
Precisam-se de anjinhos em Guimarães,
Para procissão não seguir nua,
Sem alegria e ternura,
Para que os Santos milagreiros,
Não lhes façam mais agruras.
Reze-se com meninos para que a oração pulule,
Que lhes façam dos capitais pecados, perdoadas travessuras.
Às vezes por uma palavra, por uma cor,
Pela vista de um olhar, por um nascer de sol,
um sonho, um luar.
Outras por tempestade, por maré grave,
Terramoto ou dor letal.
Sem rosto, sem voz ou com nudez,
Sem verve ou aridez,
O poeta arrasta-se ou verve,
O poema faz tudo do que é capaz.
Onde está a semente desta Primavera,
Onde nasce o rio da memória,
O fim do fim, ou outro início?
Ficarei aqui no teu colo,
Fazer tempo na tua terra,
Que cresças no meu tempo,
não te esquecerei nos olhos,
Como uma árvore ávida de céu,
Cuidando, florirei.
Não recordarei a tua ausência,
Primavera no Inverno,
Só para saberes, que somos os mesmos.
Pode-se amar vendo,
água, rios no teu olhar?
Só ver, estender linhas infinitas no teu corpo,
adivinhar a doçura do tempo.
Posso tocar-te com palavras, só pequenos versos
de circunstância?
Dedilhar memórias na pele, só de ver, corar.
E dos cabelos, donde trouxestes as manhãs,
os pássaros em romãs?
Ai, que não tenho idade para tanto,
Mas, só de passagem, faz de conta, dá-me o teu olhar.
Os dedos brancos na sombra
são a teia da lua
no corpo da noiva frígida nocturna,
a morte,
vestida de nua,
deslumbrando a noite soturna
raiando outra abertura.
Em tamanha penumbra só um louco poeta
Pode escrever poema
Luar tão inverdadeiro como uma palavra