As palavras servem também para matar tempo,
Ócio, deslumbramento, inércia,
Servem para muito mais coisas mas,
Eu gosto delas a saírem em poemas a meio da tarde,
Fazendo voz do meu silêncio,
Dissecando o sangue maldito das incertezas e das dúvidas,
Do verbo mal parado, das tentações indecorosas,
Dos mastodontes interiores, dos fantasmas dos outros que aqui ficam,
Dos diabos prazenteiros das mentiras.
Das horas mortas da tarde, do fiozinho de luz do Sol,
Eu faço teias de verdade que me saem dos poros,
Banhando-me na existência,
Escrevendo outro provérbio substituto,
Pois nem só a morte é certa,
Há o tédio…

Numa palavra, o silêncio,
Um gesto que emana do poema,
Um coração voador que queria ser uma flor.
Estou a ver o lago da paz, no passo elegante do mimo,
Uma árvore verde no ramo de uma luva branca,
A montanha prometida no riso branco.
Bip, nome de som, palavra tanta.
Bela fumaça, sai daqui para o ar.
Vai devagar, não precisa de apanhar o trem.
Sai, sem necessitar de autorização.
Não invade, expande-se em formosura,
num gracejo ingénuo, numa dança sensual.
Só uma fumaça, sem interpretação real.
Insinua o tempo não o metrifica.
Sem identidade, conveniente e pessoal.
Solitária, amiga fiel,
afinal não preciso de escrever um livro para dizer-vos que vivo,
envio-vos um fumo em forma de sinal.
Como numa corrida, quase no fim, cansados.
Quase como na vida, sobreviventes.
Já sem roupas ou palavras, já sem medo,
Sem dó, sem orgulho. Como dejectos, sobreviventes.
Sobre a vida, sob a morte, desprovidos de medo, corajosos.
Como uma revoada de pássaros das praças, já gastos como
As pedras da calçada. Envergonhados, mitigados dos que foram.
Sobreviventes, esfarrapados, entrapados em saudade,
Emulados em bandeiras, violados.
Os olhos vítreos de lágrimas,
De novo o dia, uma pulsão tão insonora com uma lente,
Para ver verdade em vida, como uma morte vencida.
Sobreviventes.
Deixou-me a noite esta omnipotente vontade
De gritar em lamento.
Que há uma dor e um impossível momento.
na janela há silêncio e uma borboleta voando,
Como se eu não fosse importante,
Só a ansiedade da borboleta voando.
Quantas guerras não poderia vencer assim,
Invisível, degolando o tempo.