Só somos o gaiato dos olhos enormes,
o garoto negro de barriga inchada,
a traquinas das tranças ensolaradas,
Somos esse pequeno tempo e só queremos tudo
num brinquedo
Mas somos grandes e aumentamos.
Do outro lado do mundo
vê-se uma estrela que nunca vi
e isso é novidade,
maior que o maremoto do Bali,
ou a ditadura de Burma.
Pudera eu que a pressinto,
ofertar-lhes Esse brilho renascente da novidade.
Há dias que as palavras descansam,
Lavam-se de significados talvez
Em ruas desertas que descansam de multidões.
Ou desaparecem por segredo,
num convénio de exactidões depois de exauridas
de perversões, de incorrecções de destemperamentos.
Talvez não gostem do uso gratuito, da verborreia, da verve aldrabada,
Talvez se cansem dos cansados,
Dos sujeitos predicados, dos nomes adjectivados.
Todas elas devem regularmente visitar,
A matriz, o grande lago gelado,
o cristal adverbial,
do Verbo,
alto altente, mago do mistério.
Há também dias como hoje
Como se o sangue fosse espada
Que retracta a palavra.
Ou vão para os anjos
Que as usam nos perdões e desculpas ilimitadas
As palavras, talvez apenas tenham personalidade sensível
E fujam deste assassínio em massa,
Ou percebam o seu efeito limitado
Que o que está a dar é ter muito dinheiro,
O mesmo com que se compra o dicionário.
Imagino a vida nocturna das árvores,
Que saem como aves das raízes,
Voando almas, libertando-se da matéria.
Multiplicando deuses, exalando sonhos.
Voam livres de um canto contido,
Do que vêem do que ouvem do que sentem,
Dum saber infinito da espera, da testemunha.
Ou não sentem? Ou não vêem, ou não ouvem?
E o seu voo nocturno é uma metáfora
De um lamento,
Como eu no sofrimento.
Uma máquina de escrever,
Qualquer máquina digital actual, é o meu coração.
Lá tem o universo inteiro, pisado, esmigalhado
Por todos os dedos, por todos os mortos
Que nos ficam nas mãos. Há as palavras,
Almas, que espirram dos dígitos,
Exumem-se em versos, em predicados
Ensanguentados, depurados num qualquer chavão.
Preciso desta tinta digital concêntrica,
Que se crava
Em poema,
Em click clack geometricamente irregular.
Deste som a vazio, deste temor telúrico
Do Hades do monitor,
Do abstracto da inexistência,
Da chama intensa do nada computador.
Zero e um, um byte ou um bit tanto faz,
Mas que faz sentir…Ah!