
não há palavras,
elas não podem estar lá,
na voz fechada.
Há outras coisas na língua,
um troar de verbos e silêncios.
coisas frescas e memórias, planícies vazas.
Promessas, juras.
Como um sepulcro em lava, magma.
um luto pesado é uma pedra, oficina
da alma.
o ritual iniciático, por todos...
...como irmãos,
pouco o nada interessa,
explosão!

Eu irei ao Hades buscar-te,
preso a mim pela boca,
pelo sonho que me fizeste
parir nos meus passos.
Irei trocar-te pelas minhas palavras,
por essa noite escura,
ficarás cá em nome brilhando,
que é muito mais que as estrelas
que se reflectem nos meus olhos,
por seres mais em saudade,
que o brilho aparente da luz.
Irei ao Hades jurar-te que Zeus
se arrependerá da ambição
de reinar um mundo
onde o teu olhar não verá.
Irei ao Hades resgatar-te
em todos os poemas que foste,
para que Gaia te faça cá em energia tão pura,
e se faça de novo a fresca manhã.

uma linha recta.
uma linha mãe, que separa a paisagem,
da semente e o fruto. a árida charrua,
da seiva que alimenta, a flor,
a virtude do meio.

Qualquer coisa de luz,
que se veja como uma palavra,
que se goste com o sentido,
que se perceba como um verbo.
qualquer coisa, como uma pedra,
desse tamanho de alma,
tão dura como a fé,
ou outra coisa,
que se invente em amor,
qualquer coisa da vida,
do segredo deste mundo,
que se louve,
por fazer a nossa esperança,
que se leve no peito como memória,
será suficiente,
como epitáfio da nossa existência,
do corpo se fará pó.

só o teu olhar, uma sereia de seda, os teus seios cómodos e redondos,
só o teu beijo, um verde aqui, as tuas mãos propícias, uma nuvem mais branca que as outras, as tuas coxas sublimes de chocolate, o teu verbo da língua,
só um tempo e um espaço, o teu sorriso macio, uma água em rio, o teu segredo da tua pele, um domingo, uma ostra de alabastro, a tua fantasia em amor, uma terra húmida em planta, todo o azul
todo o azul e o branco
e o branco
não cabem na minha boca.
soltam-se ventos nos poemas, o mundo há-de girar!

Dança o flamenco na minha boca,
tece o passo sólido da emoção.
Se houver dia amanhã, faremos o amor
Completo.
Em duas palavras combinadas no levante do sol.

falar devagar, o dia prestes a chegar.
reservei uma cadeira encarnada, o
futuro mudou de lugar. Faz-se luz,
há vento com as palavras,
a lua cita de cor.
toda a noite esperei voar.
as andorinhas tiveram ordem de voltar.

nasce da alvorada uma ideia,
que os homens a tomam como missão,
com o mundo fazem um corpo
que se bate por uma alma
por onde se constrói o artefato da própria vida,
quando chega a noite já se jaz em sentimento
que a lua permite como fim.
Disto, nada sabe o sol,
que na noite combina com Deus outro dia,
para que não se repitam as palavras,
nem se crie o já feito,
que o outro dia é também o futuro que Deus não sabe.
Andam assim os homens nos dias como coisas essenciais,
gravitando no mistério demonstrando as incógnitas .

Doer-me-às sempre. Em qualquer pálpebra.
Em qualquer palavra, em toda a sede, em todo o meu amor que fizer.
Serás, assim tão pouco meu, tu tanta falta serás sempre.
Agora, no Verão que aí vem,
haverá sempre um pássaro preto voando esplêndido
no azul do céu.
Será fácil amar-te assim muito.
Mas será tanta pena ser esse voo no alto do céu,
onde não posso chegar..

Ai que saudade, nesse precipício,
com uma vertigem em palavra, dor.
Ai a perda, que é o nosso corpo ruindo na falésia do verbo.
A queda , as palavras que faltam. Como se pode fazer assim futuro,
nesta voz decepada?
Todas as pedras me assistem doendo memória.
Ai como eu quero abraçar todos e saber o que me falta.
Que se faça o altar, viverei assim de boca aberta.

Estou perdido neste deserto,
onde os homens fogem como pássaros em migração.
Um sítio onde não se descobrem palavras,
nem se bebem emoções. Um nada inventado
na solidão. Um verbo sem imitação. O poema sem inércia.
Uma mulher vazia de seios. Um ventre opaco estéril.
Na solidão.
Um sítio onde se já fez o carinho, onde nem ódio
pode habitar. Sem voz, como um começo mudo de uma canção.
Este deserto da invenção, este nenhure de nome, este antónimo de sentimento,
Este degredo de vontade. Esta obesidade do eu.
Só há vento, tão mudo como uma estrela distante, que diz, irónico contente:
Não irás, não serás voz.
Em todas as sílabas procuro a chave de um grande poema.
As palavras acabam
Melodramaticamente em fim. Mas neste meio só se saberá o começo,
Esse longínquo sentimento só perceptível no verbo, que só estará,
Aí. Nesse ouvido em olho, de qualquer pedra do deserto,
Que já foi gente, e eu sei não ser ninguém.

Que doce noite nesta palavra pequena,
Lua. Ventre noite, feto de poema,
Mãe de todas as palavras.
Como uma chama, arde indelével no poema.

De todos os cárceres das sombras.
Nesse rodopio do não, circulam as luzes fechadas,
As vozes tapadas nos lenços da diferença. Não.
Podia-se começar ao contrário,
com uma rocha preta quebrando o iceberg, a força-luz
estragada.
O óbice como uma estrela. Devia ser o mar outro rio.
Correr sem bordas, como na ideia, na generosidade.
A lua de todos os contrastes, também é luz.

Passa depressa aquele amor, porque não é amor.
Desta dor tão funda, acendem-se todos os dias.
Deste outro amor, outro segredo, outro fim.
O perpétuo calar das palavras na enorme emersão do sentimento.
A nossa face presa no teu retrato, com todas as palavras ainda não inventadas.
Um amor sem adeus.

de repente aquele vento perdido,
como se os segredos voltassem assim tão perto.
os pirilampos, luzindo na noite, os pães do sábado à tarde,
o leite natado.
Faz quarenta anos de silêncio, esse vento tão querido!
à beira doutra vida, tão feia e tão esquecido.
Que se ponham as mantas nas pernas, que se lembre o tempo.
Que se faça agora o café, se troquem beijos, se lembre o perdido.
Nesse trôpego passo se abre outro prazer,
a memória subindo ao trono, a saudade o nosso servo.
Paris em todo o lado, em toda a cabeça,
No meu corpo. Não me sai de cá.
Ficou fazendo Folies Bergéres na minha imaginação.
Paris, em todo o lado, roendo a corda da Europa fria,
Da megera verdade cristã. Paris rota exacerbando
Toda a arte, bebendo todas as palavras do silêncio. E o nada
Mortal cavado em Paris em todo o lado.
Em todo o lado Paris! é urgente descongelar o meu ordenado,
Fazer promessa na minha felicidade, fazer fé no descalço.
Paris cheia de tão grávida já, em todo lado,
Fecundando as ruas desertas, todos os poemas ainda malditos.
Nas livrarias, nos urinóis, nas escolas, nas esperanças espavidas
Neste deserto de ideias.
Paris, é preciso que Paris se apresente na tropa, no palácio de Belém, nos reformatórios,
Nas adegas húmidas do vinho do Porto. È preciso que este Paris que está na minha cabeça passe para outra cabeça,
Se faça uma cirurgia estética nos poemas rarefeitos, que se humilhe a humildade, pois, porque eu quero que Paris
Derreta todo o Oceano entre Brasil e Angola, que Espanha engula Espanha e se faça o Poema político eterno.
Se faça de novo Paris, dos escombros de Paris, se abra o Sena no meu Liz. Se faça a guerra civil das rosas.
Se faça o Caos na Esperança. Este Paris não é o que vocês pensam, vai muito além, é uma dor muito fina
De amor, é um rio contínuo de casas e mogadouros recentemente descobertos na minha memória. É uma dor
Tão grande como Paris, que ainda não entrou na minha caixa do correio, de tão longe está nesse céu impossível de definir.
Tantas casas do Alentejo. Tantos fontanários das Beiras, tantos risos, tantas vontades simples às 8 horas da manhã.
Esse Paris impossível de definir, é preciso que esteja em todo o lado. Paris que me entre das orelhas para dentro e para fora,
Paris das bicas, das conversas e dos abraços. Paris das verticais e das oblíquas, Paris sempre Paris.
Não pisem Paris, esse é o meu testamento, diz que temos de olhar por nós e olhar de frente os outros, diz abraços, diz
Celebrações, diz continuidade, diz amizade.
Valerá a pena Paris estar de todo o lado, debaixo e de cima, espreitando o sexo, bebendo os verbos e as palavras, fazendo árvores
De laços?
Este Paris de bola preta no meu ouvido, que não quer ouvir ninguém dizer hipocrisia, nem bem-haja, nem porra nem merda.
Este nenhure de poesia que se instalou como Paris tão elegante capaz de dizer caramba a quem passa, este silêncio de consentimento,
Este resmungar cabisbaixo. Paris não levará a mal eu dizer que há fome na minha cidade, nem dizer que o Benfica ganhou. Eu sei , Paris é só um poema, Sim, não, não é uma anedota, é um ponto de exclamação, é um rato rinoceronte que se satisfaz ao sol da manhã, que ouve a lua roçando a minha pestana, que adormece em qualquer palavra. Não, Paris não está a arder, não é preciso sangue, não é preciso qualquer chama nesta paixão que consome. Paris será sempre Paris, talvez
Não seja preciso ler mais, o que eu disser está dito e redito na Bíblia, no Origem das espécies, no D. Quixote de La Mancha, Na interpretação dos sonhos, no Capital, Na Ilíada e na Odisseia, Nos princípios da Física de Newton, podia-me contar Einstein, ou Galileu, mas assim fica mais fácil, destruindo palavras do meu corpo,
Reinventando outro hidromel dos Deuses, sentado à beira desta Paris adormecida, fazendo-se passar por única verdade, elevando o verbo à magnitude
do sentimento.

coração rima sózinho,
no ribombar das suas batidas,
que fazem eterno amor,
nos olhares em palavras.

tão longe esse olhar,
tão longe esse som de outro mar,
como se a brisa do amor nascesse distante,
no tão fundo coração.

o mar, todavia as flores que me estão perto.
esse jardim de sombra azul infinita, essa luz
de palavra extensa que propicia um verbo úbere.
tudo em globo, completo.
Noutro mundo se diz alma

a noite a correr úbere,
nos silêncios e luzes,
que faz acontecer tempo,
em palavras presas na alma.
Como se quisessem dizer futuro,no abrir
das pestanas, olhares e quasares de vida.
Noite, escura, mas preste a dizer voz , humana.
Levo mais do poema, do que da rua deserta de almas.

Para sempre Outono
Para sempre este dourado aberto na flor da Primavera.
Para sempre os teus olhos com os meus neste canto
onde a tua folha brilha, e os ventos tépidos se fazem de doces segredos.
Para sempre a tua tez d'oiro na minha face, a minha mão na tua,
no sossegar do pranto. Para sempe envelhecer com um sorriso nos lábios.
Saber sempre devagar o nosso cálido menino. Para sempre a nossa filha,
na torrente dolente do amanhecer.
Para sempre beber, como deve ser, as palavras dos poetas
que nos encontram devagar.

Mataram-te, não morreste.
Nas últimas contas, não conta para nada.
Mas que se saiba da tua inocência. Agora.
Para que conste do teu poema presente. Mil a zero em glória, na comparação com o assassino
O Epitáfio, que seja.

de sempre, a sinomínia do tempo.
a pauta do caminho.
por onde se come o pão, se faz a oração.
se faz a voz, se faz o corpo.
se faz a esperança, a fé.
Por onde se arde efémero com sentido.
Se age sem passos.
e o voo é ainda o parto do verbo,
que por ser tão prenhe,
está tão longe na frente.
se faz tanta dor em rio. se faz.

Deixa-me ter uma lágrima sempre nos olhos por ti.
Deixa-me sempre esta saudade dolente na voz. Divide connosco o teu sorriso.
Precisamos de ti, sempre aqui,
Nas palavras à frente doutras palavras, nas nossas emoções.
Não faremos segredo de ti nas tuas visitas. Beberemos juntos um café.

Parece uma estátua, está prestes a mostrar a silhueta.
O lúmen que se solta destas palavras, brilha, por ser puro e bom.
Está em mim, não sou eu. Agora fala, mostra deslumbrante a voz.
É um lago e é o meu filho. Desse sítio continua a ver-se a ignomínia.
Dói-me uma mão, já sou eu com uma missão.
Continua assim saudade, nunca te esqueças de nós.

fazer de 4 letras
uma frase melódica
empoleiradas num fio
violento de vida:
"bebe o dia no firmamento da palavra"
pode ser assim Jazz?

manchando, sujando,
fazendo errado, ao contrário.
descobrindo a cara num carvão húmido,
abrindo os olhos em giz branco.
invertendo a luz eléctrica,
em rio por todo o caminho

Se faça a vida como esta noite de Setembro,
curta, muito fresca e plena.
no pleito de um verbo e mais que isso
fecunda como o sol na lua aberta.
A vida, essa íris rica num olho cheio,
que nós em palpebra guardamos como relicário.

Novamente mãe,
Tudo outra vez em azul,
Outra estrada outra vez,
Tudo começa, mesmo perto do fim.
A mãe! Para que serve o inventado Deus,
Quando se faz sempre esta ininterrupta árvore florir.
E às vezes só precisamos dessa palavra bem no fundo do coração.

Faria um traço,
Uma boca com um fim.
Um silêncio com a dor em aberto.
Tudo pintado de preto. Fresco.

A musa descobriu a luz.
Um rato correu aos seus pés. A terra.
O poeta escreveu o que lhe pareceu a luz.
O rato correu aos seus pés.

uma árvore cresce pelo princípio,
pela vontade da semente.
Um poema pelo fim, pelo desespero do canto.
Não há coisas tão iguais, pela flor do verbo.

Não há engano com a morte, é esse corredor vazio
vestido de negro, fazemos mistério dessa ignorância,
esse retrato barroco do medo é a morte, em trocados,
construído do preconceito, a morte devia chamar-se pergunta.
Ao corredor, silêncio, medo. Não há engano, é aquela resposta que tenho
na mão fechada do poema, para quando chegar a pergunta.
Posso continuar a vida, o sangue a correr.
Dói-se de silêncio, dói-se da solidão sôfrega das estrelas.
Dói-se da terra áspera das palavras. Dói-se do fim constante e perpétuo.
Cada nome procura o verbo. Cada verso procura a espalda da existência.
Podem agora os livros abrirem-se, e o poeta cair noutra nascente

Olha a fome na tua bica,
No teu comércio do trabalho,
Nas promessas de utopia.
Hoje, o teu voto na urna devia ser pão.

Tão pouco mãe, tão pouco terra e tanto mulher,
Falo daqueles olhos maiores, que não são palavra, que são quentes,
Daquele ventre tão grande como um verbo, tão pouco serpente, tão grande
Como uma dor, aquele sentimento em corpo que faz ser mais que qualquer outra gente.
Não, não me atrevo a chamar-lhe mãe, é tão pouco todo o céu que já pude ver.