maio 26, 2008

Do que me sobra o tempo

 

Não posso esquecer-me de lavar a minha útil louça,

logo a seguir enviar os imprescindíveis formulários das Finanças,

planificar o ensino meticuloso da aula de Matemática,

verificar a economia caseira das lâmpadas eléctricas,

seleccionar o lixo reciclável doméstico, arear a medalha doirada

de mérito da freguesia, prever, calcular, resistir e produzir o dia posterior

à minha ansiedade pontual diária.

Mas, antes do ponto final, do sonho tresloucado nocturno,

terei de sobra tempo, para saber o mundo por dentro,

das dores profundas dos lamentos, dos anseios dos infelizes

e descontentes, tempo para compreender que no planeta, para além da física ambiental e funcional

há gente, muita gente necessitada de direito, liberdade, cultura, alimento,

que fenece para além da minha economia caseira das lâmpadas electricas,

que sou pelo menos responsável dessas vozes se fazerem ouvir pelo menos num poema meu,

dizendo que a utopia da Terra no seu equilíbrio sustentável é urgente,

e a utopia é só aquilo que ainda não alcançámos porque muita gente se esquece,

que sobra ainda tempo depois de arear a medalha de mérito da freguesia.

Publicado por constalves em 07:10 PM | Comentários (4)

maio 15, 2008

Falta mar neste bairro

Falta mar neste bairro,

nesta areia pardacenta das ideias,

todas as casas viram-se para dentro,

de janelas metálicas, do hálito calculado,

foi país, até já foi mundo,

agora é um comum bairro,

sem mar,

mal humorado,

come-se peixe seco endividado,

há falésias por perto,

um circulo completo,

uma multidão, todo o universo

suicidado,

quer-me rebentar no peito um barco,

mas nesta água não navega,

porque se faz de sentimento,

dou mais valor à chuva lá fora

que bate forte no bairro.

Publicado por constalves em 10:23 PM | Comentários (19)

maio 06, 2008

ausência

estou em directo com a noite,

uma ligação única,

pela ausência,

dela pela falta de luz,

em mim pela falta de verbo.

paradoxo de comunicação,

como se podem aliar diferentes verdades.

a ausência será certamente uma chave.

Publicado por constalves em 06:17 AM | Comentários (8)

maio 01, 2008

a noite 3

a noite, a preguiça do Sol,

um Sol fechado, um punhado de estrelas lentas,

que bebericam a sombra, ardidas sugam o gelo.

também nós sofremos de ausência,

embora mais dramáticos,

engolimo-nos de dores,

pelo nosso epicentro ser o astro sentimento.

Publicado por constalves em 04:04 AM | Comentários (5)