas quando o sal renova o estado a alma
tento repartir as personas no apocalipse de cada andamento
de música. A minha alma perdeu o sol. Perdeu-se só. Derramou-se
em mel de pó nos teus seios fortificados pelos metálicos
dedos do diapasão de Bruce Sringsteen a quem dedico
o meu coração para além de Deus. As perguntas perdem-se
nas borboletas da noite que compõem o teu olhar longínquo.
Não olhes perdes a alma. Deus é a imagética da proximidade.
Concentro a imagem no canto dos teus olhos,
Secando o tempo que descobres na roupa
Do amor. Os teus cabelos descobrem no
Rito do orgasmo a serpente em silêncio.
Acontece a alva na noite em pranto.
Cantam nas montanhas as mulheres possuídas
A loucura domina o coração dos que negam
Os deuses ocultos. Por entre as árvores vagam sombras
Dominadas pelos licores etílicos. O vinho da Primavera
Lança as Bacantes contra o vento. Caem ao chão cabeças
E o sangue perdura nas armas abandonadas.
Temem os animais, teme a sanidade…
E tudo se conta como numa história,
O lobo adormece sonhando com uma fada.
De facto a sombra da Terra está ao contrário
E não é dislate de leitura. Eu vejo os homens andando para trás
Fugindo dos comboios, os comboios fugindo das nuvens.
Só existem pequenos verbos flutuando em água cansada.
Como podia Yuri saber que tudo é assim?
Imaculada na relva da Guiné onde o cão morde
Tantrico na astronomia onde Deus se desfaz
Em cristais puros e finos o sangue coagulou
Na areia és pó, o pó eterno em que viverás.
Oh Deusa que descobres o oásis como pó.
Ós pioneiros descobridores da pedra filosofal
Assinala no espectro da cruz o ouro que vomito
No oásis da ressurreição. Somente o desespero
Pode dominar com a labareda a sentinela
Do olhar. Morre em mim e suicida-me.
Eu sou como o sangue. Morro sem cair.
E vou morrendo em cada vibrar das asas
Imaculadas da borboleta. Sopram ventos
Nos desertos em tempestade, calam-se vozes
Engolidas pelas ondas de mescalina.
A fortaleza dos silenciosos perdura
Escondida no monte. Por que razão nenhum de vós
Vem até aqui e me liberta? A tempestade de gelo
Queima-me a pele, esconde-me os olhos.
Depois fecha-se o quarto. Come-se a bíblia.
Gorgoreja-se flatos oriundos da gramática.
Isto não é uma ideia de esquerda é um bloco
de betão armado, não é susto é perigo, acidente mortal.
Porque não queremos as coisas assim, precisamos do não,
da sua energia positiva, rasgar o céu de papel com desespero
Optimista do começo que “tem que ser já a seguir”.
RUI SOUSA,JORGE VICENTE,CONSTANTINO ALVES E JOSÉ GIL
Café com livros,12 de Julho 2005, entre campos

Talvez vá a Jerusalém, em qualquer vento.
Preciso de saber as orações do deserto, perceber o sangue
divergente, ver as árvores no silêncio seco dos gritos.
Há com certeza um segredo num verbo aramaico, ou antes de qualquer tora nas areias. Talvez seja só perceber o silêncio. Talvez seja derramar uma lágrima mas, há qualquer coisa ubíqua , qualquer razão num verso hebraico.
Talvez vá em qualquer silêncio até um templo perceber o tempo. Talvez seja só rasgar uma camisa, deitar o corpo no sol seco mas há qualquer coisa que eu aqui não sinto, qualquer palavra que faça vento e eu aqui não sinto.
Mark Shasha
Não vem nada do vento, esta experiência tem anos,
nunca se percebeu qualquer desvendar de mistérios.
Mas eu gosto do vento, como corpo efémero do verbo.
Em todas as sílabas da minha língua, fica a palavra na carne,
Não quero mais, todo o ar numa palavra, todo o corpo, todo o mundo.

A um simples estalar de dedos, podem acabar com a pobreza já. Seria preciso apenas estarem vivos, abraçarem a vossa mulher, beijar o vosso filho, como um beijo no mar, entenderem o verbo como global. lembrarem-se do orgulho
de dar. Serem os heróis de todos nós.
Nunca vos esqueceríamos.
Percebam o momento, recebam o nosso alimento, nós todos mundo em sentimento, a maior proteína Universal, concluam com a razão, qualquer um de nós é vosso irmão. Estalem os dedos o rei que vai nu não se importará.
Ao vosso toque, no vosso estalar de dedos o mundo ouvirá.
Faremos cânticos com braços dados todos com todos, faremos redondo o mundo de pão.
No pedaço que me coube havia um relógio,
nunca percebi porquê. No outro dia, num olhar
longínquo para ti percebi o mistério. tanto mar
distante, um barco na praia, seco. não era o ódio,
era o tempo.