setembro 30, 2005

Para o Opiário da “Escritas

E da pomba se fará o voo, o silêncio
Das manhãs, como o ópio das horas,
Que se arrastam nos nossos desertos, procurando vagens,
Seios e ventres , bebendo os verbos já ditos,
E o eterno, o silente hábito dos anjos de julgar o vício,
Tudo isso nos torna mais terrenos, vulgares e normais, mais pequenos do que somos.

E nós só vemos a pomba voando…

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setembro 26, 2005

Aquela cerca, aquele poço, aquele pinheiro


Aquela cerca, aquele poço, aquele pinheiro,
são a minha quinta, o espaço do meu sonho.
Como um quadro, a natureza imita a felicidade,
com o aroma, com a organização das formas, com a cor
do espectro da luz.

A realidade está mais longe, perto do coração, por vezes
em qualquer lado distante.
Só a memória, os laços, os afectos podem achar
aquela cerca, aquele poço, aquele pinheiro.


Muitos só encontram a montanha, ou o vento que traz os sinais.

Ah! que lua amargurada inventará os poemas tristes?


Havendo tanto sol já aqui.

Publicado por constalves em 11:24 PM | Comentários (0)

Alcobertas


imagem lateral da igreja de Alcobertas, Rio Maior. O que vêm é uma anta com milhares de anos integrada, como capela, na igreja local. Um sítio a visitar. Entre as serras de Candeeiros e de Aire.

A Anta, o olho de água,

o céu aberto, todo o vento,

querem dizer a terra.

O coração, como a pedra,

salientam o sal.

Todos os dias se abrem assim,

na voz quente das gentes,

querendo viver, querendo o ar.

E das fragas das serras dos Candeeiros e d’Aire

chega com o vento a canção.

Saudades do tempo ido,

esperança desesperançada

do amanhã incerto, outono vindouro,

tempo de vindimas,

alegria deste povo.

Por fim, um verbo escapa da boca,

não tem palavra,

não se encontra no dicionário,

Vive nos montes

vem nos ventos.

Há um poeta que o ousa escrever

e só consegue dizer: Começar!

(Re)começar é importante:

olhos enxutos,

pés, bem firmes na terra.

Não há vendaval que dobre a oliveira

nem tempestade que mate o pinheiro.

Mesmo a noite mais enegrecida

traz sempre uma aurora.

25 Setembro 2005; 12H30’

Constantino Alves, Manuel C. Amor

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setembro 24, 2005

o pior sentimento é não ter saudade


à memória do meu filho Miguel

o pior sentimento é não ter saudade.
é como ter a pele numa chama
e os verbos já em cinzas.
Não se deve nomear a falta,
é preciso acreditar que tudo é aquele que
já não encontramos, com quem já não sorrimos.

O ar, essa doce e impossível consolação

Publicado por constalves em 06:02 PM | Comentários (9)

setembro 21, 2005

três para a uma


Quando a hora marcar, três para a uma
eu quero estar pronto de paletó e lacinho,
bricando com duas moedinhas no bolso,
à espera do relógio marcar uma.
Quero sorrir como aquele garoto,
com o sorriso abrindo o mundo,
com lacinho e paletó.
Quero que passem os três minutos, ficar uma,
entrar na casinha arranjada de florzinha,
buscar a felicidade de uma vez só.
Esperarei então mais três minutos ou mais,
depois da uma,
recebendo a bonequinha, de ramo na mãozinha,
esperando aquela lindinha, toda de branco
coberta,
lembrando toda a pureza de uma vez só.


três para uma, que felicidade vai começar
daqui a pouquinho, no futuro mais incerto
mas nunca esquecendo o meu sorriso aberto
e com todo o tempo para a amar.


três para uma...um tempo infinito...para a vida começar

Publicado por constalves em 11:38 PM | Comentários (0)

Autumnu



Esta casa tem o dom da poesia, dessa que se faz de folhas amarelecidas de plátano,
De ribeiros frescos, e de neblinas matinais. É um formidável polígono de um verbo lânguido
Procurando o orvalho , condensando a mais extensa palavra num tempo tão minúsculo
Como uma ideia, que se refresca num vento que se nomeia no sussurro da fala.
Tem portas para a saída mas, não se entra nela. È daqueles lugares que nos pertencem
que até agora só viviam nos outros. Autumnu, apesar de tudo uma palavra metálica.
É desse aço que não se fala no calendário.

Todos poderiam entrar mas, eu não deixo. Este é um ar de assinatura, que só eu poderei respirar

Publicado por constalves em 07:09 PM | Comentários (0)

setembro 20, 2005

Ainda não se percebe a manhã

Ainda não se percebe a manhã,
há uma nebelina que enfeitiça a luz,
poderá a cotovia anunciar o dia
quando a verdade ainda está no limbo da concepção.

Há uma esperança que não tem cor, que ainda
não se fez de homem nem de mulher,
está nas estrelas reticentes do espírito,
seja ele verdade ou inantingível razão.

Esse pequeno invisível seixo de esperança já faz o rebate na nossa janela,
mas nós não sabemos ainda as suas palavras e os seus verbos.


Saberá Zeus, na peripécia do seu louco mando, que nós, pequenos Aqueus somos só fome desse grande mar verde?

Publicado por constalves em 11:30 PM | Comentários (1)

setembro 19, 2005

Uma dor

Uma dor , numa lágrima pouco é,
Nem a guitarra gemida ou o pianíssimo piano
Podem deduzir este silêncio,

Que voem todas as aves no pranto, no sibilino som do vento.
Espalhemos as mãos na água,
façamos o longo suspiro do tempo.
Ai que saudade tão longe e tão perto…

Queremos a chama do Universo,

Precisamos do porquê do preto.

Publicado por constalves em 11:30 PM | Comentários (0)

O Outono não esperado


Aquela acha é um segredo, guarda-se assim uma verdade,
Com a chama empunhada na mão aberta
Fecha-se o sentimento no clamor da razão.

Os esquilos rolam as nozes, faz-se o negócio da folha caduca,
Passa-se o tempo com os olhos molhados, espera-se a nova flor
no coração.

Todas as dores estão imortais no Olimpo da Melancolia.

Publicado por constalves em 06:28 PM | Comentários (0)

setembro 18, 2005

Uma sede que se abre


Percebem-se os fardos, vidas e amargas solidões.

Curvam-se os cactos a esta água de dor,

Em cima voa a ave, já toda branca.

Publicado por constalves em 09:47 PM | Comentários (0)

setembro 15, 2005

Abre-se agora todo o inferno nos mares

Abre-se agora todo o inferno nos mares, até a cotovia, procura o grande lago,
O outro mundo, é agora o novo.

Já há muito que uma palavra pousa na ilha. (eterna)

Publicado por constalves em 11:25 PM | Comentários (1)

Aquela vela


Aquela vela, é o sino de todas as cores,
basta olhar fixamente o branco.

Publicado por constalves em 11:09 PM | Comentários (0)

setembro 14, 2005

Senhora das almas

Senhora das almas, vê este barco com cuidado,

Tem uma dor profunda, tem a inocência aberta.

Reza como eu, como uma pedra fria.

Publicado por constalves em 08:00 AM | Comentários (1)

O teatro está preso numa palavra


O teatro está preso numa palavra, é preciso voar com os pássaros,
perdoar a Ícaro, fazer do barro um novo Prometeu.

Como o fogo, um verbo incendeia todas as árvores, é preciso
buscar outra vez o mar, procurar Teseu nas viagens,
fazer o livro das asas. Não podemos amar, há uma regra
no deserto que é preciso desobedecer. As miragens
são a gravidez da alma, o sonho louco das janelas das praias.

Uma multidão abraça-se na morte de Macbeth. È o outro lado da lua.

O cálice transborda o dia. É preciso cuidar, o teatro está preso numa palavra.

Publicado por constalves em 07:50 AM | Comentários (0)

Sobre o mar

Todas as falésias falam agora,
Foi preciso o mar calar uma dor sua.

Publicado por constalves em 07:29 AM | Comentários (0)

O marujar das aves


O marujar das aves na tona do verbo inicia uma manhã aberta,
Como uma voz sibilina iniciando o segredo.

Todos os outros animais ainda dormem, sonhando uma palavra.

Publicado por constalves em 07:14 AM | Comentários (0)

setembro 13, 2005

Contando o vento

Mais uma corda, mais um rosário de palavras,
Para amarrar um verbo numa oração, lançá-la
No som que sai da tuba de qualquer coração.

O verde prado descansa, todos faremos essa preguiça
Nas quentes lágrimas correndo nos nossos rostos.

Publicado por constalves em 09:56 PM | Comentários (0)

setembro 11, 2005

POEMA DE DOMINGO



Ao Félix

o café desce com vergonha, a rua

negra e o alcatrão de açúcar

pigmentos do mesmo tipo

que a textura de domingo

passa a varina de verão

traz os peixes solares

água, prata, algodão

toda a páscoa a ressurreição

saem da cave metamorfoses

dos lugares onde a fruta

se encontra novamente

com a terra num elefante

que ninguém quer decifrar

todo o céu te espera

todo o mar farta o fim

todos somos o abraço que falta

todo o ar se abre na água

José Gil / Constantino Alves

Publicado por constalves em 06:27 PM | Comentários (0)

um titulo é outro poema



havemos hoje de ir ao mar

um titulo é outro poema

uma mensagem nasce na

maré mais solta que uma onda

de terra, a outra invade a rocha

e perde-se.

a cortina abre o teatro

o teatro é a perna e a mão

uma rosa perfilha um cravo

os passos dão-se lentos

como se dá o pão

jose gil / constantino alves

Publicado por constalves em 06:25 PM | Comentários (0)

UMA POMBA

o livro é o inicio da pintura

e uma sala plena de canetas

a musica, sempre alta

todo o som, toda a sala

posso sorrir ,a canção abafa

o próprio murmúrio de quem

está a sonhar.

na sala só livros,livros só,

eu sei que é pouco.ainda resta

uma pomba e um ponto final.

constantino alves / josé gil


Publicado por constalves em 06:23 PM | Comentários (0)

o mar preso na liberdade


Qual a luz que ilumina a parede?

Qual o disco que toca na sala?

Qual a palavra da boca rubra?

Qual a parede onde descanso

onde o musgo faz a História?

Qual a musica que a invade

da luz para a boca repetir?

Um lugar para o carro

outro para a ilusão

Uma gávea salta no barco

é o mar preso na liberdade

toda esta manhã é de chamas

toda a noite corre na água

até saltar o verbo amar

José Gil/ Constantino Alves

Publicado por constalves em 06:21 PM | Comentários (0)

UMA MANHÃ


as aves brancas atravessam o brilho

no metal da manhã bate a luz no espelho

a chávena chega com grãos de letras

uma bica é um quarto, sala, cozinha e wc ,
na minha cabeça a cartola.
uma língua uma palavra.
um aperto de mão, uma fragrância
uma sólida construção.

habitamos devagar os lugares marcados

como mapas terrestres onde o dia azul

faz-se tempo e avança os caminhos.

viajo até que o sol se esconda

na rua mais clara da cidade.

CONSTANTINO ALVES /JOSÉ GIL

Publicado por constalves em 06:16 PM | Comentários (0)

setembro 07, 2005

O espectro da manhã

Havia uma voz, um arco íris de silêncio, formava-se a nova bruma.
Tudo o que era preciso era o Sol instruir o mundo outra vez.
Fechou-se o túmulo, percebeu-se o fogo ardente das gargantas. Restava
A luz.
Começou-se pelo poema, começou-se pelas mãos, começou-se por beber o rio.
As aves voltaram outra vez. Agora Não havia voz.

Publicado por constalves em 06:11 AM | Comentários (0)

setembro 06, 2005

Olha aquele branco

Olha aquele branco, aquela cor sem vazio,

Aquele peixe formidável que engole toda a água.

As nuvens, as chaminés, as casas prometem a serenidade.

Aquele balão subindo pode ser todo o ser.

O rio rindo com os seixos rolando, podem dizer todo o dia.

Olha o deserto saindo da enciclopédia pedindo amor.

Podem as cataratas dizer a voz por detrás?

Toda a gente subindo a calçada querem dizer basta.

Qualquer criança escrevendo poesia num soluço chorando,

Procura a mãe.

Eu não posso mais filho. Todo o céu não será demais para nós.

Amo-te.

Publicado por constalves em 12:39 AM | Comentários (2)

setembro 03, 2005

"Como uma página que nunca se vira"


o som triste dos carros, as sirenes apagadas logo na manhã,
o tremor dos sorrisos abrindo a vereda dos silêncios.

uma estrofe da tempestade vida. um sopro e tudo se fará outra vez.
Agora precisamos de ter nos bolsos qualquer água de um novo dia.

Poderá surgir na manteiga da torrrada ou no café urgente das 10 horas.


Eu gostava que o teatro também cumprisse a poesia, será preciso
retornar o actor. A essencial vertigem do mundo, a nobreza do amor.

Publicado por constalves em 08:04 PM | Comentários (1)

setembro 01, 2005

O novo mato

O novo mato cresce entre a floresta ardida , é um poema, soletra-se de cor , tem a cor vermelha, chama-se pela boca.

Um amor

Publicado por constalves em 05:22 AM | Comentários (2)