As aves voam a noite,
Dão o seu voo aos sonhos ínfimos das notas,
As violas das suas vozes,
São lágrimas abertas sem prisão,
E nós, extraordinários sonâmbulos,
Temos o corpo preso à arte,
À arte, daquela que não encontra em toda a noite outro sinónimo.
Este Portugal profundo,
que se bebe nas tuas palavras
é o alfa de uma história
ainda por visitar.
Deixa-me essa porta aberta
para esta minha fechada ave da pátria
poder voar.
Que se leia como respiraste Portugal,
o corpo fundido com a terra,
a vontade como lar.
Esta desilusão ácida de escrever,
Este hábito contínuo de sentir,
Esta dor permanente a sonhar,
Pode vir de ser?
Saíste daqui
Por uma porta que desconheço,
Se calhar a casa que habito
Ainda é a tua casa.
Que tanta coisa faz este Arquitecto.
Começar por qualquer lado,
Pela aba de uma palavra,
Pelo seu sabor, mais que a semântica,
Como se aprende a ler e a falar,
Pelo gosto de sonhar.
Qualquer palavra com a mãe como paladar.
Ao anoitecer
As portas fecham-se mais devagar.
Fecham-se ou quase não se fecham,
Mesmo fechadas parecem abertas.
E nós tão sós parecemos ladrões a passar por elas.
À noite no Verão, as portas fechadas estão escancaradas,
Como almas pululamos em todos os lares.
Tudo muito lento, a solidão tem muito vagar.
Na verdade vivemos como na guerra,
Desesperados heróis do futuro impossível.
E quem te disse outra estrada?
O sol que se põe tão belo é o anúncio
De outro mundo que se vê nas frestas das balas.
Como um tesouro tão bem guardado ou uma palavra impossível da voz.
Só o coração, que não anda, se dirige para lá.