Que falta faz a quem vai dormir
um sonho para adormecer...
cá vou eu, escravo,
para o quarto com uma palavra atrás.
Não ficava bem comigo senão te dissesse,
digo-te o que já sabes,
que te amo,
da maneira mais simples que se pode amar,
com esse verbo na boca, olhando-te partir.
quando escrevo um poema
fecho a janela.
o ar que entrou antes da janela fechada,
é o pólen do poema,
eu sou a abelha fechada,
que passou o dia inteiro numa palavra.
Na colmeia de janela fechada, penso,
fumo um cigarro,
mesmo que o não fume, penso.
faço mel,
abro a janela, para sair o fumo,
mesmo que não fume um cigarro.
ainda não falámos da chuva,
da falta que nos faz,
de nos mudar o olhar,
de nos fazer sérios com o mundo,
da falta que faz, à agricultura, ao pão
que comemos todos juntos.
A falta que nos faz, como reticências
de um queixume, de como poderia ser
se o que deve vir, viesse.
a chuva,a água que nos falta,
que é o corpo que procura as palavras,
o corpo, ouves-me, o nosso corpo também é conversa.
Tenho
na minha vida um bilião de coisas mais importantes que a poesia.
E das coisas que não tenho?
Como as poderia alcançar sem ela?
mesmo sendo um só momento,
posso ver o teu hábito,
o olhar num verbo ou um sorriso
no teu corpo,
nesta tarde luminosa, não há noite,
maravilhosa insónia o teu reflexo.
é como um comboio pesado,
batendo as mandíbulas no tempo,
fazendo sola do corpo.
andamos quilómetros perdidos,
à procura de um resto,
de uma pista branca,
mas não há mais do que silêncio.
Assim, mesmo o nada seria completo.
esta flor diurna
veio comigo para casa
depois do anoitecer,
disse-me que mesmo desejada,
preferiu a minha solidão,
talvez pela timidez ser tão terna.
Itzamná,*
Seres do outro mundo,
sombras das palavras do corpo,
vibrem neste acorde de arte,
o meu crânio soterrado aberto,
derrama sangue de cristal,
o quartzo do verbo,
a Voz quente.
* deus Maya
Verbo noite,
conjugada,
um silêncio errático em fumo,
à procura na dor a aurora.
(titulo de Rosangela Aliberti)
Há carne que não é carne,
um bocado de ideia,
ou pior
criatividade
ou a mal cheirosa imaginação,
chamam-se de palavras
para criar boa impressão.
mas não passam de devassas
que iriam o nosso precioso coração.
não se pode fumar aqui,
há uma palavra
que se entonteceu,
ditou, proibiu o uso
do desuso de usar
outras palavras
que não fosse
é proibido fumar aqui.
não fumei, para não prejudicar a bica
que não cabe aqui,
também!
agora é noite,
tempo de mergulhar num sono viajante,
ficar solto das casas, das roupas, das palavras.
ficar eterno sublime num monte,
vendo o vento subir
a chave de vidro do arcanjo.
derrama-se o chá frio no colo...
a noite como gelatina doce,
que adoça a dor,
esquece, escurece
o clarão do nada,
fica tudo mais doce,
a alma enche,
não se sabe,não se tem memória
desta contradição
maré cheia e solidão
pela noite dentro, vou sair agora.
lá fora está a lua,
por detrás da janela.
o silêncio lá fora é diferente do de cá.
na rua
o silêncio tem a lua
o mar está longe daqui,
o que aqui chega são as ondas,
e o marulhar,
só podemos assim fazer poemas menores,
com barcos a partir, velas no ar...
precisava de ver o coração, o sal em formação,
as palavras autóctones da génesis expelidas
em turbilhão,
como eu penso que seja o mar,
um músculo de água,
um verbo ígneo,
um rei imperador.
O que daqui se vê no longe da praia ao Sol
é a infinita expressão
de uma dor.
é um crime escever-te estas palavras,
parece que morres outra vez.
Se eu as apagar também morrerás em mim.
a solução
é dizer-tas para dentro,
para que não saias daqui,
a ilusão, única sobrevivente
de nós.
e voa, voam dedos no adeus,
é o pássaro,
a voz do amor.
quase aurora, quase tempo,
ainda noite vazia e planura,
um seco zero à procura,
do sustento do dia inteiro.
ainda as ânsias insónias são magrura do desejo,
por tanto carvão lavrado.
Vendo-me , pelo alívio da luz,
ou pela forma da noite.
Vendo-me de casaco e sapatos pretos,
com poemas etéreos na algibeira.
Vendo-me desconfessado do pecado,
Vendo-me por nada que substitua o tempo.
pela controvérsia do sentimento.
por fogo, que ferva a água
por ardor que enfole o grito.
por semente que cresça o peito.
por palavras que imitem vida. por uma palha,
por um seixo que me couracem a alma,
para ver e não olvidar o que do mundo sinto.
pelo poema, pela voz, país independente.
Nesta inobilissima cobardia,
lamento, o que me compra o que vendo:
a vida ,
vade retro tanto lucro.
Vem como a noite,
fechando a luz,
insinua-se como uma mulher,
exalando mistério.
executa como um relógio,
pontual.
Veste-se da mais implacável traição,
a morte.
Conheço-te os passos, o teu odor de Inverno,
a tua fome de existência,
infeliz, nunca saberás este poema
que se faz da incerteza,
da nobreza do amor,
da vontade do sal e do vento na cara.
não sentirás nunca
esta palavra na boca
Será essa Matemática tão boa?