fevereiro 24, 2007

Quase morto X


Quase morto por promessa

Quase morto por promessa,

A jura tatuada em palavra

De ser feliz.

Porque a vida não interessa,

Verdadeiramente não presta,

decompor juros, cautelas, forrar paredes

no corpo de lógica e croquis

e esse amor que andar por aí,

sai levado na palavra

entre o corpo e a terra

ou no epitáfio da pedra.

Quase morto em promessa

Não me resta outro cair.

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Quase morto IX


Voltei à janela

Voltei à janela,

Do largo, as pombas

Do sussurro a luz.

Aquele vento, aquele diz,

O momento.

Todos os dias há esse tempo, a temperatura do teu corpo,

A bondade dos teus dedos,

Todos os dias me arranho nos braços,

Do que me falta do que nunca fiz.

Esse vento, naquela janela, para deitar os olhos

Cá dentro,

Talvez para sempre feliz

Publicado por constalves em 03:57 AM | Comentários (93) | TrackBack

Quase morto VIII

Quase felicidade

Um sono profundo, uma pétala branca

No sonho.

Todas as tentativas vãs.

Uma pétala branca voando.

Copérnico estudando a equação astrofísica:

A felicidade rodando,

No carrocel da solidão.

Universo querido.

Publicado por constalves em 03:56 AM | Comentários (972) | TrackBack

Quase morto VII


rimance

Essas ondas do cabelo de tanto mar,

Esses nossos sorrisos e outras coisas nas palavras,

Os nossos braços um no outro,

Nossos filhos a navegar.

Outro mundo na noite, outro marear,

Preso no luto da lua,

No rimance da dor.

Quase vivo nesse olhar.

Publicado por constalves em 03:55 AM | Comentários (220) | TrackBack

Quase morto VI

Sem pressa

Não se anda depressa, não se olha,

Não se abre a carta, todos fazemos devagar, sem

Pressa, a nossa morte com vagar.

Esse infinito olhar, esse hálito de respirar,

Como poderia ser de outra maneira

O nosso ostentado caminhar

Cada passo, cada vírgula, o nosso irónico gozo

De desfrutar.

Tanta chuva caída em palavras, tanto aço em verdades

Tanta carícia no amor,

Do que ficar, ficará gravado no tempo,

Como desespero do pleito

Desta ogiva que me cresce no peito,

Existência, que um dia na pedra um deus gravará.

Publicado por constalves em 03:54 AM | Comentários (2) | TrackBack

Quase morto V


Onde estarei

Onde estarei antes de nascer,

Este ínfimo pensamento que me parece todo mundo

Onde estará esse mundo mesmo antes do bing bang.

Quem sabe o que não diz e não quer dizer

Como se faz para saber

Onde irei neste caminho, serei?

Qual a porta, qual o prédio onde mora

Este verbo como resposta de só interrogar,

Como quem o quê

Para quê

Quase morto não saberei

Publicado por constalves em 03:53 AM | Comentários (0) | TrackBack

Quase morto IV


Em poesia

Não podia haver saudade,

Nem tarde,

Nem a verdade

Todos poderíamos viver em poesia

Sem idade.

Se a falta da morte fosse vontade.

Publicado por constalves em 03:53 AM | Comentários (13) | TrackBack

Quase morto III


Morreram todas as pedras

Morreram todas as pedras,

quase todas as folhas,

algumas flores.

Quase todos os meus dedos como pedras,

todos os olhos como as flores,

talvez todos os segredos como todas as folhas.

Mas morreram todas as pedras.

Sabemos isso quase todos os dias

sem que os olhos lacrimejem

sem os dedos. Com as flores sorrindo,

Com as folhas procurando chão.

Publicado por constalves em 03:52 AM | Comentários (96) | TrackBack

Quase morto II


No Céu

Em todo o lugar

Antes de morrer,

Um postal ilustrado vende o céu,

Uma palavra castrada à procura do seu corpo.

Sinceramente não lhe abram as vossas feridas.

No céu de repente,

Em qualquer funeral.

Publicado por constalves em 03:51 AM | Comentários (42) | TrackBack

Quase morto I

Quase morto sem mexer,

Sem frio sem cobertor,

Com pequenas palavras sempre dor,

Quase inerte de pavor

Como se a noite engolisse de manhã

O vulcão de amor.

Publicado por constalves em 03:50 AM | Comentários (0) | TrackBack

Dores

Arde bem a noite

Onde se prantam lírios azuis,

Saem das tocas vorazes

Verbos de bocas abertas,

No escuro,

Das coisas maiores,

Dos muros

Das nossas dores.

O mundo invariavelmente pequeno..

Publicado por constalves em 03:49 AM | Comentários (0) | TrackBack

Amor

Palavra cor,

Ébano branco, flor.

Amor, que se faz aberto,

Com rios em braços beijando o mar.

Publicado por constalves em 03:48 AM | Comentários (6) | TrackBack

Equinócio

Isto espalha-se pelo corpo,

Pelos olhos pelos dedos,

Nas estrelas nos deuses,

Esta vontade,

Toda a saudade,

Como a luz na Terra,

Quando a sombra na lua,

Faz a eclipse da palavra nua.

Isto ergue-se fala mais, vê,

E consome-se num crescendo arrebatador,

Anti-matéria, nuclear,

Mais que a ideia da existência,

Depois do amor,

Completamente verdade.

Publicado por constalves em 03:46 AM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 05, 2007

Sem título nenhum

Só te acho nesta letra, neste dó de pauta,

Nesta dor de lágrima, só te acho assim,

Nesta misericórdia por mim,

Neste finado de alma,

Neste sim cabisbaixo,

Tão alto, por esta falta tão grande

E eu tão pequeno,

Nesta ínfima letra,

Da palavra poema que não escrevi,

De tanto pensar em ti.

Publicado por constalves em 08:47 PM | Comentários (0) | TrackBack

casa

Que se diga das casas,

Como se escreve dos ninhos.

Que se aqueçam os corações em manteiga,

Para que se fale de abrigos,

Dos lares como de casacos de lã,

De cobertores de pés, de afectos e de amigos.

Aprenderei outra vez a soletrar carinho.

Farei poemas na lareira e um presépio no cantinho.

Quero a minha casa mesmo só comigo,

Onde os anjos já partidos me farão um verbo sonoro

Do meu futuro,

Numa estrada pela minha casa em direcção a tudo.

Publicado por constalves em 08:46 PM | Comentários (0) | TrackBack

Ar


Não se encontra, não se bebe,
Não se luta, não se vê,
Não se grita, não pertence,
Não se troca, não se olha,
Não se faz, aparece,
Rasga-se no meio dos dias,
Das bandeiras, das palavras,
Das fronteiras, dos murmúrios,
Ergue-se por dentro da roupa,
Das veias, iceberg de fogo
Que se abre,

Que vive nos outros da minha carne,
O poema,
Que nasce de qualquer espermatozóide,
De um deus tão imperador.

Às vezes só quer dizer o mais importante: ar.

Publicado por constalves em 04:47 PM | Comentários (0) | TrackBack