Cantem os deuses nesta hora tão branca,
Desta “ex machina” implacável,
Ai sucinta tragédia não seria,
Ver estas medusas, gorduras,
Dominarem o planeta, minha cozinha.
Qual titã providenciou esta bela invenção,
Prometeu por certo saiu do penhasco,
Matou esses abutres de Zeus, esse
Que pelo seus tamanhos pecados
também soltou
da pandora tamanhos micróbios.
Oh! Prometeu que nos destes
Esse também formidável “fogo” “Zanussi” e “AEG”,
Pudera também Cristo, que tanto te copiou,
Pudesse fazer essa parábola:
Limpeza e lavagem a 60º,
Reerguendo o morto do Sepulcro,
Eu,
Que não era mais que um súbdito
desse imundo Hades.
Ai Antígona, do meu corpo imundo,
Manda-me também uma máquina,
Para me banhar em autómato,
Mesmo que a lei de Creonte não o permita,
Está em jogo mais que Tróia,
Este mundo.

Pequenas coisas são pequenas coisas,
Simples, emprestadas, dadas noutros tempos, agora tão precisas,
A casa abandonada.
O oiro doutro tempo levado pelo vento,
Não pára. A árvore envelhecida.
Não sei de nada.
Fez-se assim a minha cara, pálida.
A mina procurada, palavra desejada.
Não há, gastou-se levada no ar,
Por outra janela estragada.
As flores, as rosas, os cravos na nova jarra,
Não choram outro tempo, mas não são nada.
As chaves partidas. As rugas enlutadas.
As novas luvas na mesa.
Outras conversas, fazem agora rezas,
As frases desencontradas, neste tempo de nada.
O pátio partido, o jardim começado,
O novo inquilino, inclinado.
Precisava agora daquela varanda, o lago espelhado,
Reflectindo a luz coada pela língua
Construída pelo bairro. Não tenho agora.,
A solidão na casa. Por essa casa já não há nada,
Que foi oiro que reflectia, vivia,
Foi vereda, agora só vala. Um país comprometido.
O muro sem telha.
A voz humana deslavada, na nova casa. Lua,
O que tenho no vidro dos olhos dela,
Esse pintainho que agora vive tão infinito
Como a casa abandonada.
Os retratos guardados nessa outra casa.
Esse cipreste verde, agudo.
Tão grave o meu uivo, um lar sem lar, alugado.
Por entre este vento, na fresta deste frio,
Caminho, como o coelho, branco. Da neve
Já deitada. Olho o campo, aberto.
A mãe não esquecida o meu irmão-filho,
Tão exausta a memória. O portão de verdete pintado.
Faz-se Shalom no Leste. Na nova casa,
Faz-se um chá quente. Na nossa conversa na cidade,
Não se sabe o que se soube. O velho agora não presta.
Toda molhada esta dor recente,
Não encontro nova luz no novo belo,
Um soberbo pinheiro,
Que se ergue como uma asa,
Tudo cheira a novo dinheiro,
Não tem os ratos sábios dela.
A longa triste inútil agora, a casa,
A casa por todos abandonada.
Constantino Alves , Lisboa, Julho de 2006
Um dia,
que se faça só para ti,
que se forje um verbo, assim tão branco como uma flor.
Porque essa noite não é tua, esse negro não é a tua vontade.
e pelo claro se pode comungar a tua verdade.
e só essa justiça te posso fazer aqui.
para sempre palavra branca que já és.
um poema pequeno
como a pequena papoila
que é sangue
e não sabe...
ainda agora cresce
e já sabe a coração.

"Papetimameli",
em palavra de palhaço,
é sinónimo de riso
por ser tão engraçada
e não pretender dizer nada.
"papetimameli", por acaso,
uma coisa, de rir,
no mundo do nada,
neste deserto onde se tem que
pagar a água.
"papetimameli",sai da boca
como verbo,
que quer fazer rir
a palavra bem educada.
"papetimameli" tão louca que
não dói nada,
vem deste coração magoado,
de onde rir é nascer água.
"papetimameli"
palavra para ficar aí,
na boca na alma,
que este mundo é tão triste
e um sorriso vale bem mais que nada
"papetimameli", use por favor,
vai ver que não dói nada.
palavra de palhaço.

Que se vive de amor,
de se obrigar a vontade,
que se faz dela a dor.
Só se sabe da importância de nascer
e que no pleito é-se gente
e para morrer, é como o sol poente,
em estrambote, morrer-se em verbo candente.
Que da vida só se sente,
que a razão sublima,
tudo o que se tem,
é esta pouca coisa na mente.
esta certeza que os outros
nem sempre sabem bem
que a vida que se fala
é só poesia, poema
coisa da ideia, pois
mas que faz o vulcão expelir a lava.
A vida tem que se viver,
em mandamento moral,
porque da morte não se sabe,
nada que se conheça em vida.
Que se viva do ar.
Este céu ainda tão novo,
e que já tanto arde.

a noite, tão clara na razão,
a lua tão sol no poema,
a voz tão prenhe na boca.
e os cavalos no galope da madrugada
erguem cíclopes a pradaria...
já a cotovia prepara o canto,
ainda se fazem as adivinhações do novo dia,
que a batalhe se prepare das mãos brancas,
e a guerra seja a alma,
que os cavalos já galopam a pradaria.

Verei o céu, colherei o sémen da palavra,
Respeitarei o vento, farei à terra uma homenagem,
Procurarei a hora da madrugada. Sonharei como o morangueiro,
Naquela alvorada doer-me-à o peito, pela semente
Que sairá de mim pelo canto.
No poema, que me habitará eterno no Inverno,
Desejarei ávidamente o fruto,
No Verão, voltará um doce vento,
Que se fará do Inferno dentro,
Ecoará da minha hibernação um grito estupendo,
Do morangueiro explodirá um inequívoco morango

Semear,
Que mais posso fazer,
Que a pôr na terra,
Para fazer outro sentimento
Maduro,
Que a faça de novo em semente,
Para que haja outro fruto
Que eu só descubro na palavra…
A vida, que haja, novamente,
Noutro homem,
E da mulher, outro verbo,
O filho, outro alter fecundo…
Semear,
Porque importa nascer.