
Por motivos pessoais, interrompo a edição de "Diário Poético" que tentou , durante dois anos, estar convosco da melhor maneira, tentando fazer pontes, da minha voz com o mundo. Quase sempre úma voz unívoca, como no caso dos blogues o é mas, registo inúmeros abraços de leitores ( e para mim os leitores são os melhores poetas) que me deram o inestimável eco das suas leituras. Tudo isso teve sempre reflexo no meu trabalho, na minha pessoa.
"Diário Poético" será interrompido pelo menos durante um ano, até lá ficarão todos os arquivos disponíveis aos visitantes.
Serei também leitor dos vossos blogues, talvez, agora mais atento aos outros.
Um abraço, até sempre!
Constantino Alves

O ridículo do poema, é conseguir
O dia numa pétala negra,
O poeta é apenas a sílaba que falta,
Mas desenganem-se que não é homem,
O hábito que usa é só uma pena,
Mas há aço nas mãos e nas pernas
E um peito cheio de tinta de sangue.

uma pedra, uma roda, um elefante.
Tudo se pode combinar:
é isso a produção.
Nenhum letrado sabe de engenharia, mas sabe de criação,
Lê, devora o texto.
A literatura está na linha de montagem.
O elefante puxa silenciosamente a carroça dourada de uma roda com a pedra filosofal. um engenheiro,
um poeta da criação.
Um poeta, um operário em construção, a pedra é o motivo, a inspiração, todo o elefante é poeta
como tu, como eu, que construímos o verbo na sílaba, na voz,
que dá força ao elefante para puxar a pedra numa roda só.

Já se levanta a manhã, um pintassigo pintassilga
a difusa neblina.
Que melhor segredo para contar aos outros.

a negra tinta é o sangue do verbo,
que disso se pintem os palácios,
as pontes decrépitas, as janelas góticas,
as estátuas defuntas.
Não precisamos de arabescos para a morte,
Que se a pinte de verbo, de morte.
Precisamos dessa luz, para ver.
Com essa negra tinta posso dizer os mastros do Oriente,
Posso dizer elefante, mar infinito, odisseia ou continente.
Esta escassa luz minha é um farol para ver na noite.
Posso incendiar de negro o Ocidente, precisaríamos de outra
Combustão do tempo. Precisaríamos de máquinas, de silêncio
Do mar nocturno, de desdobrar o terror nos dentes, fazermos
De Atila , de huno brutal e sanguinário, de britar pedra do ofício,
De responder a perguntas, fazer abraços com panos, comer cera
Das odes. Precisamos da cor da lua, quando ela nos virar as costas,
Precisaríamos do fim e ele não estar lá quando precisássemos.
Podemos voar nas costas das grandes aves brancas e conhecer todas as pedras,
Seríamos um melhor poema.

Sómente uma folha, um acre de poema.
sómente um intervalo, um espaço para o poente.
Qualquer verso de Pessoa, de Andrade ou de Rosa.
uma linha direita, pode ser uma semi recta, onde dizer
nascente, outro dia diferente. Um botão, uma pétala expandida,
o oiro da língua, a praia deserta cheia de gente.

Os três formávamos um triângulo
Naquele instantâneo
Batidos pelo sol, zurzidos pelo vento
Alguém riu (na face isósceles do retrato)
E todos amámos
Nós os três
Ficámos família
Sempre!
poema de 2001

É mais fácil falar de uma pedra, da sua imobilidade,
da textura da sua face lisa, do rosto branco da sua alma,
eu que não sou pedra, não sofro com a sua inércia ou com
a inocência da sua ausência de cor, sou de carne, nervosa, áspera de sangue,
viscosa de verbos. Não sofro por quartzo, por micas ou basalto, a sua baixa temperatura desliga-me de sentimentos. é uma pedra, ponto final.
Um seixo para rolar na montanha. A redundância.
Eu, tenho a montanha, a metáfora gigante. busco a nuvem, alcanço o impossível coração.
Era preciso um diário, onde eu visse este quadrado, pudesse ver o verbo
do mistério, ou da palavra desencontrada, por isso se usa as reticências,
o peseudónio barato, ou o grito suave do milagre. Se faz assim a mesa, onde pôr este pão, começado agora neste sucalco do Poema, na boca de uma Preta, nas mãos do Senhor.
Tudo é tão certo, que até parece impossível o mistério. O segredo é nenhum.
Por isso a pedra, só a pedra, a pedra só, sem nós.

Como se um cântico subisse voando, e levasse um sinal
feito de luz de um verbo: um rasto de emoção. Soletrar, a sílaba difícil,
o ditongo oratório do sentimento, o coração, essa ponte impossível com a razão.
As mãos abertas, de palmas alvas, como aquela paz da bandeira branca incauta.
Como se da guerra rugisse a voz humana para dizer que não basta existir . Pomos
uma palavra completa subindo o céu, outro sinal de inocente inconformismo. Outro verbo.
Outra força se fará agora ,nos olhos, nas mãos, nos joelhos: far-se-à o lenço, mas não bastará.
Muitos pensam que não há céu.