na morte do grande poeta português surrealista

Que diabo chegou o ponto final
Daquela Pena Capital,
De existir em pastelaria
Que se abra a estrada em liberdade
Livre se ame amando ar.
A flor na gaveta dos Prazeres
Se fique guardando
Na tropelia do dizer,
A voz soando vibre.
O epitáfio anónimo
Do individuo universal.

A vida serve para ser falada,
De qualquer coisa ou de nada,
Fazer o cipreste da saudade
Ou o vidro da novidade.
Crer em palavras molhadas
Rir das dores naufragadas
Corrigir o infinito sonhado.
A vida e falada e ainda vivida
O melhor que se pode tirar
Desta existência incompreendida.
Porque a vida e o falar
É o moinho
Do pão
De cada hora
Mesmo no lamento e na voz desesperada.
Para que se saiba e se faça,
Outra vez o poema ensinado,
Se abra de novo o peito
Mesmo que por nada.
Pelo sol e pela lua,
O vento e a água,
Que dos homens
Continua a charada.
Pelo coração pelo amor
Pela verdade que se saiba,
Que viver é o desespero mais nobre da Terra.

Nesta noite quebrada,
um saxofone em solilóquio proclama,
a dor, no beco escuro do coito interrompido.
Cleopátra em cabelo escarlate dói-se,
Na espiral da pista de dança,
Um mundo perdido na face obscura da lua,
Alexandria, babel de cultura rompe-se
Num Tom Waits extrovertido, mãe!
È de néon o falcão que voa albino,
Faz-se de grito ísis na mulher deitada,
Na vitima refugiada, na prostituta mais puta,
Na dona de casa. Cleópatra,
Dança ainda mais louca, enxuta,
Desvingada da sua mais louca inconquista,
Do macho no seu seio, no mundo
Perdido outrora a seus pés,
Mais um chuto, na veia,
Ìsis não conhece outra presa,
Um saxofone fala com ela.
A dor cresce em império
Em sexo si maior.

Destruí as árvores dos sonhos,
Não separei as palavras da dor,
Não respirei a saudade,
Polui, num à vontade suicida.
Porém a minha vida por fim.

Já conheço toda a ilha,
estou por toda a parte,
não me repito,
sou apenas a ilha.