é à tardinha que eu gosto
de deitar os meus olhos na janela da cidade
e ficar a ver...
aquelas silhuetas contra a luz,
inclinadas para a frente,
derrubando sistemáticas contribuições e impostos,
vencendo a calçada rasgando facturas e recibos,
pestanejando às loiras de pernas descobertas,
e elas cortejando o silêncio com um sorriso nos lábios.
Mesmo nos totolotos há qualquer coisa de ironia,
talvez o sangue vencendo i r esses,
contra as mãos ternas das vendedoras de lotarias,
um sexo descoberto nas palavras mais sonoras que as dívidas,
naqueles ditongos nossos como nas palavras au fe rir ou mi lhão.
As baionetas dos dedos nos vulgares guiadores motorizados, enrolados
em calor, peitos arfando ansiosos de lares.
os garotos todos abertos de vozes cheias estridentes,
pisando jornais económicos e revistas de arquitectura,
dentaduras bem arejadas deglutindo novelas, comendo omoletas,
esquecendo empréstimos exigentes satânicos.
O Presidente da Républica no lavabo rabuscando contente um discurso
para o banco alimentar contra a fome.