Quase morto por promessa
Quase morto por promessa,
A jura tatuada em palavra
De ser feliz.
Porque a vida não interessa,
Verdadeiramente não presta,
decompor juros, cautelas, forrar paredes
no corpo de lógica e croquis
e esse amor que andar por aí,
sai levado na palavra
entre o corpo e a terra
ou no epitáfio da pedra.
Quase morto em promessa
Não me resta outro cair.
Voltei à janela
Voltei à janela,
Do largo, as pombas
Do sussurro a luz.
Aquele vento, aquele diz,
O momento.
Todos os dias há esse tempo, a temperatura do teu corpo,
A bondade dos teus dedos,
Todos os dias me arranho nos braços,
Do que me falta do que nunca fiz.
Esse vento, naquela janela, para deitar os olhos
Cá dentro,
Talvez para sempre feliz
Quase felicidade
Um sono profundo, uma pétala branca
No sonho.
Todas as tentativas vãs.
Uma pétala branca voando.
Copérnico estudando a equação astrofísica:
A felicidade rodando,
No carrocel da solidão.
Universo querido.
rimance
Essas ondas do cabelo de tanto mar,
Esses nossos sorrisos e outras coisas nas palavras,
Os nossos braços um no outro,
Nossos filhos a navegar.
Outro mundo na noite, outro marear,
Preso no luto da lua,
No rimance da dor.
Quase vivo nesse olhar.
Sem pressa
Não se anda depressa, não se olha,
Não se abre a carta, todos fazemos devagar, sem
Pressa, a nossa morte com vagar.
Esse infinito olhar, esse hálito de respirar,
Como poderia ser de outra maneira
O nosso ostentado caminhar
Cada passo, cada vírgula, o nosso irónico gozo
De desfrutar.
Tanta chuva caída em palavras, tanto aço em verdades
Tanta carícia no amor,
Do que ficar, ficará gravado no tempo,
Como desespero do pleito
Desta ogiva que me cresce no peito,
Existência, que um dia na pedra um deus gravará.
Onde estarei
Onde estarei antes de nascer,
Este ínfimo pensamento que me parece todo mundo
Onde estará esse mundo mesmo antes do bing bang.
Quem sabe o que não diz e não quer dizer
Como se faz para saber
Onde irei neste caminho, serei?
Qual a porta, qual o prédio onde mora
Este verbo como resposta de só interrogar,
Como quem o quê
Para quê
Quase morto não saberei
Em poesia
Não podia haver saudade,
Nem tarde,
Nem a verdade
Todos poderíamos viver em poesia
Sem idade.
Se a falta da morte fosse vontade.
Morreram todas as pedras
Morreram todas as pedras,
quase todas as folhas,
algumas flores.
Quase todos os meus dedos como pedras,
todos os olhos como as flores,
talvez todos os segredos como todas as folhas.
Mas morreram todas as pedras.
Sabemos isso quase todos os dias
sem que os olhos lacrimejem
sem os dedos. Com as flores sorrindo,
Com as folhas procurando chão.
No Céu
Em todo o lugar
Antes de morrer,
Um postal ilustrado vende o céu,
Uma palavra castrada à procura do seu corpo.
Sinceramente não lhe abram as vossas feridas.
No céu de repente,
Em qualquer funeral.
Quase morto sem mexer,
Sem frio sem cobertor,
Com pequenas palavras sempre dor,
Quase inerte de pavor
Como se a noite engolisse de manhã
O vulcão de amor.
Arde bem a noite
Onde se prantam lírios azuis,
Saem das tocas vorazes
Verbos de bocas abertas,
No escuro,
Das coisas maiores,
Dos muros
Das nossas dores.
O mundo invariavelmente pequeno..
Isto espalha-se pelo corpo,
Pelos olhos pelos dedos,
Nas estrelas nos deuses,
Esta vontade,
Toda a saudade,
Como a luz na Terra,
Quando a sombra na lua,
Faz a eclipse da palavra nua.
Isto ergue-se fala mais, vê,
E consome-se num crescendo arrebatador,
Anti-matéria, nuclear,
Mais que a ideia da existência,
Depois do amor,
Completamente verdade.
Só te acho nesta letra, neste dó de pauta,
Nesta dor de lágrima, só te acho assim,
Nesta misericórdia por mim,
Neste finado de alma,
Neste sim cabisbaixo,
Tão alto, por esta falta tão grande
E eu tão pequeno,
Nesta ínfima letra,
Da palavra poema que não escrevi,
De tanto pensar em ti.
Que se diga das casas,
Como se escreve dos ninhos.
Que se aqueçam os corações em manteiga,
Para que se fale de abrigos,
Dos lares como de casacos de lã,
De cobertores de pés, de afectos e de amigos.
Aprenderei outra vez a soletrar carinho.
Farei poemas na lareira e um presépio no cantinho.
Quero a minha casa mesmo só comigo,
Onde os anjos já partidos me farão um verbo sonoro
Do meu futuro,
Numa estrada pela minha casa em direcção a tudo.

Não se encontra, não se bebe,
Não se luta, não se vê,
Não se grita, não pertence,
Não se troca, não se olha,
Não se faz, aparece,
Rasga-se no meio dos dias,
Das bandeiras, das palavras,
Das fronteiras, dos murmúrios,
Ergue-se por dentro da roupa,
Das veias, iceberg de fogo
Que se abre,
Que vive nos outros da minha carne,
O poema,
Que nasce de qualquer espermatozóide,
De um deus tão imperador.
Às vezes só quer dizer o mais importante: ar.